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Viana Social &
Cultural / Fina d’Armada de Armada / Minho / Ouro de Viana /
Festas de Nossa Senhora da Agonia

O ouro das vianesas
e os ritos de fertilidade
Ei-las que passam na
avenida dos Combatentes, com Santa Luzia ao fundo! São mordomas
da festa da Senhora da Agonia, de cabeça levantada, em quentes
Agostos. Trazem o peito coberto de ouro, como se bocadinhos de
Sol se tivessem transplantado dos altos céus.
O ouro não é colocado
ao acaso, livremente sofrendo a acção da gravidade. É preso ao
vestuário, disciplinado, para que o peito fique uniformemente
coberto. E o ouro surge-nos, assim, sob o formato de triângulo,
de vértice para baixo.
Elas exibem o ouro
faiscante ao peito e nas orelhas. Não se vêem anéis ou
pulseiras, as mãos estão livres. Livres para o trabalho. O uso
do ouro pelas vianesas tem significados ocultos.
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Estátua-menir feminino
de Bulhosa, Paredes de Coura
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Não se vêem anéis ou pulseiras, as mãos estão livres…
Que mulheres usam mais
ouro?
- As noivas -
vestidas de negro, A cor do poder.
- As mordomas - com
uma vela votiva para acender a uma santa.
Quando observamos todo
aquele ouro, disposto em triângulo, todo verdadeiro para nosso
espanto, percorre-nos uma sensação de respeito, como perante uma
visão sagrada e mítica.
Por que acontece isto
no Minho e não noutras regiões do País ou até do mundo?
Porquê no Minho?
Tudo teria começado na
Pré-história. O ouro seria usado por quem detinha poder. Antes
de Cristo, testemunha Estrabão, as mulheres eram, no Noroeste
peninsular, as detentoras da propriedade que a passavam por
linha feminina. E esta, para mim, é a razão subterrânea do poder
das mulheres do Minho, Já vem do fundo dos tempos.
Estrabão, autor romano
que viveu no tempo de Cristo, entre c. 65 a.C. a 25 d.C., refere
na zona cantábrica, abrangendo Minho e Galiza, uma espécie de
“ginecocracia” (matriarcado). Diz que “todas as mulheres
bárbaras trabalham a terra” e que o marido “está obrigado
a dotar a mulher; e as filhas, que herdam delas, têm a obrigação
de casar seus irmãos, o que constitui uma espécie de
ginecocracia, ainda que não como regime político”(1).
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Colares da estátua-menir do Minho, com 3500 anos. Será uma noiva?...
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Colares das noivas
minhotas na actualidade
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As filhas, que herdam delas, têm a obrigação de casar seus
irmãos
Apesar de Estrabão ser
do tempo de Cristo, ele seguia autores mais antigos, segundo
Armando Coelho. “Estrabão, Apiano e Avieno, seguem crónicas,
cartas de navegação e escritos geográficos gregos ou púnicos, e
autores mais antigos, muitos deles bons conhecedores da
Península, cujos textos originais se perderam...”(2).
Portanto, já no tempo
dos Galaicos, dos castrejos, portanto, existia “uma espécie de
ginecocracia” na região do Minho e Galiza. E os bens, tal como o
ouro, eram passados por via feminina.
As minhotas vencem os tempos
Foram os Romanos os
primeiros a enfrentar a força das mulheres do Minho. Elas
matavam os filhos para não pertencerem aos vencedores. Vestiam a
roupa dos mortos e iam para a luta. Elas marcharam sobre o
Porto, mataram o governador e foram mostrar para Braga a sua
cabeça.
Mas a romanização
venceu e retirou poder às mulheres. Os filhos passaram a ser do
pai. Veio o Cristianismo e o poder das mulheres sofreu outro
rude golpe. Acabaram as deusas (passou a adorar-se um deus
masculino e único criador da vida). Acabaram as oficiantes (elas
foram proibidas de tocar nas coisas sacras… e ainda hoje não são
sacerdotes). Acabaram os ritos de fertilidade, a veneração das
fontes…
Os Mouros, mais
opressores que os Cristãos, permaneceram vários séculos na
Península. Trouxeram a poligamia, retiraram às mulheres o espaço
público, tornaram-nas invisíveis, taparam-nas com farrapos
deixando-lhes só os olhos de fora.
No Minho, não se nota
que os Mouros tenham feito “estragos” no poder das mulheres. Mas
como essa opressão, tanto cristã como muçulmana, provinha
sobretudo da religião, então as mulheres deram a volta e
privilegiaram o culto da adoração a entes femininos – santas e
Nossas Senhoras. E perverteram o sentido religioso da tristeza e
sacrifício, em festa e alegria.
Uma particularidade
interessante é que o ouro não era, nem é, usado só pelas
mulheres ricas. As pobres, quando conseguiam uns tostões,
investiam no seu cordão.
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Arrecada de Carreço
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Arrecadas de Viana
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O ouro não era, nem é, usado só pelas mulheres ricas
Nos Descobrimentos,
muitos homens partem e as mulheres tomam conta da província.
Renasce nelas o antigo poder de serem detentoras da propriedade.
A Lei Mental e dos morgadios impõem-se. Tanto as riquezas
públicas como os bens familiares são dados descaradamente aos
homens com legistas, sábios e Igreja a concordar. A romanização,
o Cristianismo, o domínio dos Mouros já as haviam despojado das
riquezas e, agora, a Lei dá a machadada final – os bens passam
de homem para homem e tinha de ser filho legítimo.
Renascem forças
antigas, num tempo novo, forças subterrâneas, e a mulher
descobre que o ouro, riqueza que vem da Pré-história, se pode
contrapor à propriedade masculina.
Mas como fazer isso
sem reacção social? A princípio ela não vai usar o ouro como
riqueza, mas como algo de sagrado. Como um talismã para a sua
própria fecundidade. Por isso é bem aceite por todos. Os cultos
masculinos foram subtilmente substituídos por cultos femininos.
A Sr.ª d’Agonia, de sofrimento extremo, reminiscência de um
antigo culto à Lua, foi transformada na romaria mais alegre do
País. E assim, com a ajuda do sagrado, de cultos femininos, da
festa, as minhotas conseguiram enganar as leis e fazer reviver
tempos anteriores à romanização em que os bens se transmitiam
por via feminina.
O menir feminino – hino impar à
fertilidade
A “ginecocracia” de
Estrabão é apoiada por vestígios arqueológicos. No Sul do País,
encontramos menires fálicos. Mas no Minho, em Paredes de Coura e
Ponta da Barca, encontramos menires femininos. A gravura mostra
o de Paredes de Coura, serra de Bulhosa, com seios e colares.
Mas repare-se agora na
cabeça da estátua. Nós dizemos “cabeça”, mas o que lá está não
se assemelha ao formato normal duma cabeça humana nem de bicho.
Não é arredondada, não tem crânio, nem olhos, nem boca, nem
cabelo. Então o que significará? Se lhe retirarmos o volume,
essa “cabeça” tem o formato dum triângulo, mas dum triângulo
cónico, com o vértice para cima.
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Arrecada da 2.ª Idade do
Ferro,
Norte de Portugal
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Arrecadas da Citãnia
de Briteiros
(séc. II a.C. – I a.C.)
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Camilo diz-nos que as mulheres trabalhavam no séc. XVIII e que
investiam em ouro
“O triângulo com o
vértice para cima simbolizava o fogo e o sexo masculino; com o
vértice para baixo, simbolizava a água e o sexo feminino e, pela
sua semelhança com o púbis, está muito ligada a motivos de
fertilidade”(3).
Portanto, o triângulo
para cima assemelha-se à pujança da masculinidade necessária
para a procriação e o “renascimento” da vida. É esse o sentido
dos menhires fálicos do Sul, dizem, com uma intenção mágica de
fertilidade, considerando o campo um útero.
O triângulo feminino nas jóias da
minhota
Em Lisboa, no Museu de
Arqueologia, visitei, em Março de 2008, uma esplêndida
exposição: “Ouro Tradicional de Viana do Castelo – da
Pré-História à Actualidade”. Publicaram também um livro de apoio
com o mesmo título(4). Tomo a liberdade de reproduzir algumas
imagens desse catálogo, porque exemplificam a minha teoria.
A arrecada encontrada
em Carreço data da Segunda Idade do Ferro (“Ferro Castrejo”).
Reúne, tal como o menir de Paredes de Coura, os símbolos da
fertilidade masculina e feminina. Foi comprada por Leite de
Vasconcelos, por 237 000 réis, em 1905. Repare-se como essa jóia
tem o triângulo de vértice para baixo, o ventre com 5 objectos
redondos, como que fecundado, tendo no meio um espaço com o
formato do órgão masculino – um hino à fecundação humana.
O Museu Arqueológico
de Guimarães, Sociedade Martins Sarmento, guarda umas arrecadas
dos séc. III a.C. - I a.C., encontradas na citânia de Briteiros.
Repare-se no triângulo masculino para cima e no triângulo
feminino, redondo, para baixo.
As arrecadas eram
usadas pelas mulheres do povo. Camilo Castelo Branco,
referindo-se a uma mulher do séc. XVIII, em 1750, de Póvoa do
Lanhoso, diz no seu livro sugestivamente chamado “O Demónio do
Ouro”: “Durante a longa doença de seu marido, Luísa vendera
dois cordões e arrecadas, que em solteira ganhara na tecelagem,
para suprir ao cirurgião e à botica”(5).
Por esta frase, Camilo
diz-nos que as mulheres trabalhavam no séc. XVIII e que
investiam em ouro, riqueza usada quando havia uma grande
dificuldade na família.
D. António da
Costa(6), refere em 1873:
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Inscultura feminina
no Lindoso (Ponte da Barca, Alto Minho) |
“A primeira minhota
que me surpreendeu foi uma lavradeira da freguesia de Deucriste…
Das orelhas pendiam-lhe arrecadas resplandecentes, ao redor do
pescoço um grilhão de oiro em cinco voltas...”
Portanto, no séc.
XIX, era
vulgar o uso quotidiano de arrecadas. O uso dos brincos à rainha
impôs-se no final desse século.
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Brincos à Rainha. Têm um
corpo redondo e móvel no interior (bambolina) |
Os brincos à rainha são um bom
exemplo para atrair a fertilidade para a sua portadora
Observemos agora o
formato desses brincos - as arrecadas são circulares, tem outro
círculo móvel dentro, e terminam com um triângulo com o vértice
para baixo.
Vejamos agora uns
brincos à rainha - sobressai uma parte redonda, como um ventre
“germinado”, “fecundado”. Dentro, solto, vê-se uma roda mais
pequena e móvel, que poderá significar o filho preso
ligeiramente à mãe mas que é independente e sai do ventre.
Designa-se bambolina, porque balança. E para terminar a jóia,
voltamos a ver um triângulo invertido, símbolo do feminino pela
semelhança com a púbis. Pode não ter havido essa intenção, mas
tanto as arrecadas como os brincos à rainha, são um bom exemplo
de uma manifestação de louvor, de culto talvez, um pedido para
atrair dos astros e do sagrado a fertilidade para a sua
portadora.
Mas já que falamos em
triângulo com o vértice para baixo, símbolo feminino de louvor à
fertilidade, comparemos agora as voltas da estátua menhir de
Paredes de Coura e o ouro das vianesas ao peito. Três mil e
quinhentos anos as separam, três milénios e meio! Em ambas as
situações, tantos os riscos pré-históricos como a disposição do
ouro das vianesas actuais, têm o formato dum triângulo com o
vértice arredondado voltado para baixo. Como já se explorava o
ouro na Pré-História, serão de ouro os colares do menir?
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Conta de brinco suevo-visigótica com SS |
O triângulo pré-histórico na pedra
e no brinco
Ponhamos agora lado a
lado uma inscultura encontrada no Lindoso, Ponte da Barca, com
outra arcada do Norte de Portugal. Esse desenho lavrado na pedra
é atribuído ao início da Idade do Bronze. Quanto à arrecada, é
posterior, da Segunda Idade do Ferro. Constata-se perfeitamente
a semelhança – o triângulo púbico, os orifícios, talvez boca e
olhos, os círculos, os redondos dos seios e ventre. Portanto,
talvez possamos concluir que o ouro tinha um significado, não
era apenas um adorno.
O símbolo dos “SS”
A Câmara de Vila Nova
de Cerveira é proprietária de uma conta de brinco datada da
época suevo-visigótica. Esta conta tem a particularidade de ser
decorada com SS. Os SS são um motivo decorativo de diferentes
jóias em ouro de Viana usadas ainda na actualidade.
O que significa esse
SS?
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Brincos com SS (bambolina
e formato de Vénus) |
O ouro é usado, embora de uma maneira inconsciente, como uma
prece, uma perpetuação, um louvor à vida
Segundo o conhecido
ourives Manuel Freitas, são o desenho estilizado de dois patos a
voar. Segundo este coleccionador(7), os patos são o “símbolo
da união e da fertilidade conjugal, ao qual se junta, por vezes,
a noção de força vital, pelo facto do macho e fêmea nadarem
sempre em conjunto… Actualmente, estas formas aparecem nas
arrecadas de Viana e nos brincos parolos (nos primeiros, em
forma de “SS”, e nos segundos de forma explícita”.
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Algibeira do Traje de
Viana. Sobre o redondo do ventre encontram-se
duas partes semi-soltas,
como dois seios. |
A Vénus da algibeira e brinco
E essa força mítica,
que alia traje e ouro, continua a louvar a fertilidade feminina
talvez inconscientemente. Imaginemos as estátuas de Vénus
bojudas e grávidas da Pré-história. Comparemos agora com uma
algibeira e com um brinco actual.
Quer dizer, de
diferentes maneiras – menires, insculturas na pedra, arrecadas
pré-históricas, brincos, traje – encontramos símbolos de
fertilidade. E, de uma maneira única, encontramos a fertilidade
masculina e feminina a par. Assim, no matriarcado, quando as
mulheres detinham o poder, elas não anularam os homens. No
patriarcado, os homens não anularam as mulheres. Segundo Frei
Luís de Sousa, (c. 1619), os homens de Viana eram “mais que
liberais”(8). Daí a singularidade duma província.
O ouro é usado ainda
hoje, embora de uma maneira inconsciente, como um rito de
fertilidade. Uma prece, uma perpetuação, um louvor à vida.
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Bibliografia
(1)Estrabão,
Description da Iberia, trad.
Antonio Blasquez, vol, 8º, Madrid, 1900, pp.19-51.
(2)Armando
Coelho, “A Idade dos Metais em Portugal” in História
de Portugal, I, (dir. José Hermano Saraiva), Lisboa,
ALFA, 1988:123.
(3)Manuel
Rodrigues de Freitas, “Ouro”, in Cadernos Vianenses,
tomo 32, Viana do Castelo, Câmara Municipal, 2002: 186.
(4)Alberto A.
Abreu at al., Ouro Tradicional de Viana do Castelo –
Da Pré-História à Actualidade, Museu de Arqueologia
e Câmara Municipal de Viana do Castelo, 2007: 7.
(5)Camilo
Castelo Branco, O Demónio do Ouro, Lisboa,
parceria António Maria Pereira, 1905: 33.
(6)D. António
da Costa, No Minho, 2ª edição, Porto,
Figueirinhas, 1900: 233-234.
(7)Manuel
Rodrigues de Freitas, “Ouro”, in Cadernos Vianenses,
tomo 32, Viana do Castelo, Câmara Municipal, 2002: 187.
O brinco foi
retirado do Catálogo da exposição “Ouro Tradicional de
Viana do Castelo – Da Pré-História à Actualidade”, 2007:
62. A algibeira é a minha.
(8)Frei Luís
de Sousa, Vida de D. Fr. Bartolomeu dos Mártires,
Livro I, cap. XXVI, 1619.
Créditos das imagens
Catálogo da Exposição do Ouro,
no Museu da Arqueologia
Colecção particular da autora |
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