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Teatro Noroeste

uma crítica desprendida
Alexandre C. Marta
Este é um texto
para quem foi ver. Porque vimos, dizemos que há sempre uma
agressividade, uma afectação e um exagero na representação
portuguesa, que às vezes nos levam a pensar que o que acontece
nos nossos palcos não é representação mas “figuração”, perdoe-se
a expressão. Explicamos: se os anglo-saxónicos conseguem dizer
tudo com um olhar ou um meneio do pescoço, um gesto da mão,
parece que nós temos de nos pôr aos saltos e aos berros para que
algo chegue até ao público…
Pouco mais de ano e meio passado sobre a nossa edição número 28,
de Maio de 2005, na qual pusemos em causa a continuidade do
Teatro Noroeste (Centro Dramático de Viana - CDV) e que tanta
surpresa e estupefacção causou pelo seu conteúdo, veio a público
a peça “Com Pêlo do Mesmo Gato”, de Júlio Dinis, apresentada nas
folhas volantes como “comédia divertidíssima”. Antes,
tínhamos afirmado que, se queriam espectadores, deviam fazer
teatro para o povo e não manter o contínuum daquilo a que
chamámos de “veleidades e masturbações intelectuais de
encenadores, actores e de toda essa malta que roda à volta do
teatro”.
Não
pretendemos ter tido qualquer influência na escolha da peça
colocada em palco por parte do CDV e que resultou na sua última
produção, a 84.ª, apresentada no Teatro Sá de Miranda entre 10 e
22 de Fevereiro último. Mas se esta escolha algo possa ter a ver
com algo que pudéssemos ter escrito, ainda não foi desta. Vamos
ao “filme”:

Estivemos presentes no último dia, numa sala acolhedora onde
observámos uma plateia bem composta com mais de metade dos
espectadores abaixo da casa dos trinta anos, talvez com um bom
quarto constituído por miudagem até aos vinte, e o resto para
cima. Média etária na faixa dos 35-40, o que é sempre
satisfatório. Um público de cerca de cem pessoas, desde
pré-adolescentes até à casa do “maior ou igual a 65”.
Antes da peça já não se ouviram, na apresentação da mesma - após
alguns “falsos começos” -, aquelas queixinhas pela falta de
subsídios, queixinhas de que nos queixámos na tal edição número
28. Vá lá. Ouvimos antes uma referência à “originalidade”
da peça que era “divertidíssima”, “referenciada nos
quatro cantos do mundo”, sendo “teatro da mais alta
qualidade”, tudo dito jocosamente. Mas não era necessário.
Sabemos que Júlio Dinis não é propriamente grande espingarda nem
como dramaturgo nem como poeta, até porque conhecemos todas as
suas obras escritas. Um texto para sopeiras, se bem que bem
encenado e melhor representado, apesar do atrás escrito. Fica
uma nota aos eternos atrasos daquela gentinha, vestida como um
reposteiro, que gosta de ser vista sentando-se após o início do
espectáculo. É barrando essa gente que se ensina.
A
propósito de inícios, o da peça, a dado momento, parecia o filme
“Branca de Neve”… nunca mais subia o pano. Mas tudo bem, o
Teatro Noroeste já nos habituou a “novidades” e tornam-se sempre
interessantes. Imediatamente a seguir: um quadro familiar com
cinco cadeiras em quase meia-lua num diálogo de gestos e
movimentos estapafúrdios entre a “mãe” e a “filha”, num diálogo
onde as cartas escritas referidas bem podiam ter sido
substituídas por mensagens SMS entre o pretendente e a
pretendida, a menina dos calores que os confessa à mãe,
conivente com os seus ardores; entra o pretendente, bacharel ao
estilo do séc. XIX, que odeia a Universidade de Coimbra
julgando-se o suficientemente importante para que essa o odeie
também. Não gostámos da maquilhagem da “mãe”, e também da do
“pai”. Pálidos como mortos. Deve ter sido de propósito. Até aqui
vimos que a parte “divertidíssima” mais vinha dos
supostos “erros” cometidos no ensaio representado da peça, do
que de qualquer outra coisa. E a propósito das tais
movimentações estapafúrdias, perguntamo-nos se as cadeiras em
palco são as mesmas desde as primeiras representações. É que,
coitadas, bem sofreram. É por estas e por outras que
gostaríamos, um dia, de ver, cá em Viana, algo “mais à inglesa”.

Quanto ao resto, o costume. O Noroeste nunca nos deixou ficar
mal quer na encenação, quer nos cenários em si; os recursos, em
termos de adereços, foram bem aproveitados; os actores, ao
nível, com especiais destaques para o “Sr. Fernando”, o “pai”,
quase sempre sentado, uma posição que não é a melhor para lançar
vozes, tendo-o feito excelentemente; o mesmo para Ricky, o
primo, que por vezes, apesar dos outros quatro personagens
estarem em cena, sozinho enchia o palco; tempos de entrada e de
saída através do espelho e do quadro, sempre feitos dentro do
tempo; boa adaptação do texto original às vivências vianenses;
bem o jogo com a pronúncia do Norte. Perguntámo-nos foi, em
várias alturas, é se os actores estariam convencidos do texto
que diziam. Talvez a profusão de gestos e movimentos que vimos e
encontramos normalmente na comédia “stand up” e na “physical
comedy” demonstre um não, mas isso só eles saberão,
verdadeiramente.
Uma
nota: foi aceso em palco um charuto verdadeiro – e depois um
cigarro – que bem congestionou os ares do Sá de Miranda.
Magnífico! Os nossos muitos, afectados e exagerados parabéns a
toda a direcção artística. Acender um cigarro que seja em cena,
hoje em dia, é sinal de rebeldia, em tempos em que teatros, no
estrangeiro, são obrigados a encerrar as suas portas pelo
atrevimento. Só por isto valeu a pena. Espero é que não lhes
tenham aumentado o seguro contra acidentes. Mais uma nota
negativa para certos elementos do público. Em tempo de
perseguição radical e fanática ao fumo e aos fumadores, há
sempre umas "abébias" com umas tosses exageradas, assim que se
apercebem que o tal charuto era a sério. Vi alguns que nunca vi
em transportes públicos.
A
peça em si é medíocre, se bem que a coisa tivesse sido encenada
com uma certa graça, estabelecendo uma correlação entre o séc.
XIX e os tempos actuais, numa “ambience” que nos levou a
recordar a peça de Almeida Garrett “Falar Verdade a Mentir”,
neste caso, com um pretenso galã do séc. XIX, interpretado por
um determinado tipo de maricas da actualidade, ambos
narcisistas, num permanente jogo com o espelho em cena. “Nada
disto tem sentido”, “é um absurdo”, disse o diálogo,
bem dito porque da história em si não trouxemos nada. Valeu a
pena ter ido? Por muita coisa valeu. E no fim da história a
vontade da mãe vence contra a do pai, coadjuvado pelo “médico”,
que perde, ganhando a fogosa “filha” um galã representado por um
pretenso maricas. Acabam todos emparelhados em casais, “freira”
incluída.
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