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“Gira pr’ó Inferno!”

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Foi a
última produção do Centro Dramático de Viana (CDV). Para a
próxima talvez lá estejamos…
Texto:
Inês Marta com
Alexandre C. Marta
Fotos:
Rui Carvalho
À entrada
para a plateia, distinguem-se, imóveis, dos lados do palco, à
frente, duas personagens, a modos de estátuas, que personificam
na peça o “Anjo e o “Diabo”. Bem colocados pois são
omnipresentes.
Depois, em
jeitos de início, cordas e violinos em música de câmara numa
sala acolhedora no meio de uma noite fria a que em breve se
sobrepõe sons de instrumentos orientais acompanhados de uma
percussão crescente. As estátuas mantém-se quietas (mas com
olhinhos muito observantes, gostam de nós), até surgir o pregão
que dá mote à peça em “voz-off”, dando um ambiente medieval à
coisa, o que foi bem conseguido.
Terá sido
o melhor arranque de uma peça levada à cena pelo CDV nos últimos
anos, ou então somos nós que somos uns lamechas por se tratar de
Gil Vicente. Um arranque que finda com a queda violenta de uma
pedra, num cenário que não se alterou até ao final e que nos
pareceu um pouco frio, excepção feita aos buraco dos infernos
guardejado por um “demo” que, mesmo com uma voz adequadamente
abagaçada, até de costas se ouvia distintamente (Jorge
Filgueiras); idem para Elisabete Pinto, “O Anjo”. A roupa
espalhada pelo palco dava bem a ideia de que não levamos nada
para o outro lado.
A peça
Dá-se um
intróito com a entrada de três personagens negros, dúbios como a
vida e a morte, com o Diabo na esquerda do palco, à mão
sinistra, e o Anjo à direita, naturalmente, ambos com tacões
altíssimos, ou não estivessem noutro plano da existência e da
moral, face aos “passados” que por lá iam passar e a nós todos.
Retirados
estes para os fundos donde vieram, surge “O Fidalgo”, D. Anrique
(Ricardo Simões), ainda o espectador está com a “banda sonora”
no ouvido, e com uma agitação interior que nos soube aos
saudosos tempos do “Arraial, Arraial”, envolvendo o espectador.
O personagem seguinte, que entra no palco vindo da plateia, é o
“Deputado” (Ricardo Simões)
e aí se começa a transformar a
plateia em palco, também. Os discursos directos ao público
completaram bem a intenção e aqui se começou a reconhecer a
adaptação da centenária obra à actualidade.
A
imobilidade do Anjo foi sempre sendo admirável, com bom controlo
do corpo, já a projecção da voz do candidato foi insuficiente
para se distinguir bem, a certos tempos, com muito pouco ar no
fundo dos pulmões.
Segue-se a
cena do prestamista, ou “Onzeneiro” (Tiago Fernandes)
e começa o palavrão vicentino,
um recurso que só mesmo no Mestre apreciamos, e de que foi
mantido o original do texto, sempre tendo cabimento necessário.
Não houve nisto a vulgar sensação de vulgaridade gratuita. E
então novo personagem emana de entre o público, percorrendo o
corredor entre cadeiras, um “onzeneiro dos tempos modernos”,
indivíduo ligado aos bancos, com (Tiago Fernandes)
a dinamizar uma mise em céne
bem animada.
A
introdução destes novos personagens, a vir do público em
direcção ao palco, intermediando com as personagens vicentinas,
foi um rasgo bem lembrado. E nas rimas dos diálogos lá foi
assentando no fio condutor do discurso geral. Confessamos,
impossível não ter gostado desta representação, “divertidíssima”
sim, mas esta e não a outra; contudo, relembramos que somos
muito lamechas com Mestre Gil Vicente. Mas, enfim, assim sim,
vale a pena ver. E o Onzeneiro dos tempos modernos foi
espectacular a encher o palco, diga-se em abono da verdade
Seguiu-se
“O Sapateiro” (Ricardo Simões), personagem original deste “Auto
da Barca do Inferno”, a entrar em cena pelo palco, uma vez mais,
pois os “novos personagens”, esses, surgiam do meio do público,
uma vez que pretensamente nos representam a todos nós; boa
malha, uma vez mais. Os actores alternavam no papel dos
personagens, melhores aqui do que acolá, com boa média no
desempenho.
Vem depois
o “vendedor-da-banha-da-cobra actual, perfeito vigarista
mentiroso que tudo coloca à venda (ou em cima dos espectadores –
ficou a alface no chão, por sinal fresquinha, trouxemos o chá.
Entra
então “O Parvo” um (Sílvia Santos)
fantástico num dos seus
melhores desempenhos, com uma dinâmica impressionante numa peça
já de si movimentada, um parvo emocionante a que se opôs outro,
moderno, com bastante sal, talvez menos pimenta. E que assim
ascendeu aos céus.
Segue-se
“O Enforcado” (Ricardo Simões)
que irá purgar. Aqui, um bom
apontamento à utilização da cortina como adereço. Parecia viva…
-
“Drogas para todos os gostos” que dão desgostos!” – sai um
“janado”/Drogado (Ricardo Simões) da plateia para o palco,
impertinente tanto quanto as impertinências que não desaparecem
nestas coisas, sobre o espectador, uma vez mais. Salvou-se disto
o “demo”, com uma boa “moca” bem snifada.
Na entrada
seguinte, surge “O Frade” (Tiago Fernandes) com “A Moça”
(entenda-se…) cujas projecções futuras ofereceram-nos um casal
composto pela menina da T.V./Assitente (Sílvia Santos) - no caso
uma assistente de produção - e o homem da T.V. (Tiago
Fernandes), numa crítica aos Órgãos de Comunicação Social (OCS)
que se arrastou indefinidamente, precisando mais do dobro
contabilizado para cada um dos personagens anteriores em
crítica.
(uma
questão… )
O espaço
que agora se segue era par dedicarmos ao excelente folheto
distribuído por ocasião da peça. Mas outros valores se
“alevantaram” e perdeu-se a oportunidade. Isto porque se
deixa-se aqui a pergunta: - o que é que moveu a encenação
naquela crítica feroz? Que recalcamentos encerra? (eh,eh!). Foi
uma opção extremamente fácil e questionável, (injusta, dizemos
nós, pois, questionamos, também, o que seria do mundo sem os
OCS, e o que seria daqueles que neste mundo da comunicação
sobrevivem graças a eles? Pois é…). Colocar os OCS no mesmo saco
dos bancos e dos grandes grupos financeiros, das putas e dos
vigaristas da vida?! Até o “Anjo” perdeu a compostura durante a
condenação, (parecia um diabo), naquela que foi de todas a
condenação mais “real”, mais bravia e mais intensa de todos os
outros condenados. E logo quem? Aqueles que veiculam as notícias
aos povos (de acontecimentos como acidentes, peças de teatro…).
Vale a pena ocupar este espaço a escrever acerca disto até
porque atirarem-se assim aos OCS quando lá tinham personagens
como “O Prestamista”, o (…)
ou “Brízida” (lenocínio), para
além do (…),
torna a má-fé e a falta de chá demasiadamente óbvias. Alguém
anda a ver muitas novelas. Mas não discutimos a opção, em
absoluto, só por dizer que reparámos que esta crítica arreigada,
hostil (foi terrível!) e inusitada, ao homem da T.V. que
personificava os OCS, denota um preconceito demasiado evidente
de quem se propõe fazer crítica social. É por estas e por
outras, que ninguém aparece para escrever algo mais sobre os
“centros dramáticos” deste país, do que aquilo que sai das
respectivas secretarias. E nós, vamos pelo mesmo caminho.
(… e
uma nota)
E já que
falámos da atitude inusitada d”O Anjo”, uma nota negativa para a
optação da encenação por um “Anjo” demasiado interventivo e
agressivo, ao contrário daquele idealizado por Gil Vicente,
obliterando da peça o significativo contraste vicentino entre o
demónio e o anjo. Assim se perdeu, nesta versão, muito impacto.
Em Gil Vicente, o anjo não condena, não troca palavras com o
diabo, é um personagem doce, a sua voz é suave, as suas palavras
são, quando muito, suavemente irónicas, não faz movimentos
bruscos… Terá sido este o anjo possível nos nossos tempos? Não
nos parece. A linguagem chula que este anjo emprega só pode
significar duas coisas: ou não se percebeu a função d”O Anjo” no
escrito original, ou foi propositado para esbater diferenças
entre as noções de Bem e de Mal, tal como hoje acontece. Mas
isso é muito perigoso a nosso ver e extremamente
anti-pedagógico.
Perto
do fim
“Brízida
Vaz” (Sílvia Santos) aparece cheia de ginástica, saúde e
vitalidade, cumprindo o personagem antigo a que se apõe uma
“socialite”/Menina VIP Sílvia Santos, com os ferros de palco já
no chão. Um aparte a certas mímicas utilizadas aquando de cenas
como a de Brízida (quem viu a peça percebe…). Certos gestos só
convencem quando as actrizes estão, de facto, à-vontade com
eles. E nunca chegou a ser o caso. A última vez que vimos isso
bem feito foi n”Os Monólogos da Vagina”, na cidade Invicta.
A peça
decorre ainda, longa para que faltem ainda tantos personagens
vicentinos que ainda não tinham aparecido. Os outros personagens
que já não surgiram por opção da encenação, a ver se bem nos
recordamos, foram: “O Judeu” (tem-se medo de tudo, hoje em
dia…), “Os Cavaleiros” (arautos de guerra e morte, tudo bem…),
“O Juiz” (será da falta de confiança na Justiça…), “A
Alcoviteira” (e há cada vez mais…) mas talvez já não fossem
precisos, realmente. A mensagem estava dada há muito tempo e as
adaptações levadas a cabo nesta nova versão d”O Auto da Barca do
Inferno” mormente não dessem espaço para esses, foram
justificadas.
No final,
a moral da história, dita por anjo cujo papel já explicámos
porque questionável; inventivo teria sido se tivesse sido dita
pelo demo.
Contámos
meia plateia cheia, o que é sempre motivo de contentamento numa
última(?) representação.
Notas
Finais
Nunca nos
queixámos do Teatro Noroeste. Questionámos conjunturas,
oportunidades, discordámos de opções, brincámos com algumas
soluções apresentadas. De resto, a título pessoal, temos estado
com a companhia, desde o princípio, ajudando a projectá-la,
incentivando-a, levando-a aos leitores, com dezenas de trabalhos
jornalísticos em “on”, desde o seu início. Um tipo de atenção e
cultivar de proximidade a que nos habituámos a ter até com
outras companhias, há muitos anos, em Viana ainda antes do TEAR,
inclusivamente, desde logo como jovens infantes interessados. E
nesse quadro temos sido, até ao presente e de alguma forma,
“agentes” do Teatro, especialmente daquele feito em Viana, não
nos limitando a publicar comunicados de tempos a tempos, com a
aposição da respectiva imagem apenas quando há espaço.
O que
queremos dizer é que há coisas cuja insistência se torna
impertinência como é o exemplo das permanentes
“interactividades” dos actores com o público. Contabilizámos
algumas várias, muitas demasiadas e implicando directamente as
pessoas: primeiro com o atirar de produtos de mercearia para
cima do espectador (pelas costas, o que é ainda mais feio),
depois com abordagens directas, a seguir a tentativa de
surpreender o espectador em particular, por fim com o comentário
dirigido e matreiro. A matreirice não fica bem e é sempre
imberbe.
A malta
vai ao teatro para ver teatro descansado e não para ser
envolvido sem consulta ou aviso prévio (chama-se a isso lisura),
assim como o palco ou a plateia não são o recreio de actores e
encenadores. Os espectadores são o fim, não fazem parte dos
recursos para se atingirem objectivos, metam lá isso na cabeça.
Claro que, para se perceber o desconforto que decorre do atrás
descrito, é preciso ter-se bebido muito chá em pequenino; e quem
não bebeu também já não vai a tempo de comprar agora.
Mas vamos
lá ver se mantemos a elevação no futuro próximo.
Para além
disso…
Entendemos
que, como organização, o CDV necessita de uma boa Assessoria de
Comunicação (por acaso até somos da “poda”). E não nos referimos
apenas à parte relacionada com a imprensa - não é por acaso que
o Teatro Noroeste, nestes anos, todos, nunca “colou”
verdadeiramente na nossa imprensa (mas também por muitas
“impertinências” atrás descritas para que já não há paciência).
E o trabalho a desenvolver neste nível para dentro e para além
do concelho, está quase todo por fazer ainda. É um trabalho a
tempo inteiro para um profissional qualificado. Não nos
alongamos mais com este assunto por agora para não forçar mais o
texto, mas noutra altura falaremos disto mais a fundo.
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