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ESTIVÉMOS À CONVERSA COM A “AURORA”
Uma entrevista necessária, quanto mais não fosse pela falta de
referências mútuas que o jornalismo regional denota.
Atravessando uma nova fase da sua longa vida (150 anos), com
reorientações da sua linha editorial, o bissemanário “A Aurora
do Lima”, o “decano dos jornais de província”, abriu as suas
portas à VS&C para um fim de tarde ameno na sua sala de visitas,
com visita às instalações no fim.
Bernardo Barbosa (BB), director do jornal, foi o nosso anfitrião e
abriu-nos o castelo: Redacção, serviços administrativos, oficina
gráfica, tudo fotograficamente registado durante a visita, com
passagem pelos gabinetes de trabalho e salas de arrumos,
descortinando relíquias. Vimos tudo! Material a editar, artigos
“para a gaveta”, contabilidade, percentagens do Porte-pago … até
as folhas de desconto para a Segurança Social e os e-mail’s
do Director. Isso fica connosco. Para todos fica a Arte nas
paredes, as memórias e as recordações. Para este trabalho, aqui,
fica a entrevista. Sobre tudo um pouco…
VS&C:
Ouvi-o dizer uma vez que não se considera um jornalista; talvez
“meio-jornalista”.
O que é que isso significa?
BB:
Nem meio! Não gosto e abomino o Jornalismo. Tenho carteira de
equiparado por questões legais e administrativas. Quando puder
desfazer-me daquilo, deito fora.
VS&C:
Mas porquê isso? Não faz
uso da Carteira Profissional?
BB:
Porque os jornalistas são veículos do poder e eu sou anti-poder!
Na sua deontologia limitam-se e veicular o poder. “Diz-se” para
a rua “isto e aquilo” e os jornalistas não têm capacidade
crítica, escudando-se na não-opinião profissional. Eu gosto do
Sousa Tavares e doutros desses! Escrever mais tarde o que os
outros dizem e escrevem, é fácil. Eu sei que o jornalismo tem de
ser uma prática inodora, insípida e incolor. Mas também somos
anti-poder! Eu, como director, tenho de respeitar esse
distanciamento profissional. Mas sem opinião fundamentada, o
jornalismo não presta.
Não gosto e abomino o Jornalismo
VS&C:
Não se sente especialmente responsabilizado por dirigir o
segundo mais antigo jornal de Portugal, e o primeiro do
continente?
BB:
Não sinto. É como se fosse o último dos jornais ou qualquer
outro. Isso não me diz nada e não sinto qualquer forma de
vaidade. A “Aurora do Lima” será sempre o jornal que foi. Tenho
humildade nesse aspecto. Estou a cumprir uma herança e devia
estar a gozar as minhas férias. Talvez seja um pouco de vingança
o que causei a mim próprio...
VS&C:
Já vamos a isso, mais adiante. Por agora, como é que vão os
assuntos do jornal? A questão do Porte-pago, por exemplo…
BB:
Sou pelo fim do porte pago. Esta sustentabilidade artificial por
parte do Estado (se bem que de apenas 10 milhões de euros, o que
não é muito) tem de acabar porque qualquer um funda um jornal de
borla, assim. Estamos tranquilos porque as pessoas querem a
“Aurora”. Mandamos os avisos de pagamento das assinaturas e as
pessoas pagam. E agora só toca viola quem tem unhas! Este
partido socialista (que não o é), está a pôr as regras claras:
este é um liberalismo claro, claríssimo! “Quem quiser
desempregar que desempregue”, é só o que falta para a total
liberalização. Nós pagamos oito mil e tal euros em salários e
descontos. E isso é pago pelas assinaturas e pela publicidade,
que tem feed-back. Anunciamos uma ou outra vez, o anúncio sai
duas ou três vezes e dá resultado.
VS&C:
Como justifica o facto de que a “Aurora” dar, muito
frequentemente, preponderância à opinião, em detrimento do facto
noticioso, fazendo primeiras páginas mais com a primeira do que
com a segunda, como se imporia?
BB:
A
notícia da “Aurora”, ou noutro jornal regional qualquer, é
pretensiosa e requentada! Se queremos noticiar algo de novo,
isso é uma ilusão, porque é impossível. O jornal de amanhã está
ser feito hoje e a notícia já deu, na hora, na rádio e na
televisão. Nós, jornais, só vimos depois. Material inédito só
com confidencialidade. De facto, não podemos ser noticiosos,
porque é sempre o facto passado, ou então o que a rádio ou a TV
deixaram escapar. Temos de ser o que está no resumo de matérias
e afectos. E por isso os leitores da “Aurora” são de uma certa
idade. É lida por pessoas para cima de 40 anos.
VS&C:
Nunca nos últimos anos, como acontece actualmente, a intervenção
editorial da “Aurora” foi tão forte, chegando agora ao confronto
directo com forças autárquicas, políticas, económicas… e, se,
eventualmente, não revelará propriamente preferências, revela,
sem dúvida, forte oposição a muitas e sucessivas iniciativas
políticas, quer seja no plano das estratégias gerais de
desenvolvimento, aos pequenos erros de gestão. Se, antes, eram
os colaboradores que estavam na linha da frente da opinião,
agora é o director do jornal. A que se deve esta mudança?
BB:
Porque este director deste jornal tem uma formação política de
raiz, que o vacinou contra qualquer poder político-partidário. E
o que me aflige mais é o poder, pois qualquer forma de poder é
perversa.
O executivo, no seu conjunto tem o mais positivo
balanço de todos os executivos
VS&C:
Noto algum discurso, contido nos seus editoriais, tipicamente
anárquico…
BB:
Tipicamente anarquistas!... Não são, mas eles, os anarquistas,
aperceberam-se disto, dos problemas que falo. Ouvi quem fosse
comunista ferrenho e, depois de alcançar o poder, corromper-se.
“Deixei de telefonar, de conduzir, estou absorvido pelo poder”.
E por isso são todos derrotados pelo poder. No último editorial
que escrevi acerca do coliseu de Viana, falei disso. E não há
grandes reacções! As pessoas lêem e engolem em seco!… Mas é o
jornalismo regional que vai competir com aquele nacional que
acaba por ser dominado pelo poder político. O Belmiro não largou
o governo desde que este lhe impediu a OPA. São esses que estão
a ganhar, e a IR, noutros moldes, vai lutar contra esses grandes
grupos que tomaram conta dos jornais nacionais. A mnós,
“Aurora”, compete-nos ser interventivos e fazer a defesa das
pessoas e da cidade.
VS&C:
Entendia, portanto, que era uma área de intervenção do jornal
que não estava cumprida a nível dos seus responsáveis
editoriais…
BB:
Porque dantes não havia essa capacidade. Os directores que por
cá passaram talvez tivessem tido medo de entrar nesse confronto.
Mas eu não vou desistir das minhas guerras. Não vou desistir,
por exemplo, quanto mudaram os limite de 50 para 70 km/h., na
estrada da Areosa. Desculparam-se dizendo que davam cabo dos
semáforos. Não pode ser desculpa, senão deixa de existir Estado!
O nosso coliseu vai custar 10 milhões e 800 mil euros! Para que
é precisamos de um coliseu? Porque não restaurar o “escarro” que
é a praça de touros? E outras coisas?… A IR é para isso! Porque
é que perversamente se destrói um mercado para construir outro?
Agora, o Executivo foi obrigado a comprar o antigo edifício da
EPAC. Isto foi sempre a tapar buracos com a venda disto e
daquilo. Para que se fazem contas de merceeiro?
VS&C:
Mas não é isso governar?…
BB:
Por vezes é necessário, mas não assim se for perverso, como o
caso do mercado! Se tivesse sido logo comprado… Tirou-se o
mercado e matou-se o sítio! O outro não tem localização
estratégica. O que me aflige nisto tudo é que me sinto como uma
oposição. Mas também não há capacidade política por parte da
própria oposição de dar a volta às coisas. Muitos dos próprios
opositores dependem da Câmara. Comércio, negócios, etc…., é
complicado.
VS&C:
Que balanço geral faz da linha de actuação deste executivo
camarário neste último mandato? Positivo, sofrível, negativo?…
BB:
O
executivo no seu conjunto tem o mais positivo balanço de todos,
dos antigos. Também sob o chapéu-de-chuva do Polis, aparte o
problema do prédio do Coutinho, que foi uma perda pessoal para o
presidente (ainda pode ganhar). E concorrendo, vai ganhar as
eleições. É imbatível! E é o ideal para lidar com galegos
(somos nós) porque não reagem. O galego é oportunista. O Moura
sabe ir de encontro àquilo que a pessoas querem. Sabe o que as
pessoas gostam de ter e ver. Por isso não há reacções, engolem
em seco. Aquele tem razão, o opositor, mas calam-se. Temos
atitudes galegas (em formação cívica, etc.), estamos sempre ao
sabor das circunstâncias. Nos protestos que se fazem acerca das
obras da ponte Eiffel, o presidente foi tão habilidoso que tomou
conta da iniciativa “popular”. Foi um golpe político brilhante.
Sem o Polis, Defensor Moura não teria feito
metade
VS&C:
Não concorda, a título de cômputo geral, que, à excepção do
tempo da Comissão Administrativa de 1974/76, nunca tanto tinha
sido feito nesta cidade? Com todos os problemas decorrentes de
se estar a fazer em meia-dúzia de anos aquilo que deveria ter
sido feito ao longo de vinte anos?
BB:
Está-se a fazer mas também houve dinheiro. O Polis alterou a
cidade toda e, sem isso, Defensor Moura nem teria feito metade.
Claro que grandes obras dão problemas, como a pedonal do café
Girassol… Coisas como tirar os carros da cidade é um problema
complicado, mas não adianta dar conselhos ao Executivo, pois
ideias que vêem de fora não são concretizadas. Deve haver
parques nas cidades, sim senhor, em Viana a norte, a sul e,
também, na nascente, mesmo por causa de Santa Luzia… mas têm de
ser gratuitos, com circuito urbano permanente, de borla, que
distribua as pessoas, pelo menos no inverno (no verão a cidade
faz-se bem a pé). Trazer crianças no carro para os infantários é
necessário. E os pais vão pagar avença à parte, com o
estacionamento pago? A cidade está morta depois das 20.00h,
queixa-se o presidente, porque foi tudo para a periferia e já
não se vem tomar café à noite e a cidade fica vazia. Tudo
grandes problemas que vem da falta de dinheiro, falta essa que
também vem da corrupção e da fuga aos impostos. Daí a crise e a
concentração do grande capital. Toda vida o “galego” - nós, os
galegos -, viveu do “jeitinho”, das amizades, da fuga ao imposto
aqui e ali… Há americanos a estudar este fenómeno no Brasil. Mas
o que é que se quer conseguir, desta maneira? A minha fatia para
os descontos em geral, sobre os vencimentos que pago, é de cerca
de 36% dos gastos com salários…
VS&C:
Como é que vê a recente entrada da Enercon e de toda a indústria
ligada ao sector eólico? Pergunto-lhe isto pois, nos seus
artigos, transparece alguma desconfiança relativamente a estas
indústrias, o que já não acontece no que toca aos ENVC ou à
Portucel onde parece ter mais confiança…
BB:
Não tenho qualquer desconfiança, antes pelo contrário. Talvez no
princípio. Acho que é um alívio do ponto de vista para a cidade.
Duvidei, no princípio, que essa indústria viesse para cá a nível
de concurso, até porque a questão dos terrenos dos ENVC poderia
gorar muita coisa. Mas eles estão a instalar-se como deve ser, à
moda alemã. Estão a fazer as coisas bem feitas.
VS&C:
Mas não concorda que a criação de mais de um milhar de empregos
directos podem virar a face da cidade, tal como aconteceu com o
advento dos Estaleiros Navais, nos idos de 40/60 e, mais tarde,
da Celnorte, na década de 60/70?
BB:
Pode sim. Mas não creio na propensão deste executivo camarário
no que toca à indústria. Às tantas poderia ter acontecido o que
foi dito da indústria da celulose em que Defensor Moura afirmou
que, se fosse no tempo dele, talvez não viesse para cá. Houve
jornais a fazerem parangonas com isso. Mas há títulos que leio e
que não punha na “Aurora”. Repare, esta era uma cidade feudal,
com um conjunto de famílias que dominavam todas as áreas. Viana
sempre foi assim até chegarem essas indústrias que
proletarizaram o meio, os ENVC e a Celnorte, agora Portucel.
Dominava o lavrador com o grande sentido da propriedade que o
agricultor tem, lavrador dessas tais famílias que são
refractárias a todas essas ideias proletárias. Viviam do seu e
conservavam a propriedade de que se sustinham.
Tenho espírito aberto e até mais do que se pensa
VS&C:
Tem uns colaboradores que são marca especial na “Aurora”…
BB:
Tenho de conviver com eles com espírito aberto como tenho, e até
mais do que se pensa. Sou aberto às ideias e há pessoas que
trazem consigo uma marca que se encastoam. Há que respeitar
isso! E há muitos leitores que gostam deles.
VS&C:
Face a algumas críticas à orientação editorial do jornal quando
assumiu o cargo de director, respondeu que “A Aurora do Lima” é
um “jornal de afectos”. O que é isto de um jornal de afectos?
BB:
É uma característica do jornalismo regional. O Mencia Lago, o
desportista dos anos 50, veio de Espanha pagar a assinatura da
“Aurora” porque tem uma ligação afectiva à cidade, que expressa,
também, através da assinatura do jornal - mas outros,
conhecidos, recebem e não pagam… há anos . São conteúdos do
filho abraçado pelo pai na natação, o fecho da “Casa Aires”…
Tudo isto é afectos, também com os seus assuntos de opinião
intemporais. etc. E por isso se vê a ler a”Aurora” os maiores de
40.
VS&C:
E acha que o que agora tem 30 anos, aos 40 vai ler a ”Aurora”?
BB:
Vai! Tem sido sempre assim.
VS&C:
Mas estes “afectos” que dominam, que caracterizam as páginas da
“Aurora”, não entram em choque com a maioria dos conceitos
jornalísticos?
BB:
Entram! É por isso que sou anti-jornalista. Nunca tivemos
jornalistas no quadro, só muito recentemente metemos um, e
metemo-lo para termos dois no quadro. Jornalista para quê? Não é
preciso. As grandes notícias do momento, essas entram-nos em
casa por outros meios e, por isso mesmo, o grande peso das
memórias, da opinião, na “Aurora”, e nos jornais regionais em
geral. Nós nunca tivemos editorialistas que não colaboradores.
Fui o primeiro director da “Aurora” a fazer editoriais e, aí, é
a defesa intransigente da cidade, onde se aponta os erros do
poder, de tal modo a que não dê lugar a direito de resposta.
Claro que me dizem que, assim, me exponho muito…
A “Aurora” não serve um meio intelectual ou
científico, mas serve um meio rural
VS&C:
Nós, como VS&C, fazemos permutas com jornais regionais de todo o
país. São, geralmente, semanários na ordem das 36/48 páginas,
com quadros de jornalistas profissionalmente "encarteirados" -
um, dois, três, jovens e mais -, com formação universitária, bem
dirigidos e, muitos, excelentemente paginados. Também com
bastante profusão de cor. Muitos títulos noticiosos, de cidades
como Mirandela, Bragança, Guarda, Castelo Branco. Viana do
Castelo não tem nada parecido e o único jornal que consegue esse
alcance é o “Alto Minho”, aliás muito bem implantado no concelho
de Viana do Castelo, com o “Notícias dos Arcos”, a nível de
distrito, logo atrás. A “A Aurora do Lima”, até pelo seu
historial, não deveria estar a liderar o jornalismo no distrito?
BB:
A
“Aurora” tem de reflectir o meio cultural em que se insere. Não
serve um meio intelectual ou científico, mas serve um meio
rural, o que é um facto. Temos os correspondentes das freguesias
e uma forte implantação de assinaturas no concelho. Temos de ir
encontro à fasquia, que está baixa. Se tentarmos subi-la,
corremos o risco de não sermos entendidos. Temos de estar de
acordo com o que os leitores querem. A televisão fez o mesmo.
Temos procurado subir a fasquia, mas é difícil. Passamos a ter
uma orientação de edição, já com três páginas para notícias. A
opinião foi para a quarta página. E depois vem a parte
desportiva, com desportos ditos “menores”. E a publicidade,
claro. Na última, estão os flashes. O “Alto Minho” é um jornal
de banca, tem de atrair pelos títulos: futebol, o sexo ou o
escândalo. Nós nunca publicaríamos certos títulos de imprensa
que aí temos visto. Preferimos a crítica serena e objectiva, do
que estar agora a emparelhar frases fora do contexto.
VS&C:
Há quem tenha a opinião de que as suas opiniões expressas nos
seus artigos (editoriais?) vão além do jornalismo. Como comenta?
BB:
Os
meus artigos são o meu sentimento, aquele que eu tenho e que
reflecte a minha independência e defesa da região. O que eu
aponto de errado está de acordo com a linha editorial do título,
com toda a independência. Também faço elogio, quando é preciso
dizer bem. Os feedbak’s é que são poucos, por escrito, note-se,
porque “de boca” dizem-me para não deixar de o fazer.
VS&C:
Foi “fácil” entrar nas funções de director?
BB:
Foi, já praticava… Mas só faço isso! Da parte administrativa
trata o meu irmão. E está tudo bem.
Gostaria de ter alguém que me substituísse
VS&C:
O que é que entende que mudou, inequivocamente, quando assumiu a
direcção do jornal?
BB:
A
compartimentação temática e uma maior preponderância da notícia.
VS&C:
São de esperar alterações quanto “à forma e ao feitio” da
“Aurora”? O que esperar no futuro próximo?
BB:
Não sei. Eu gostava de pensar que a “Aurora” não ia depender
muito de quem a dirigia a nível editorial, queria alguém que a
aguentasse, um director que fosse um colector de textos no
sentido de os juntar e de os editar, apreciando-os e
aglutinando-os num corpo. Que fosse auto-sustentável. Mas isto
depende dos homens, das pessoas… Gostaria era de ter alguém que
me substituísse, estou disponível para ser substituído. A
aventura não me está a saber bem e preciso descansar. Estou com
67 anos. Claro que há um certo gozo com o poder, mas isso
traz-me grande desgaste e à minha mulher também. Era tratarmos
das vacinas, tirarmos o passaporte… Tenho um amigo meu que foi à
China.
VS&C:
O que é que faltou perguntar nesta entrevista?
BB:
Nada, foi exaustiva.
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