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Sociedade de
Julho

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Do lado de cá da cerca
FESTIVAL DE VILAR DE MOUROS COMEMORA 35 ANOS
Na
comemoração dos 35 anos de aniversário do lendário Festival de
Mouros, igual número de bandas, em três dias muito chochos, sem
nomes relevantes. Continua a ser o festival onde os pais levam
os filhos mas…
Havia uma ideia de estar ali, em torno do concerto, nas ruas do
centro cívico da celebrada freguesia, sempre sujeitos aos cravas
profissionais: - “Vinte cêntimos, para cerveja…” -
convenciam-nos no desarme da quantia inócua, talvez. Pedir
poucochinho e muitas vezes, o toldo e a vertigem do álcool,
sobre muitos vinte cêntimos pedidos, e umas horas depois a cena
repetida, com o mesmo caritativo: - “Vinte cêntimos, para
cerveja…” – ao que… - “… outra vez, pá?” - pois está
claro.
O centro era sítio para sojornar até apetecer entrar para o
recinto, com o bilhete devidamente pago, de um ou três dias. E
para voltar, no fim do concerto, lá pelas três, quatro da
madrugada, para voltar a estar. Comentar o pó, com as narinas
negras (de noite não se vê nada), especialmente depois de oito
horas de música consecutiva e muito consumo. A essa hora, todos
estão estranhamente felizes, e este “todos” é quase todos mesmo…
Mas isso já acabou. As forças comerciais impuseram a sua lei em
torno do recinto e alargaram-no, inserindo todo o centro antigo.
Já não se pode ir à aldeia de Vilar de Mouros se lá houver
festival. Agora é assim e eu não sei se concordo com isso. Mas
que se perdeu muito da ambience, perdeu. Vilar de mouros
trazia riqueza, no sentido literal das palavras, aos seus
moradores que montavam “banquinha”, riqueza que agora vai apenas
para os outros, os de fora, as grandes empresas. E isso é
inquestionável.
Hoje, quem quiser, pode ainda ir para a tenda com discoteca até
à hora de almoço do dia seguinte, mais lá para cima “para o
monte”. Mas antes, pelas ruas, iamo-nos servindo das
inúmeras banquinhas montadas à porta de casa, num
ver-se-te-avias de servir as bifanas, o frango de churrasco,
todo o tipo de álcool e o que fosse preciso. Nem sempre muito
caro. Desapareceu!
Lá dentro, no recinto, dantes e agora, comida mais estilizada ao
tipo americano, com os molhos da praxe a serem servidos pelo
cliente e à sua vontade, numa área. Logo noutra, em larga tenda,
um autêntico supermercado de brica-à-braque, roupagens, lenços,
pulseiras, vendidos pelos actores do momento, uns mais
permanentes tipo “fiquei nesta vida”, outros mais
eventuais mas conhecedores das formas e das fórmulas. Dois ou
três espaços coberto para massagem, mais recentemente. E também
a majestade errática de uma tenda VIP, com a sua bancada, das
suas festas privadas que ninguém vê, sendo cada festivaleiro
“normal” e cada grupo de amigos objecto da curiosidade animal
por parte dos “vipianos”, em cerveja e não champanhe, lá em cima
observando e vendo, quando não o já obviamente distorcido. O
princípio inerente à criação desta bancada VIP sempre foi muito
paradoxal, estúpida mesmo, mas enfim... Depois os espaços à
sombra ou ao sol, e o infindável pó junto ao palco principal, em
oposição à relva menos rara do palco secundário, num espaço
rodeado de árvores.
Cá fora é o nada e os infindáveis caminhos, agora. Tudo
circundado, tudo vigiado, tudo privatizado. GNR’s fardados só
nas bilheteiras e nos cruzamentos das estradas, lá dentro só
seguranças, com umas meninas, no mínimo interessantes, com vozes
muito comanditivas e comanditadas. O que havia em Vilar de
Mouros, agora só se vai vendo em Paredes de Coura. Até acabar
de vez.
Talvez estejamos dispostos a lá ir, para o mostrar aqui,
enquanto o velho festival de Vilar de Muros fica na memória doce
do tempo.
Texto e Fotos:
A.C.M.
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