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Retalhos IX
Os Pumas terminam
agora a sua missão
O primeiro protótipo do Puma, de
origem francesa, voou pela primeira vez a 15 de Abril de 1965.
Portugal recebeu-os em plena guerra do Ultramar e foi o primeiro
país do mundo a utilizá-los em situações reais de combate. Os
treze Puma comprados pela Força Aérea chegaram entre 1969 e
1971.
Conheci-os muito bem em Angola. Eram excelentes pela sua maior
capacidade de transporte de militares em teatro de guerra, onde
eram utilizados especialmente em operações de alto risco
largando-nos a cerca de 15, 20 km do objectivo, para não sermos
detectados, e depois nas evacuações dos pára-quedistas, quando a
operação ao fim de três, quatro dias era dada por terminada.

Embarque para Puma
Eram excelentes pela sua maior
capacidade de transporte de militares em teatro de guerra
Quando ouvia o som característico do helicanhão a chegar, que
mais não era do que o Alouette III equipado com um canhão de 20
mm na porta traseira esquerda era sinal que a nossa evacuação
estava eminente.
Hoje, as aeronaves que chegaram com a Guerra do Ultramar voltam
a estar no centro das atenções, mas por razões distintas. Esta
manhã, na Base Aérea 6, no Montijo, assinala o princípio do fim
de trinta anos de missões dos Puma. O novo ‘Senhor dos Céus’
chama-se EH 101 Merlin. Até ao final deste ano, a Força Aérea
espera ter doze destas aeronaves a operar. Seis, vocacionadas
para busca e salvamento, começam a voar hoje. Duas, para
fiscalização das pescas, devem descolar até Dezembro. As quatro
restantes ainda estão na fábrica.
Aos dez Pumas que ainda restam – pois a primeira baixa ocorre na
BA3 em Tancos numa sabotagem pela LUAR, estava eu nessa altura
na Polícia Aérea (desenfiado em casa, mas isso é outra
história), a segunda baixa sucede deu-se em Moçambique tendo a
terceira baixa ocorrido nos anos 80 – espero que lhes dêem uma
vida útil na Protecção Civil, combate aos fogos florestais e no
interesse público.
Recordei as aulas teóricas dadas ao ar livre, onde o bom gigante
era o prato da festa: - “Patacão, isto chama-se o precursor e
tem como função…” – e agora virado para todo o grupo, o
Instrutor lá foi explicando vagarosamente, em que consistia o
corpo de uma granada ofensiva.
Em vez de me acordar, atirou uma
granada perto para me pregar um susto…”
De repente vira-se de novo e pergunta: - “Patacão, como se chama
isto?” - Mostrando o precursor. - “Nã sei, meu sargento” –
responde o Patacão.
Perante a risada geral, o sargento quase engolia o precursor de
raiva. Eram umas aulas divertidas.
O Cunha, quase com metade da altura do Patacão, mas com uma
energia incrível, estava sentado a meu lado e perguntou-me: -
“De que te ris pá? Nem com este frio deixas de magicar?”.
- “Estava a pensar no Patacão e no sargento Vermelhinho”.
- “Não me fales nesse cabrão de Sargento, ainda sinto os ouvidos
a fritar”.
- “Esse gajo, numa bela segunda-feira e depois de uma aula de
minas e armadilhas, deu quinze minutos de intervalo.” – como se
eu não soubesse da história, o Cunha lá foi vomitando a sua
revolta: - “Passado o intervalo, esse cabrão deu pela minha
falta. Estava estourado e adormeci sentado e encostado a uma
árvore. O filho da puta veio procurar-me, sozinho, deu comigo e
em vez de me acordar, atirou uma granada perto para me pregar um
susto…” - com a cara transfigurada pela revolta rematou: - “Se
um dia o apanho na Guiné, limpo o sebo a esse cabrão!”.
Parecia que este exercício fora programado, propositadamente,
para esta altura do ano, para que as condições mais adversas
testassem as nossas capacidades e ultimassem a nossa preparação
em situações limite.
Nunca se soube se o soldado, se
atirou ao rio para se refrescar ou caiu já inanimado pelo
esforço
No outro topo da Berliet, enxergo o Fiúza, com aquela cara
moldada pelos anos do mar e habituado às agruras próprias do
ambiente. Lembro-me sempre de ele falar, no seu jeito exaltado,
dos homens do mar: - “A bordo da traineira, contava um velho
pescador que quando ouviu o diabo descrever as agruras do
inferno lhe tinha respondido: - A gente habitua-se a tudo”.
Talvez seja verdade. Mas ninguém está perfeitamente adaptado, a
qualquer coisa que seja, sem por lá ter passado. A vida do mar
tem muitas semelhanças à que encontrei nas forças
pára-quedistas.
Para uns será mais fácil do que para outros, mas todos sentimos
inicialmente os problemas de viver em espaço apertado, termos de
acondicionar num cacifo todos os nossos pertences e a
necessidade de partilhar quase tudo o que era privado. Não há
nada que se faça que não acabe por interferir com
a vida do camarada do lado, exigindo-se de todos um sentido de
grupo, de colaboração, de tolerância e solidariedade que
dificilmente terá paralelo na vida civil.
Passaram duas semanas após a segunda baixa mortal neste meio ano
de preparação. Cada vez tudo se tornava mais exigente, mais duro
para testar os limites físicos e mentais, quase sobre-humanos,
de cada homem de forma a torná-lo um caçador por excelência.
Descíamos as escarpas íngremes da serra, em Vila de Rei,
carregando cada um de nós, todo o equipamento individual, com o
auxílio duma corda de sisal. Exercícios necessários, mas
extraordinariamente exigentes, onde todos acabavam arrasados e
sedentos. Ali tão perto estavam as águas perigosas do rio Zêzere
a ameaçar-nos se déssemos alguma queda, mas agora serviam para
nos refrescar.
Nunca se soube se o soldado, se atirou ao rio para se refrescar
ou caiu já inanimado pelo esforço a que foi submetido. Alguns
minutos depois deu-se a falta dele e aí o Fiúza, nosso “homem do
mar”, ainda a recuperar do esforço, não hesitou e mergulhou às
profundezas tentando resgatar uma e outra vez, num esforço, que
se veio a revelar infrutífero, pois a corrente arrastou o corpo
rapidamente nas águas de Inverno pelo rio abaixo.
Os semblantes destes três camaradas eram comuns a todos quantos
iam aconchegados na viatura. Era o frio da realidade tomando
conta de todos, mas tinha a consciência que a preparação e
treino de um Caçador Pára-quedista só poderá fazer-se utilizando
como meio o próprio risco.
Depois de quase uma hora de viagem empoleirado, lá chegámos ao
objectivo de uma povoação chamada Vila de Rei.
José da
Silva Marques
Meadela
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José da
Silva Marques
Meadela
Viana do Castelo |
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O frio da Realidade
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