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Retalhos VII

Corpos amputados

 

Como tantos outros meus colegas, nessa noite não preguei olho. Só me vinha à memória o acidente que despegou a vida ao militar que nos instruía e nos preparava para a guerra. Apesar de não termos presenciado directamente o acidente, e por falta de informação oficial, as vozes da caserna eram demolidoras e abalaram, um pouco, a nossa força mental, que vinha sendo cimentada desde o primeiro dia. Com o aproximar do sono, acercou-se uma estranha dor de cabeça, fruto da realidade acordada que fervilhava com as vozes da caserna, com o sono mal dormido a querer-se aproximar da barreira do som do pesadelo.

 

Nessa noite, recusava-me a dormir e lembrei todos os momentos: todos os sacrifícios; todas as lutas constantes para me conseguir superar e todo o suor, o sangue e as lágrimas vertidas. O problema de desistir, nesta altura, já não se punha nem o permitiam e, se a ida para a guerra era uma inevitabilidade, então só me restava olhar e seguir em frente.

Procurei aprender com os erros, e estes, em situações limite, podem retumbar em erros fatais. Aprendi que errar é uma experiência dolorosa (por vezes física e irremediável), é na frustração e no desconforto, inerente ao erro, que se fixa a memória da lição adquirida.

 

Tancos e no fim do curso de combate 1971

 

Muita coisa me passou pela cabeça nas noites seguintes. Durante o dia, o Curso de Combate absorvia-me por completo, ia adquirindo conhecimentos de forma a me preparar técnica e operacionalmente para a guerra. No fim da instrução militar, recolhia à caserna e, depois de um retemperador banho, aproveitava sempre para escrever à família, procurando sossegá-la fazendo o inverso do esperado, ou seja, era eu que a animava, dando sempre uma imagem mais colorida desta minha estadia no serviço militar.

As minhas noites eram mal dormidas derivadas ao cansaço físico. Comparado com os meus camaradas não era tão forte, pois só conseguia superar as actividades, de ordem física, atingindo os limites das minhas reservas. Já mentalmente era forte e determinado, nunca desistindo, transmitindo força anímica aos colegas que, antes, me tinham ajudado.

 

A partir dessa altura, comecei a interessar-me pelas coisas da guerra e fiquei a saber das dificuldades sentidas pelas nossas Forças, no início da guerra em África, e que as Forças Armadas foram apanhadas impreparadas para fazer face à guerra, trazida pelos ventos que já sopravam desde os anos 40, nas colónias de outros países europeus.

Em Dezembro de 1961, cinquenta mil tropas indianas, apoiadas por blindados, artilharia, meios aéreos e navais, ocuparam militarmente Goa, Damão e Diu. Os 3500 militares portugueses e goeses tinham ordens de Salazar para lutar até à morte, tendo o ditador português comunicado que só esperava, como resultado do combate, "militares vitoriosos ou mortos". Ao contrário do que se esperava, as tropas indianas ainda se depararam com a resistência de alguns militares portugueses, nomeadamente em Vasco da Gama, onde 500 militares, fortemente armados, obrigaram as forças indianas a combater.

 

Com o rebentamento da guerra, nas colónias portuguesas, era evidente o apoio que faltava aos militares em situação de guerra. Não se previram situações, tais como: a morte; a incapacidade; a pensão de sangue; a trasladação dos corpos; o aprisionamento ou a captura de militares em operações; o pagamento de vencimentos: a distribuição de correspondência; as licenças de férias, entre outras. Aqueles que sofreram graves mutilações, no teatro de operações ou em acções de preparação para o combate, constituem a face mais visível da Guerra Colonial e, em certo sentido, aquela que a sociedade portuguesa tem tido mais dificuldade em encarar. Assim, se foi constituindo um exército de deficientes, que não parou de aumentar, formado por jovens que, na força da vida, se viram amputados, cegos, com doenças internas graves, doentes da mente, com futuro incerto e que ainda hoje vemos alguns a vaguear nas cidades, vilas e aldeias do nosso país, como almas perdidas sem abrigo.

Foram considerados «inválidos». Muitos deles sofreram duplamente a sua deficiência ao se tornarem, durante muito tempo, um pesado fardo para as famílias. Os hospitais militares foram, no início, para muitos um refúgio, mas também o depósito onde os corpos amputados, os homens em cadeira de rodas ou os cegos, tropeçando, se mantiveram longe da vista da sociedade, porque, oficialmente, Portugal não estava, oficialmente, em guerra e a sua visibilidade poderia motivar interrogações incómodas, para o regime sobre a realidade do que se passava nas frentes de combate.

Estava eu a conversar com o “Risotas” sobre a guerra e perguntei-lhe: - “E os nossos militares deficientes, que será feito deles?”. Pela primeira vez o vi com a voz um pouco embargada: - “Marques, nem me fales nessa merda, prefiro ficar lá de vez”. – E acrescenta: - “A guerra é nojenta, e o que ela nos tira, quando não nos tira a vida, nunca mais devolve…”.

Na retaguarda iam aumentando os caixões, daqueles cujas famílias tinham possibilidade de pagar a trasladação dos corpos (os outros foram, durante os primeiros anos, enterrados nas zonas de combate), e os feridos, que se acumulavam nos hospitais militares que eram pequenos, incapazes e não adaptados para os feridos em operações de guerra.

Poder vir a engrossar o exército de deficientes era o medo, que muitas vezes, me roubou o sono.

 

José da Silva Marques
Meadela

 
 

 

José da Silva Marques
Meadela

Viana do Castelo

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