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Operação resgate (1)

 

Que o homem (Adão) foi criado por Deus à Sua imagem e semelhança, a partir do barro, e foi expulso do Paraíso como consequência do pecado original, depois de adquirir consciência do bem e do mal, isso, toda a gente sabe. Como se o homem junto com a mulher fosse a origem do mal…

 

Nada mais injusto sabendo que os dois são a geração do amor e da paz. São os homens, na sua voracidade e instinto predador, quem destrói tudo à sua passagem quando estão imbuídos pela ganância e poder do dinheiro. O poder, como a capacidade de impor algo sem alternativa para a desobediência. O poder dos mais fortes, dos mais ricos… Nenhum fragmento bíblico traz esclarecimentos que tivessem posto um fim a essa que é uma das maiores diatribes cristãs.

 

Bem insistia a D.ª Miguta, minha catequista na Igreja Matriz - que com o Padre Constantino liderava a igreja e educava com pulso firme os meninos e as meninas na religião cristã - se bem que nós, os rapazes da rua, já não fôssemos muito em toadas que não tivessem a ver com o que a vida de pé descalço nos ensinava.

Que mal fiz eu a Deus para vir parar ao meio desta guerra que já durava há uma década? Será que vou ter que culpar o Adão ou Eva por terem comido o fruto proibido? Estava com os meus pensamentos quando surge no meio da “maralha” um militar, sinalizando com o braço bem levantado gritando:

 

- “Sou eu de Viana!” - diz com evidente e incontida alegria, um militar bonacheirão do exército.

É neste fim do mundo que venho encontrar o Viegas, o amigo pescador e parceiro de muitas tardes a jogar futebol amador nos “Cabeços”. Momentos bem passados naquela escarpa virada ao Atlântico. Trata-se de uma zona onde parece que escoam pedregulhos pelo monte de Santa Luzia abaixo. Degradada, onde ruas são autênticos labirintos num sobe e desce torneando cabeços de pedra - daí o nome Cabeços - deficientemente infra-estruturada, as casas nasceram como cogumelos, sem regras, como procurando o aconchego em cada pedra, mas sempre com deficientes condições de habitabilidade.

Até os meus olhos ficaram ligeiramente cacimbados neste reencontro que a guerra veio apadrinhar na Zona Militar Norte. No fim desta Operação militar que nos estava destinada, então sim, teria tempo para confraternizar com o amigo Viegas e beber umas cervejolas à maneira.

 

Passados esses momentos, foi só o tempo de irmos reabastecer os cantis com água e pouco mais, pois a ração de combate já a trazíamos de Luanda e, não sabendo o que nos esperava, nem nos atreveríamos a tocar-lhe, por muita larica que assolasse os estômagos já habituados a este tipo de privações.

Nada foi retirado do corpo para descansar um pouco, nem mochila, nem o armamento que nos inundava o corpo que, para além da Armalite, também conhecida como AR-10 e que nos serviu intensamente em combate, equipando exclusivamente os Pára-quedistas empenhados na Guerra do Ultramar, em Angola, Guiné e Moçambique. Depressa ganhou uma reputação de arma de precisão e fiabilidade, apesar das más condições a que estava sujeita em África. Era a minha menina que nunca abandonava e nunca me traiu. Aconchegámos bem as granadas ao cinturão, os seis carregadores à perna, e fomos atestar os cantis.

- “Rápido, c…, não temos tempo a perder, dez minutos para encherem os cantis e esticarem as pernas!” - gritou o tenente Gonçalves que comandava este reduzido grupo de combatentes.

 

O Alouette III, equipado com um canhão lateral de calibre 20 mm, que vomita essas munições ao longo de 136mm, designado por heli-canhão, ali estava pronto a levantar novamente. O cenário de guerra era evidente, acabaram-se os treinos e tudo agora era a sério. Os Pumas que nos iriam transportar para o cerne da guerra, para o combate, estavam a ser abastecidos dentro do quartel onde estava alojada uma companhia do exército para manter segurança às populações e proteger este corredor vital para o abastecimento ao IN, vindo do Congo, numa enorme nuvem de pó cor de tijolo. Ali estava o enorme passaporte para a batalha que só precisava de alguns minutos para se reabastecer. Os pilotos esticaram as pernas, acertarem as agulhas com o nosso tenente, todos aninhados, com os mapas mal desembrulhados no chão.

 

(Continua na próxima edição)

*Viana do Castelo

 

José da Silva Marques
Meadela

Viana do Castelo

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RETALHOS VII

Corpos amputados

 

RETALHOS VIII

O frio da Realidade

 

RETALHOS IX

Os Pumas terminam agora a sua missão

 

RETALHOS X

“Que o diabo leve a guerra!”

 

RETALHOS XI

“Que o diabo leve a guerra!” (2)

 

RETALHOS XII

TUDO O RESTO FICAVA PARA TRÁS

 

RETALHOS XIII

Não sei para onde vou… mas vou...

 

RETALHOS XIV

Não sei para onde vou… mas vou...(2)

 

RETALHOS XV

O PRINCÍPIO DO FIM (1)

 

RETALHOS XVI

O PRINCÍPIO DO FIM (2)

 

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RETALHOS XVIII

 

RETALHOS IXX

A SABOTAGEM

 

RETALHOS XX

O Povo não queria Guerra

 

RETALHOS XXI

O embarque 1

 

RETALHOS XXII

O embarque 2

 

RETALHOS XXIII

A viagem

 

RETALHOS XXIV

A viagem 2

 

RETALHOS XXV

A chegada e ida para a guerra 1

 

RETALHOS XXVI

A chegada e ida para a guerra 2

 

 

 

 

 

 

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