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A chegada e a ida para a guerra
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Este primeiro embate, com combatentes valorosos, marcou-me para
toda a vida. A chegada dos militares que eu já admirava e o
sentir-me entre eles, fez-me respeitar sempre tudo e todos, até
o IN (inimigo). Este também merecia o nosso respeito, pois
estavam, em armas, defendendo as suas causas.
A maioria destes deslocados para a guerra, foi parar à 1ª
Companhia de Caçadores Pára-quedistas (1ª CCP). Enquanto os meus
camaradas passeavam pelo quartel conhecendo todos os seus
cantos, eu aguardava a minha primeira triste e desalentada
surpresa da minha vida como militar Pára-quedista. Já estava
habituado e, por isso, já nem ligava quando volta e meia tinha
de ir à tosquia por dá cá aquela palha. Era mais carecada
menos carecada. Mas sempre que podia e me era permitido,
manifestava a minha discordância. Gostei sempre de pensar e agir
em consonância com o meu carácter.
Recusei “denunciar” camaradas meus que se envolveram em
desacatos durante a viagem
Pela primeira vez, nesta “viagem de ida” a África, formámos na
parada da companhia. Deram-nos as boas-vindas através do
comandante da companhia, o Capitão Ferreira Pinto. Fisicamente
era a antítese de um Tropa Especial e de um líder. Era um homem
pequeno, sem carisma, sem aquele vozeirão típico e “muitíssimo
educado” para os seus comandados. Deu as boas-vindas aos que
chegavam à terra onde os ricos eram mais ricos e os pobres eram
mais pobres. A mim, foi-me aplicado um castigo injusto,
descabido e excessivamente penoso resultante do acontecido a
bordo do navio que nos transportou para esta “guerra prometida”.
Senti que o castigo não era mais do que um exemplo para todos,
para que se percebesse o valor inestimável da disciplina.
Recusei “denunciar” camaradas meus que se envolveram em
desacatos durante a viagem (não esqueçamos que era uma viagem só
com ida marcada e que alguns de nós não teriam vinda). Ainda nem
sequer tinha a cabeça nem o organismo refeitos da viagem
tormentosa de nove dias pelo mar, e apanhei como castigo três
dias seguidos de sentinela. Não tinha condições físicas nem
psicológicas para cumprir de forma satisfatória a punição que me
fora aplicada.
Não tinha condições físicas nem psicológicas para cumprir de
forma satisfatória a punição que me fora aplicada
Era certo e seguro que não ia conseguir manter-me em alerta três
dias seguidos. Senti-me como os prisioneiros no Tarrafal (terra
da morte lenta), para onde o ditador Salazar enviava os que
lutavam pela liberdade, neste país amordaçado, pobre e isolado.
Aconteceu o que tanto temia. Ao segundo dia, fui apanhado a
dormir, na torre de vigia, pelo sargento-da-guarda. Presumo que
estava escondido na penumbra à espera que o sono me derrotasse.
Subindo as poucas escadas encontrou-me ali sentado, abraçado à
arma, dormitando de forma intermitente. De supetão, sacou-me a
arma dos braços com medo que o meu acordar com um “intruso” à
vista, me levasse a disparar por instinto. Num estremunhar de
sono, pânico e medo, muito medo, logo pensei: - “Estou
perdido, agora não me safo. Maldita hora que vim para a guerra!”.
No militar profissional, no que fazia da guerra uma forma de
vida, vi, através do seu olhar, uma estúpida alegria pela
façanha de apanhar um militar a dormir no posto. Não se
importava com as atenuantes justificadas por uma viagem
tormentosa, num barco com um convés vomitado e apinhado de
militares, em que nenhum estômago conseguiu sossegar durante
esses dias. Esta proeza custou-me mais um castigo, desta
feita um dos mais humilhantes que um militar, em especial um
pára-quedista, pode sofrer. Quinze dias de detenção militar mais
uma carecada que não me perturbou rigorosamente nada. Fui
proibido de usar a Boina Verde, andei em cabelo. Foi-me retirado
o Brevete e o crachá e até o cinto, que dá um ar mais humano
quando fardados, me foi tirado. Não pude sair do quartel. Sempre
que o batalhão formava na parada ali estava eu com mais alguns
detidos, ao lado do oficial-de-dia, com a vergonha estampada no
rosto, virado para os meus camaradas de forma a todos saberem
que eu estava detido. Foi humilhante demais. Paguei bem caro o
ser fiel e camarada dos meus companheiros. No entanto, nem
sequer sonhei em fazê-lo. Denunciar, nunca! Ali, aprendi, para
toda a vida, que o valor da solidariedade, da amizade e do
respeito se sobrepõe a tudo. Foram dias difíceis, muito difíceis
de ultrapassar, mas a forma como respeitei esses valores fizeram
de mim um homem diferente, mais respeitado por todos, sejam eles
iguais ou superiores na patente.
Paguei bem caro o ser fiel e camarada dos meus companheiros
Passada essa fase menos boa, da qual não me orgulho nem me
arrependo, fui logo mobilizado para uma operação militar de alto
risco em Marimba. Situada na fronteira com o Zaire, era aqui que
os pelotões do exército eram fustigados por “terroristas” sempre
que saiam para o mato. Não era normal neste tipo de operações
levarem novatos, isso estava sempre destinado aos mais
experientes e com mais tempo de guerra. Fiquei sempre na dúvida
se não terá sido um prolongamento do castigo.
O Noratlas já nos esperava na base. Desta vez, não era para me
proporcionar a fantástica leveza de um salto em pára-quedas, mas
sim, levar-me ao encontro do IN…
(Continua na próxima edição)
*Viana do Castelo |

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José da
Silva Marques
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Corpos amputados
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O frio da Realidade
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Os Pumas terminam
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RETALHOS X
“Que o
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RETALHOS XII
TUDO O RESTO FICAVA PARA TRÁS
RETALHOS XIII
Não sei
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Não sei
para onde vou… mas vou...(2)
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XV
O PRINCÍPIO DO FIM
(1)
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O PRINCÍPIO DO FIM
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A
SABOTAGEM
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O Povo não queria Guerra
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O embarque 1
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A viagem
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