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A chegada e a ida para a guerra (2)

 

Este primeiro embate, com combatentes valorosos, marcou-me para toda a vida. A chegada dos militares que eu já admirava e o sentir-me entre eles, fez-me respeitar sempre tudo e todos, até o IN (inimigo). Este também merecia o nosso respeito, pois estavam, em armas, defendendo as suas causas.

 

A maioria destes deslocados para a guerra, foi parar à 1ª Companhia de Caçadores Pára-quedistas (1ª CCP). Enquanto os meus camaradas passeavam pelo quartel conhecendo todos os seus cantos, eu aguardava a minha primeira triste e desalentada surpresa da minha vida como militar Pára-quedista. Já estava habituado e, por isso, já nem ligava quando volta e meia tinha de ir à tosquia por dá cá aquela palha. Era mais carecada menos carecada. Mas sempre que podia e me era permitido, manifestava a minha discordância. Gostei sempre de pensar e agir em consonância com o meu carácter.

 

Recusei “denunciar” camaradas meus que se envolveram em desacatos durante a viagem

 

Pela primeira vez, nesta “viagem de ida” a África, formámos na parada da companhia. Deram-nos as boas-vindas através do comandante da companhia, o Capitão Ferreira Pinto. Fisicamente era a antítese de um Tropa Especial e de um líder. Era um homem pequeno, sem carisma, sem aquele vozeirão típico e “muitíssimo educado” para os seus comandados. Deu as boas-vindas aos que chegavam à terra onde os ricos eram mais ricos e os pobres eram mais pobres. A mim, foi-me aplicado um castigo injusto, descabido e excessivamente penoso resultante do acontecido a bordo do navio que nos transportou para esta “guerra prometida”. Senti que o castigo não era mais do que um exemplo para todos, para que se percebesse o valor inestimável da disciplina. Recusei “denunciar” camaradas meus que se envolveram em desacatos durante a viagem (não esqueçamos que era uma viagem só com ida marcada e que alguns de nós não teriam vinda). Ainda nem sequer tinha a cabeça nem o organismo refeitos da viagem tormentosa de nove dias pelo mar, e apanhei como castigo três dias seguidos de sentinela. Não tinha condições físicas nem psicológicas para cumprir de forma satisfatória a punição que me fora aplicada.

 

Não tinha condições físicas nem psicológicas para cumprir de forma satisfatória a punição que me fora aplicada

 

Era certo e seguro que não ia conseguir manter-me em alerta três dias seguidos. Senti-me como os prisioneiros no Tarrafal (terra da morte lenta), para onde o ditador Salazar enviava os que lutavam pela liberdade, neste país amordaçado, pobre e isolado. Aconteceu o que tanto temia. Ao segundo dia, fui apanhado a dormir, na torre de vigia, pelo sargento-da-guarda. Presumo que estava escondido na penumbra à espera que o sono me derrotasse. Subindo as poucas escadas encontrou-me ali sentado, abraçado à arma, dormitando de forma intermitente. De supetão, sacou-me a arma dos braços com medo que o meu acordar com um “intruso” à vista, me levasse a disparar por instinto. Num estremunhar de sono, pânico e medo, muito medo, logo pensei: - “Estou perdido, agora não me safo. Maldita hora que vim para a guerra!”.

No militar profissional, no que fazia da guerra uma forma de vida, vi, através do seu olhar, uma estúpida alegria pela façanha de apanhar um militar a dormir no posto. Não se importava com as atenuantes justificadas por uma viagem tormentosa, num barco com um convés vomitado e apinhado de militares, em que nenhum estômago conseguiu sossegar durante esses dias. Esta proeza custou-me mais um castigo, desta feita um dos mais humilhantes que um militar, em especial um pára-quedista, pode sofrer. Quinze dias de detenção militar mais uma carecada que não me perturbou rigorosamente nada. Fui proibido de usar a Boina Verde, andei em cabelo. Foi-me retirado o Brevete e o crachá e até o cinto, que dá um ar mais humano quando fardados, me foi tirado. Não pude sair do quartel. Sempre que o batalhão formava na parada ali estava eu com mais alguns detidos, ao lado do oficial-de-dia, com a vergonha estampada no rosto, virado para os meus camaradas de forma a todos saberem que eu estava detido. Foi humilhante demais. Paguei bem caro o ser fiel e camarada dos meus companheiros. No entanto, nem sequer sonhei em fazê-lo. Denunciar, nunca! Ali, aprendi, para toda a vida, que o valor da solidariedade, da amizade e do respeito se sobrepõe a tudo. Foram dias difíceis, muito difíceis de ultrapassar, mas a forma como respeitei esses valores fizeram de mim um homem diferente, mais respeitado por todos, sejam eles iguais ou superiores na patente.

 

Paguei bem caro o ser fiel e camarada dos meus companheiros

 

Passada essa fase menos boa, da qual não me orgulho nem me arrependo, fui logo mobilizado para uma operação militar de alto risco em Marimba. Situada na fronteira com o Zaire, era aqui que os pelotões do exército eram fustigados por “terroristas” sempre que saiam para o mato. Não era normal neste tipo de operações levarem novatos, isso estava sempre destinado aos mais experientes e com mais tempo de guerra. Fiquei sempre na dúvida se não terá sido um prolongamento do castigo.

O Noratlas já nos esperava na base. Desta vez, não era para me proporcionar a fantástica leveza de um salto em pára-quedas, mas sim, levar-me ao encontro do IN…

 

 

 

(Continua na próxima edição)

*Viana do Castelo

 

José da Silva Marques
Meadela

Viana do Castelo

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