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A chegada e a ida para a guerra (1)

 

 

Os militares do exército, Comandos incluídos, seguiram de comboio até ao Grafanil, um entreposto do exército onde a “mercadoria” chegava aos magotes. Poucos dias depois, são colocados nos lugares mais inóspitos desta terra, onde se derramava, em cada morro traiçoeiro, sangue dos jovens que para ali foram enviados. É disso mesmo que se trata, jovens feito homens, à pressa, enviados para a guerra.

 

Nós, meia centena de Pára-quedistas, seguimos até Belas situada na periferia de Luanda, a cerca de 12 km. O autocarro serpenteava ao longo da costa tendo sempre como fundo as belas praias de Luanda. Deslumbrante esta baía, em semicírculo, onde avança uma língua de areia frente à cidade chamada Ilha de Luanda. Outrora, tinha sido uma espécie de feudo do Rei do Congo (até 1648) com uma enorme importância financeira. Era nestas praias que se apanhava o Zimbo, um minúsculo búzio, que era moeda corrente na altura em que aqui chegaram as caravelas dos navegadores portugueses. O Zimbo era tão valioso que, no Congo, até recusavam as moedas de ouro.

 

O autocarro serpenteava ao longo da costa tendo sempre como fundo as belas praias de Luanda

 

O graduado responsável pelo nosso transporte até ao quartel, disse-nos apontando para o fim da baía, tentando, logo ali, recordar-nos os valores adquiridos, ao longo da instrução, na metrópole:

“Reparem naquela fortaleza onde a baía acaba e começa a ilha de Luanda. Chama-se Fortaleza de S. Miguel e foi a primeira fortificação definitiva erguida em solo angolano”.

Parecia o meu professor David, ainda vivo, explicando os monumentos durante a remota visita de estudo, resumida a uma volta ao distrito de Viana do Castelo, quando terminei a quarta classe, uma dúzia de anos antes. Foi no meu professor que procurei sempre a sabedoria e os ensinamentos.

Nada do que possa fazer na vida irá tirar o brilho e o encanto do meu professor. Apesar da minha escolaridade ter ficado por ali, mercê da miséria em que se vivia, só lhe acrescentei mais cinco anos de escolaridade, com cinquenta anos feitos. Ao longo da vida fui tendo outros mestres. Com todos eles fui conhecendo e aprendendo a depender somente das minhas forças e da minha vontade. No final, se for bem sucedido, saberei que vivi sempre de acordo com os valores e princípios em que acredito, mas se falhar, também será por minha causa, pois não valorizei adequadamente esse tempo que estive com os meus mestres.

 

 

E foi nessas primeiras operações ofensivas que as Tropas Pára-quedistas sofreram o seu primeiro morto em combate

 

Acordei dos meus pensamentos, novamente, com a voz do graduado:

“Foi naquela fortaleza, em Março de 1961, que foram alojados os primeiros pára-quedistas enviados para Angola para suster a sublevação, proteger as populações ameaçadas, limpar itinerários e libertar pequenas populações”.

Como a querer-nos preparar para o que nos esperava (que não era nem de perto nem de longe uma visita de estudo às belezas destas paragens), acrescentou:

“E foi nessas primeiras operações ofensivas, em Abril de 1961, que as Tropas Pára-quedistas sofreram o seu primeiro morto em combate: Soldado Pára-quedista JOAQUIM AFONSO DOMINGUES”.

Dez anos depois, estava eu, com os meus companheiros de jornada, rendendo outros combatentes desta guerra que ainda durava e parecia não ter fim.

Foi rápida a viagem até Belas. O quartel do Batalhão de Caçadores Pára-quedistas nº 21 (BCP 21) era a mais bela Unidade das Forças Armadas Portuguesas e considerado, por muitos, o melhor quartel de África.

Logo, fomos distribuídos pelas três Companhias de Combate ali estacionadas, pois era de combatentes que esta “leva” tratava e não de pessoal de apoio, apesar de este ser sempre necessário.

 

… pára-quedistas cansados, sujos, esfomeados, mas valentes. De nenhum se ouvia um queixume que fosse

 

Foi quase um começar tudo de novo. Embora muitos de nós já tivéssemos mais um ano de tropa e na metrópole fossemos considerados “velhinhos” e, principalmente os militares mais novos, nos olhassem com respeito e alguma subserviência, aqui acontecia o inverso. Víamos chegar do mato (da guerra), quase dia sim dia sim, pára-quedistas cansados, sujos, esfomeados, mas valentes. De nenhum se ouvia um queixume que fosse. Não que tivessem medo dos superiores, mas porque já tinham interiorizado que tudo o que aprenderam, todas as privações e humilhações sofridas, na preparação para a guerra, fizeram deles homens mais duros, mais viris e melhores preparados para enfrentar todas as agruras de uma guerra traiçoeira.

Como eu sentia orgulho quando via chegar os combatentes pára-quedistas que regressavam de mais uma missão. Era a sua nobreza de carácter que os elevava ao patamar dos melhores. Por breves instantes, uma lágrima traiçoeira, sustida a muito custo, fazia-me sentir muito pequenino.

 

 

(Continua na próxima edição)

*Viana do Castelo

 

José da Silva Marques
Meadela

Viana do Castelo

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RETALHOS VII

Corpos amputados

 

RETALHOS VIII

O frio da Realidade

 

RETALHOS IX

Os Pumas terminam agora a sua missão

 

RETALHOS X

“Que o diabo leve a guerra!”

 

RETALHOS XI

“Que o diabo leve a guerra!” (2)

 

RETALHOS XII

TUDO O RESTO FICAVA PARA TRÁS

 

RETALHOS XIII

Não sei para onde vou… mas vou...

 

RETALHOS XIV

Não sei para onde vou… mas vou...(2)

 

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O PRINCÍPIO DO FIM (1)

 

RETALHOS XVI

O PRINCÍPIO DO FIM (2)

 

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A SABOTAGEM

 

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O Povo não queria Guerra

 

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O embarque 1

 

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