EDITORIAL - TEMA DE CAPA - IMPRENSA - ARQUIVOS - CONTACTOS

 

Rubricas

Editorial

Tema de Capa

Pergunta do Mês

Revista de imprensa

Psicologia

Podologia

Opinião

Sociedade

Humor - Apanhados Cão e Gato

Artes

Poesia

Tarot

Cineclube

Retalhos

Geração Bit

Viana ontem e hoje

Imagem

Música - Top Galáxia

Novas Publicações

Palavras cruzadas

Informações Úteis

 

 

 A VIAGEM (2)

 

 

 Quando se deixou para trás Lisboa e posteriormente a Ilha da Madeira, ficou também muito de nós e os melhores anos das nossas vidas. As saudades são já indescritíveis e uma solidão enorme invade-nos…

 

 Os soldados lá se acantonam pelo convés e à sombra das baleeiras tentam combater esta ociosidade aliada ao stress de uma viagem para a guerra, mas uma melancolia sem remédio domina-os.

Nos tempos mornos da viagem tínhamos por companhia um mar de água, cuja cor se confundia com um céu de chumbo quente. O sul confundia-se com a guerra e os militares confundiam-se com a família. As memórias de vinte anos, destes rapazes feitos homens, vinham novamente ao pensamento. “O Fugitivo”, a “Lassie”, o “Robin dos Bosques” e o “Zorro “, as grandes séries da televisão, confundiam-se com guerrilheiros. As brincadeiras ao pião e ao espeto confundiam-se com o jogo da lerpa, e essas brincadeiras de crianças confundiam-se agora com a contenda que nos esperava.

 

Um mar de água se confundia com um céu de chumbo quente

 

 Lembro-me do meu primeiro pião de bucho que se confunde também com o meu primeiro roubo. Os piões alinhadinhos na vertical e pendurados numa corda, estavam ali como a desafiar-me e eu não resisti: fui ao último e zás!… Passados uns minutos já a minha velhota tinha sido avisada. Levou-me pelas orelhas até devolver o pião na drogaria, tudo isto tendo como testemunha o velhinho mercado municipal. E foi precisamente nesse local que acabou por nascer o maior aborto urbanístico (prédio do Coutinho) que há memória em Viana do Castelo. Finalmente, passados trinta anos, está prestes a ser demolido (?) corrigindo e despoluindo o horizonte desta cidade.

Estava eu absorvido pela saudade e divagando pelas minhas memórias quando alguém grita à porta do camarote:

- “Há porrada junto ao cinema e acho que é com os Comandos”.

Quase ninguém se mexeu nem pestanejou, demonstrando total indiferença pelos que se entretinham a jogar à galheta. Como eu também não me mexi, pois estava observando a lerpa, algum esperto me alertou:

- “Oh Marques, não és tu que estás de cabo de dia? Parece que temos malta nossa envolvida!

 

“Há porrada junto ao cinema e acho que é com os Comandos”

 

A contra gosto lá me levantei. Os camaradas suspenderam a batota e fomos ver o que se passava. Tremenda algazarra com o pessoal do Exército a assistir a uma sessão de batatada no convés entre dois ou três Páras e outros tantos Comandos. Sempre que a rivalidade entre Páras e Comandos conduzia a este tipo de “combates”, o pessoal do Exército regozijava-se pois não gostavam dos Comandos nem pintados.

Quando se pressentiu que tudo poderia descambar em algo grave, pois um Pára teimava em empurrar pela borda-falsa o seu adversário, alguém desapertou os contendores e aquilo morreu ali. Se entre marido e mulher não se mete a colher, entre militares não é muito diferente pois ninguém vai fazer queixinhas a seguir. Eu, que estava bem sossegado a ver as “habilidades” dos jogadores da batota no meu camarote, é que acabei por levar por tabela. De repente, como cabo de dia, vejo-me a responder pelos actos de cerca de cinco dúzias de pára-quedistas que comigo embarcaram. Como dois ou três se lembraram de andar à pancada, fui avisado que mal chegasse a Luanda, iria ser responsabilizado pelo ocorrido, por não ter identificado os Pára-quedistas intervenientes.

Como tinha alguma habilidade para o desenho, a pedido de alguns, fui tatuando nos seus braços o emblema dos Pára-quedistas. Assim os dias foram passando numa rotina que me começava a assustar. Já nada nos intimidava, nem a viagem nem a guerra que nos esperava. Só nos restava o cansaço, o sono e a saudade. Por isso alguém dizia:

- “Já só faltam cento e quatro semanas para regressarmos”.

Foi isso que definiu o nosso objectivo principal e nos norteou todo o tempo: contar semana a semana.

Ao nono dia já se avistava o arranha-céus do Banco Comercial de Angola. O que era um ponto no horizonte, começou a emergir e com ele vislumbrámos a baía lindíssima de Luanda. Quando o Vera Cruz finalmente acostou ao porto de Luanda, as tropas desembarcaram e logo, no cais, reparámos num autocarro azul da força aérea, que nos transportou a Belas onde estava instalado o nosso Batalhão de Caçadores Pára-quedistas nº 21.

 

O nosso objectivo principal que nos norteou todo o tempo: contar semana a semana

 

Já em terra firme, avistam-se os barcos de pesca dos negros, passando lentamente para um e outro lado. Uns pássaros grandes e estranhos que pareciam gaivotas passeiam sem mover as asas, acima das palmeiras. Uns negros maltrapilhos arrastam-se a pedir esmola, outros oferecem cinzeiros de madeira e objectos esculpidos. Uns sujeitos brancos e sebentos trocam escudos por angolares com a taxa acrescida de 12%. Os brancos, aqui, de patilhas e camisas transparentes, têm todos aspecto de vendedores de automóveis e de taxistas. As mulheres brancas andam excessivamente bem vestidas e as jovens mulatas são lindas de morrer. Somos rodeados por pretitos, descalços nesta terra poeirenta e vermelha que mais parece barro, com cachos de enormes bananas ao preço da chuva.

E assim terminou esta viagem, ancorando neste Brasil africano chamado Angola.

 

José da Silva Marques
Meadela

Viana do Castelo

Blog zeminhoto

 

 

RETALHOS VII

Corpos amputados

 

RETALHOS VIII

O frio da Realidade

 

RETALHOS IX

Os Pumas terminam agora a sua missão

 

RETALHOS X

“Que o diabo leve a guerra!”

 

RETALHOS XI

“Que o diabo leve a guerra!” (2)

 

RETALHOS XII

TUDO O RESTO FICAVA PARA TRÁS

 

RETALHOS XIII

Não sei para onde vou… mas vou...

 

RETALHOS XIV

Não sei para onde vou… mas vou...(2)

 

RETALHOS XV

O PRINCÍPIO DO FIM (1)

 

RETALHOS XVI

O PRINCÍPIO DO FIM (2)

 

RETALHOS XVII

 

RETALHOS XVIII

 

RETALHOS IXX

A SABOTAGEM

 

RETALHOS XX

O Povo não queria Guerra

 

RETALHOS XXI

O embarque 1

 

RETALHOS XXII

O embarque 2

 

RETALHOS XXIII

A viagem

 

 

 

EDITORIAL - TEMA DE CAPA - REVISTA DE IMPRENSA - CONTACTOS

Topo