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A VIAGEM
(1)

O “Vera Cruz” apesar de ser um navio adaptado a transporte de
tropas, ainda mantinha as suas linhas de concepção extremamente
avançada para a época. Foi o primeiro verdadeiro paquete
Português, pois todos os navios de passageiros usados
anteriormente se classificavam como unidades mistas, pela grande
quantidade de carga transportada a par dos passageiros. Nos
pisos superiores alojavam-se os oficiais. Acima da linha do
convés, coabitavam os sargentos dos diversos ramos e os
militares da força aérea bem instalados, em camarotes triplos.
Sentíamo-nos uns privilegiados pois as condições acima da linha
do convés eram ainda excelentes.
Nos porões, a “carga” (neste caso os soldados do exército), foi
alojada e dormia em beliches triplos. As condições de higiene
rapidamente se degradaram transformando os porões em autênticos
“bordéis” de imundice e maus cheiros, embora os soldados não
tivessem culpa nenhuma, coitados! Assim, muitos praças tiveram
de vir dormir para a proa do navio ou estenderem-se pelo chão
como deserdados da sorte e não como cidadãos enviados ao serviço
da pátria.
Nos porões, a “carga” (neste caso os soldados do exército), foi
alojada e dormia em beliches triplos
Quando se deixaram de ouvir os gritos lancinantes de quem em
terra via partir os seus filhos para a guerra, sentimo-nos
escoltados por algo maravilhoso e de grande satisfação para toda
a gente. Era a primeira vez que tínhamos o privilégio de ver
golfinhos. Toda a gente ia à borda contemplar este espectáculo
único que se prolongou até ao fim da tarde. Que beleza!!!
A partir do início da década de 70, tudo se complicou para a já
pequena população de golfinhos. A poluição do rio, cada vez mais
preocupante, e a construção das pontes sobre o Tejo,
contaminaram toda a cadeia alimentar. O crescente tráfego
marítimo e a não existência de normas ambientais e de conduta na
observação destes animais, acabaram por dizimar toda esta
população.
Com a primeira noite vieram os primeiros enjoos com excepção
para a tripulação e para os militares profissionais. Para estes
últimos, a guerra era só mais uma comissão de serviço advindo
daí mais uma promoção, para alindar os seus ombros, subir na
carreira e ganhar mais uns cobres. Só o Fiúza, o pescador, é que
estava como peixe na água. Eu, como antes trabalhava nuns
estaleiros de construção naval, já vinha também um pouco
habituado.
Todos os outros viram-se de repente no meio do mar, como
prisioneiros do destino comandando pelo leme do deus Ares,
conhecido como Marte o deus da guerra, com milhares de Phobos e
outros tantos Deimos, os seus filhos. Segundo a mitologia, Marte
teve dois filhos com Vénus (a deusa do amor e o planeta mais
bonito visível, a olho nu, perto do anoitecer ou do amanhecer)
Phobos e Deimos (o Medo e o Terror).
Anoitecia rapidamente. Olhando em frente, mal se avistava
o horizonte. Os tons vermelhos, como Marte, sugeriam sangue e
este, por sua vez, conflitos e guerras. Não é de admirar que o
planeta vermelho fosse associado a uma divindade considerada a
zeladora do reino dos mortos e o deus da guerra.
Tanto de um lado como de outro não havia sinais de terra.
Estávamos sós, completamente abandonados no meio do oceano
Atlântico. Bem dizia o Ramos nas suas tiradas sempre cáusticas:
-
“Desta vez concordo! Gosto muito de ter
os pés assentes em terra firme”.
Os tons vermelhos, como Marte, sugeriam sangue e este, por sua
vez, conflitos e guerras
Aos praças, como eu, e aos milicianos, a todos era imposta a
guerra. Em alternativa tínhamos a deserção que tinha como
consequências nunca mais poder pisar solo pátrio e ter de deixar
para trás as famílias, cuja maioria era sustentada com os nossos
pobres salários. A Polícia Política (PIDE/GDS) a rondar as casas
de cada um, incomodando as pobres famílias mercê dos bufos que,
a troco de uns miseráveis tostões, informavam a PIDE de tudo o
que lhes parecia suspeito. Com estes condicionalismos, num país
em ditadura, só nos restava dizer presente e irmos para a
guerra.
Não era uma questão de patriotismo, heroísmo ou cobardia, mas
simplesmente os condicionalismos do país.
A vida a bordo de um navio com mais de 3000 militares alojados,
cuja lotação em condições normais era cerca de metade,
rapidamente se transforma em rotina e cansaço.
O Martins, o magrinho, sempre interessadíssimo pelos pormenores
nunca tendo estado tão perto de tanta coisa desconhecida, fazia
as suas habituais visitas ao interior do navio e não se cansava
de dizer:
- “É espantoso o número de coisas que
não sabia e que não se vêem do lado de fora. Estes barcos têm de
tudo, sabiam?”
Ao fim do segundo dia a bordo, pelo meio da tarde, avista-se
pela primeira vez a Ilha da Madeira sobre um céu quente, a
beleza de um postal ilustrado. Tinha aproveitado para escrever
umas cartas para casa, ainda a bordo, pois tinham-nos dito que
sairíamos por algumas horas e poderíamos enviá-las da Madeira.
Os mais afoitos saíram até onde lhes era permitido, o cais.
Parece que tinham medo que alguém, à última da hora, pensasse em
fugir à guerra. A maioria nem saiu do barco debruçando-se sobre
a borda falsa do navio vendo e deliciando-se com aquela beleza
para nós nunca vista.
As noites
eram o prolongamento dos dias de batota onde a “lerpa” e a
“vermelhinha” pontificavam

Tocou a sirene do navio, subiu-se o portaló e, depois da
contagem do pessoal, o Vera Cruz arrancou em direcção à
guerra prometida. Um navio cheio de milhares de jovens
feitos homens à força que nem tiveram tempo de o ser, jovens
feitos homens para matar, sem tempo para pensar o seu futuro,
sem outra liberdade que não a de tentarem cumprir o seu destino
programado por outros.
Os militares têm sempre como referência a disciplina e a
hierarquia. Nesta viagem pelos mares do atlântico, por ter o
número mais antigo entre os meus companheiros de armas, acabo
por ficar por eles responsável, como cabo dia, num dos nove dias
da viagem.
Nesta viagem rapidamente se instalou a rotina. As noites eram o
prolongamento dos dias de batota onde a “lerpa” e a
“vermelhinha” pontificavam. O “vício” era tal que os mais
embrenhados no jogo raramente conseguiam ir tomar o
pequeno-almoço. Eu, como tantos outros, não falhava a este
“requinte” que nos era servido pelas sete da manhã, hora a que
a lerpa ainda não tinha acabado para muita boa gente. Ocupávamos
as restantes horas do dia com as
idas ao bar e ao cinema que funcionava na coberta superior, para
além das refeições que nos eram servidas em pratos ensaiando
umas valsas que só os rebordos das mesas evitavam males maiores.
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José da
Silva Marques
Meadela
Viana do Castelo |
Blog zeminhoto

RETALHOS VII
Corpos amputados
RETALHOS VIII
O frio da Realidade
RETALHOS IX
Os Pumas terminam
agora a sua missão
RETALHOS X
“Que o
diabo leve a guerra!”
RETALHOS XI
“Que o diabo leve a guerra!” (2)
RETALHOS XII
TUDO O RESTO FICAVA PARA TRÁS
RETALHOS XIII
Não sei
para onde vou… mas vou...
RETALHOS XIV
Não sei
para onde vou… mas vou...(2)
RETALHOS
XV
O PRINCÍPIO DO FIM
(1)
RETALHOS XVI
O PRINCÍPIO DO FIM
(2)
RETALHOS XVII
RETALHOS XVIII
RETALHOS IXX
A
SABOTAGEM
RETALHOS XX
O Povo não queria Guerra
RETALHOS XXI
O embarque 1
RETALHOS XXII
O embarque 2
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