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O embarque(2)
A tropa do exército vinha de vários
pontos do País em quantidade suficiente para encher o navio.
Desfilava em continência perante as altas esferas militares, com
as senhoras do Movimento Nacional Feminino e da Cruz Vermelha a
distribuírem lembranças e folhetos sobre o território de
destino.
Rituais de despedida

Depois de os mandarem para o combate, os soldados ainda tinham
que prestar vassalagem aos senhores da guerra que, depois da
cerimónia da entrega de mais de um milhar de jovens para a
guerra, regressariam sem remorsos para os faustosos sofás dos
ministérios do Terreiro do Paço.
Felizmente, “dessa” nos livrámos. Subimos directamente o
portaló do navio sendo instalados em segunda classe, em
camarotes, como se fossemos diferentes dos demais militares, tal
era o estatuto que uma Tropa Especial da Força Aérea dispunha.
Os
soldados do Exército, vulgo “feijão verde”, estavam mal
preparados para a guerra, pois pouco mais sabiam do que marchar.
Em menos de meio ano, lá estavam os verdadeiros sacrificados
pela guerra, como se de animais se tratassem, a serem alojados
em beliches armados nos porões negros do navio.
Os soldados do Exército estavam mal preparados para a guerra,
pouco mais sabiam do que marchar
As
famílias apinhavam-se nas varandas da gare marítima com lenços a
acenar. As despedidas das famílias, o coro dos lamentos gritado
por milhares pessoas, são momentos muito difíceis de descrever.
As lágrimas que derramei, embora disfarçadas, foram de
solidariedade para com as mães dos muitos companheiros de
viagem. Nenhum familiar meu se foi despedir porque o norte
ficava muito longe e a vida difícil não o permitia.
Olhava para os militares pendurados em tudo quanto era sítio a
lutar por um lugar no convés, nas baleeiras, ou a trepar aos
mastros, para os últimos acenos.
A
sirene apitava e, durante alguns anos, a instalação sonora
tocava uma marcha intitulada “ANGOLA É NOSSA” independentemente
do destino – um ritual abandonado nos anos mais próximos do fim
da guerra.
“CARNE P’RA CANHÃO!!!” era esse o sentimento que a marcha
militar deixava… a alguns milhares de jovens que não sabiam se
regressariam sãos e salvos. Enfim, era a dita “guerra do
ultramar” que nos esperava.
Por
volta do meio-dia, o navio recolhia o portaló e os cabos.
Afastava-se lentamente, virava a proa à foz do Tejo, passava
por baixo da ponte do ditador, hoje “Ponte 25 de Abril”, e
deslizava diante da Torre de Belém. A fome já apertava e eram
dadas instruções para a primeira refeição a bordo.
Ainda
tenho bem presente o afastamento do navio do cais. Vi a multidão
com rostos algo crispados a acenar os lenços e milhares de
pessoas com as lágrimas escapando do choro compulsivo.
Já não se avistava o cais, mas ainda se ouvia o gritar
lancinante das mães
Já
não se avistava o cais, mas ainda se ouvia o gritar lancinante
das mães. Esses gritos acompanharam-me durante os nove dias de
viagem. Foram terríveis os momentos do despegar do solo pátrio a
caminho do desconhecido da guerra. Por mais cerimónias ou
levantamento da moral das tropas, sabíamos que nem todos
voltariam. Muitos de nós regressariam embrulhados em caixões,
outros deixariam por lá as botas decepadas pelas minas, mas
todos sabíamos que não mais seríamos os mesmos jovens que agora
mandavam mar dentro.
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P… de vida esta!
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