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O embarque(1)
Todos tínhamos já como companhia a “guia de marcha” para Angola.
Sabíamos que dali a alguns dias estaríamos, do outro lado do
mar, precisamente onde dez anos antes tinha rebentado a guerra.
Esta viria a conduzir à libertação desastrosa de uma das últimas
colónias em África.

Antecipação
Nessa
noite, nada nos restava, senão despedirmo-nos de nós próprios,
com o corpo a despegar-se da alma, pois os dez dias de licença
de mobilização já estavam gozados, as despedidas da família e os
abraços dos amigos já estavam consumados e até dos braços da
namorada já nos tínhamos separado. Era como se o cérebro se
diluísse e se separassem os neurónios, fica-se um destroço
humano. Este desunir o corpo da alma, cria em nós uma tristeza
travestida de alegria pela acção das dezenas de cervejas que se
emborcam tingindo o espírito de cada soldado.
Nada nos restava senão despedirmo-nos com o corpo a despegar-se
da alma
Nada
nem ninguém conseguiria atingir por muitas horas este apocalipse
que se apoderava de nós, onde o álcool só conseguia preservar
por algumas horas este estado de falsa alegria que nos levava a
coisas impensáveis.
Como
a querer prolongar os santos populares, engalanaram-se as
camaratas, de cama a cama, como rolos de papel higiénico áspero
em consonância com o que fizeram de nós. Muitos, já bem bebidos,
a incomodar os soldados que por cá ficavam a ultimar a sua
preparação militar. Algumas escaramuças foram inevitáveis e as
cervejas que nos acompanhavam tiravam-nos o discernimento e o
bom senso. Os soldados precisavam de descansar porque, para
eles, o dia seguinte era mais uma preparação dura e infernal que
os esperava e não se compadecia com os sinistros festejos dos
mobilizados.
As cervejas tiravam-nos o discernimento e o bom senso
Já a
madrugada ia alta e ainda se viam espalhados pelo campo de
futebol, que ficava quase paredes-meias com a camarata, muitos
corpos vomitados, e outros tantos sonolentos a acordar para a
vida novamente. O efeito de uma falsa alegria que lhes tingia a
tristeza, passava rapidamente e, como cordeirinhos, regressavam
às suas casernas para tentar dormir um pouco antes do despontar
do dia. O corpo casava-se de novo com a alma e o discernimento
voltava lentamente.
Na
esquina virada para o campo onde os mobilizados regressavam
ordeiramente e quase em silêncio, estava, na penumbra, o
sargento de dia, qual malvado, qual carniceiro sem dó nem
piedade a apontar o caminho do cadafalso. Era com certeza mais
um sargento analfabeto, orgulhoso das divisas conquistadas só
porque se ofereceu para matar pretos em África, mas desprovido
de qualquer sentimento altruísta e falho de humanidade.
De
forma cobarde, apontava a cada um o caminho da guilhotina que
lhes ia ceifar, pela última vez, o cabelo, que estava novamente
a começar a crescer.
–
Filho da puta, ainda por cima um nosso conterrâneo – não se
conteve o Afife.
–
É de Viana, o gajo, pá?” – logo perguntou outro.
Nem
respondi com a vergonha, mas todos sabiam que sim.
Naquele momento, uma garrafa de cerveja estilhaçou-se na parede
a poucos centímetros da cabeça do sargento açougueiro. Sei que
voou por cima das nossas cabeças arremessada bem lá de trás,
como se de uma granada se tratasse. Nunca se soube quem a
atirou, nem tão pouco alguém procurou saber o autor. O clima de
irmandade fortalecia-se e o assunto morreu ali para todos, menos
para o sargento que, cobardemente, se encolheu e não tossiu nem
mugiu. Com isso, beneficiaram aqueles que escaparam da ida ao
barbeiro.
Uma garrafa de cerveja estilhaçou-se na parede a poucos
centímetros da cabeça do sargento açougueiro
Hoje,
passados mais de trinta anos, esse sargento que parecia que
tinha o rei na barriga com a farda e as sujas divisas, passeia
sozinho. Nenhum de nós – e somos bastantes –, lhe passa “bife”.
De
manhã bem cedo, mais cinquenta e dois pára-quedistas
transportados num autocarro da Força Aérea partiram de Tancos
até à capital, mais precisamente para o Cais da Rocha de Conde
Óbidos, onde nos esperava o navio “Vera Cruz”
O
“Vera Cruz”
Até
1974, o mar era a grande via de ligação ao império. Mais de 90%
da carga e de 80% do pessoal metropolitano empenhado na guerra,
tinha sido transportado em navios. Os paquetes mais requisitados
na ligação a África foram o “Vera
Cruz”, o “Niassa”,
o “Lima”,
o “Império”
e o “Uíje”.
O
Niassa foi o primeiro paquete fretado como
transporte de tropas e de material de guerra, por Portaria de 4
de Março de 1961, mas seria o
Vera Cruz a fazer mais viagens, chegando a realizar
treze num ano. Em 1961, efectuaram-se dezanove travessias em
nove paquetes em missão militar e o ritmo aumentou à medida que
crescia a força expedicionária em África.
A
sua imponência e beleza como navio de linhas elegantes eram
motivo de registo
O
Vera Cruz, antigo paquete de luxo, fez a sua primeira viagem
inaugural ao Rio de Janeiro em 1952. Com lotação esgotada, entre
os muitos convidados encontrava-se o Almirante Gago Coutinho. Em
1954, juntamente com seu irmão gémeo, o paquete “Santa Maria”,
iniciou a sua carreira com ligações aos portos da América
Central. Em qualquer um que atracava era motivo de interesse.
A sua
imponência e beleza como navio de linhas elegantes eram motivo
de registo. Mantendo as viagens regulares ao continente
americano, o Vera Cruz em 1956, realizou um périplo por África
de oito de Agosto a 29 de Setembro. Só em 1959 é que realizou a
sua primeira viagem a Angola. Com o início da guerra colonial
nessa colónia, o governo de Salazar para fazer frente aos
acontecimentos, requisitou diversos navios para o transporte de
tropas e material de guerra, passando a ser uma das principais
ocupações dos navios portugueses. O Vera Cruz não foi
excepção. Adaptado para o transporte de tropas, com a instalação
de alojamentos nas cobertas, a 5 de Maio de 1961, largou de
Lisboa rumo a Luanda tendo no mastro principal hasteada a
flâmula verde e encarnada, habitual nos navios de guerra. Em
1962, o Vera Cruz é requisitado para se deslocar ao Paquistão
com o fim de recolher os militares feitos prisioneiros, devido à
invasão da Índia Portuguesa pelos indianos.
Largou de Lisboa rumo a Luanda, tendo no mastro principal
hasteada a flâmula verde e encarnada
Estava ali imponente atracado no Rio Tejo para mais uma missão
que a guerra lhe destinava, embarcar tropas para o ultramar.
Seria das últimas viagens que faria, pois em 1972 seria vendido
para abate desaparecendo um dos símbolos da Guerra Colonial.
(continua no próximo número)
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José da
Silva Marques
Meadela
Viana do Castelo |
Blog zeminhoto

RETALHOS VII
Corpos amputados
RETALHOS VIII
O frio da Realidade
RETALHOS IX
Os Pumas terminam
agora a sua missão
RETALHOS X
“Que o
diabo leve a guerra!”
RETALHOS XI
“Que o diabo leve a guerra!” (2)
RETALHOS XII
TUDO O RESTO FICAVA PARA TRÁS
RETALHOS XIII
Não sei
para onde vou… mas vou...
RETALHOS XIV
Não sei
para onde vou… mas vou...(2)
RETALHOS
XV
O PRINCÍPIO DO FIM
(1)
RETALHOS XVI
O PRINCÍPIO DO FIM
(2)
RETALHOS XVII
RETALHOS XVIII
RETALHOS IXX
A
SABOTAGEM
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