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O POVO NÃO QUERIA A GUERRA (1)

 

Com mais uma fornada pronta de Caçadores Pára-quedistas, era o sinal de que estava iminente mais um embarque para África…

 

Maio corria velozmente para o fim e eu era rendido na Polícia Aérea sendo colocado de novo em Tancos. Aqui reencontrei camaradas do meu curso que só aguardavam sinal verde, tal como eu, para embarcar junto desta última fornada e, desta vez, falava-se que seria para Angola.

O Golpe de 28 de Maio de 1926, foi um pronunciamento militar que pôs termo à Primeira República, levando à implantação da auto-denominada Ditadura Nacional, depois transformada, após a aprovação da Constituição de 1933, em Estado Novo, regime que se manteve no poder em Portugal até à Revolução dos Cravos de 25 de Abril de 1974. O Golpe de 28 de Maio começou em Braga, comandado pelo general Gomes da Costa, seguida de imediato em outras cidades como Porto, Lisboa, Évora, Coimbra e Santarém.

 

O povo veio à rua aclamar os seus soldados que iam subindo a Avenida da Liberdade

 

Em 1971, 45 anos depois, estávamos desfilando em Braga, cidade que conta com mais de 2.250 anos nos Anais da História e uma das cidades cristãs mais antigas. É, ainda, considerada como o maior centro de estudos religiosos em Portugal e pode, realmente, estar muito orgulhosa do seu título de "Cidade dos Arcebispos". O povo veio à rua aclamar os seus soldados que iam subindo a Avenida da Liberdade. As pessoas apinhavam-se nos passeios, vibravam num misto de aplausos e de emoções, as pétalas de flor arremessadas das janelas voavam como se de pequenos pára-quedas se tratassem. O marchar característico dos Pára-quedistas e o som das botas em uníssono, ecoava ao longo do percurso.

Foi, de facto, fantástica, a recepção que nos esperava no Campo da Vinha, onde as tropas chegavam e alinhavam em formação com os seus estandartes. As casas engalanadas com as suas varandas e janelas polvilhadas de colchas e bandeiras davam um ar festivo e um acolhimento aos bravos soldados que em breve partiriam para a guerra.

 

O povo anónimo e as suas famílias vitoriavam a bandeira e os seus soldados

 

O povo anónimo e as suas famílias vitoriavam a bandeira e os seus soldados. O povo não queria guerra. O povo sabia que esta parada militar era uma antecâmara da guerra e que muitos dos que agora vitoriavam, não voltariam tombando no capim ensanguentado. E o regime apropriava-se indevidamente destes sentimentos.

Regressámos à casa mãe, era assim que era denominado o Regimento de Caçadores Pára-quedistas. Ao fim de alguns dias é publicada mais uma lista de mobilização. Recebi a esperada notícia com tranquilidade onde cerca de duzentos militares foram divididos pelos três teatros de guerra em África. Ao pessoal do meu curso, que se tinha safo da primeira leva, tocava-lhes, agora, Angola. Ainda não era desta que dois amigos embarcariam: o Martins “o algarvio” porque estava a tirar a especialidade de tratador de cães de guerra, mas no fim do curso dificilmente escaparia, e o Covilhã, que mercê da sua extraordinária força e destreza, sendo considerado o melhor soldado do curso nas provas físicas, ficaria na metrópole adstrito à área da educação física e desportiva.

A mobilização esperada desta vez também foi comigo… foi-me concedida uma licença de dez dias, de forma a poder estar junto dos meus, pois a ordem de embarque poderia surgir a cada momento. A única coisa que sabia era que ia para Angola, de avião ou de barco, mas o destino estava traçado.

 

A única coisa que sabia era que ia para Angola

 

Não foram férias esses dez dias concedidos, mas sim um tempo de despedida de tudo o que me prendia e do que queria levar comigo e não era só a família, os amigos e a namorada. Queria levar a essência da minha cidade e das águas do rio Lima. Este com uma longa história profundamente interligada a uma velha lenda, sobre as suas margens. Na altura do Império Romano, era conhecido por o "rio do esquecimento", pois os soldados sabiam que quem atravessasse as suas margens perderia "o olvido do passado e da própria pátria", tal como refere o Conde de Bertiandos, in “Lendas”. Assim sendo, as legiões romanas temiam as águas do Lima e negavam-se a navegar sobre elas. Apenas no ano de 135 a.C. as tropas romanas atingiram a margem esquerda do Lima, comandadas por Décios Junos Brutos, que, empunhando o estandarte das águias de Roma, desafiou a "beleza manhosa" das águas do rio e as atravessou sozinho. Já do outro lado da margem, o comandante chamou cada soldado pelo seu nome, conseguindo assim provar às suas tropas que, apesar do fascínio do rio Lima fazer lembrar o rio Lethes, apagando a memória a quem o atravessasse, a lenda não era verdadeira. Ainda hoje, quem conhece este rio e sabe a "história" das suas margens não se cansa de enaltecer a velha lenda popular.

 

(continua no próximo número)

 

 

José da Silva Marques
Meadela

Viana do Castelo

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