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A sabotagem (2)

 

A notícia colheu meio mundo de surpresa. A BA3 era o maior complexo militar da Força Aérea sendo uma base de aviação de ligação, transporte e treino de tropas pára-quedistas, para além de ser uma Unidade também de treino dos pilotos para a guerra colonial.

Fora ali desencadeada pela ARA (Acção Revolucionária Armada) uma acção com vinte cargas explosivas e incendiárias em vinte aviões e helicópteros, uma perfeita afronta para o regime, e logo num santuário militar por excelência. O ataque infligiu pesadas baixas em material em aviões de guerra. Bastaram três homens: um cabo miliciano, militar no activo precisamente na base de Tancos e quase a completar o curso de piloto de helicópteros dado por instrutores franceses; um ex-furriel enfermeiro militar com a especialidade de neuropsiquiatria, com quase três anos de serviço em Moçambique donde tinha regressado em Março de 1969 e onde assistiu, impotente, às mortes e às vidas estropiadas por feri­mentos, sem remédio, de muitos combatentes involuntários; e o mais velho, de 28 anos de idade, que também esteve na acção do Cunene, tendo sido soldado de uma Companhia de Caçadores, conheceu em Angola, Ambriz e Lundas.

 

Fora ali desencadeada uma acção com vinte cargas explosivas e incendiárias em vinte aviões e helicópteros

 

Às dez menos dez da noite, já estava na estação de comboios a comprar um bilhete, mas sem utilizar o “privilégio” de ser militar. Pagava mais caro, mas desta vez ia vestido à civil por ser mais seguro. Embarquei, não se via um militar fardado no comboio, por ser um dia de semana. Passei a noite de terça para quarta-feira, de nove de Março de 1971 – precisamente no dia de aniversário de minha mãe deixando-a mais uma vez aflita –, dentro de um comboio, mas desta vez não ia encafuado como em tantas outras viagens de fim-de-semana. Havia lugares sentados e, desta vez, sentia-me mais cidadão, com mais direitos e olhado de forma diferente pelas pessoas.

Ao fim de quatrocentos quilómetros e de nove horas intermináveis, desembarco na estação de Santa Apolónia, em Lisboa, por volta das sete da manhã. O dia estava bonito, o sol a despontar e uma pequena brisa trazia a maresia salpicada com o bafo do Tejo ali mesmo ao lado.

Com as pessoas ainda ensonadas e taciturnas, Lisboa já começava a formigar. Os comboios descarregavam os passageiros nas estações; os barcos, que antes tinha ajudado a construir nos Estaleiros Navais de Viana do Castelo, vindos da outra margem desaguavam no cais; as camionetas despejavam os seus utentes no Campo das Cebolas. O Metro e os Autocarros transportavam esse formigueiro de gente para os seus empregos.

 

“Ó pára-quedista, mude de calças rápido pois se alguém o avistar de calças na mão, ainda passamos por p…”

 

Uma vez chegado, meto-me num táxi e digo ao taxista: – “Para Monsanto por favor, para a Polícia Aérea”.

Ainda à civil, rumo à Serra de Monsanto de forma a tentar entrar sem dar nas vistas no quartel. Pelo caminho vou conversando com o chauffeur, dando-lhe conta da minha situação e tentando ganhá-lo. Fui mudando de roupa pelo caminho e, na subida para Monsanto, numa zona mais arborizada e deserta, comecei a mudar de calças. O taxista, com um sorriso matreiro, diz-me: – “Ó pára-quedista, mude de calças rápido pois se alguém o avistar de calças na mão, ainda passamos por p…”. Mesmo troçando da situação, o homem tinha razão, dois homens em Monsanto e um a mudar de roupa…

Completei a muda, fiquei de farda azul vestida e de boina verde. Eram quase oito horas da manhã e ainda de dentro do táxi vi quem estava de sentinela à porta de armas, e para mal dos meus pecados, não me era familiar o sentinela. Como estava na hora de mudança dos sentinelas, foi o bom do taxista, que se tornou meu cúmplice e me disse: – “Aguarde uns minutos, pode ser que tenhamos sorte com o próximo”. E naqueles dois ou três minutos de espera ainda dentro do táxi, confessou-me que também tinha um filho em Angola, que entendia muito bem a vida de um militar e que me ia ajudar esperando o tempo que fosse necessário. Era muito raro uma família não ter nenhum dos seus membros no Ultramar e nas agruras da guerra.

 

E naqueles dois ou três minutos de espera confessou-me que também tinha um filho em Angola

 

Por sorte a sentinela que entrara agora de serviço era da minha camarata. Este sabia que eu estava ausente sem autorização, mas percebia as razões pois tinha sido um dos que me dissera para aproveitar estes meses nas calmas. Fez-me sinal para entrar e, ao passar por ele, quase em surdina me avisou: – “Nosso Pára, vá de imediato guardar o saco pois vai haver mais uma chamada para confirmar as presenças”.

“Obrigado nosso cabo, Deus lhe pague” – manifestei logo ali o meu sincero agradecimento.

“Não perca tempo e não se preocupe porque não está em falta, o seu amigo alentejano ontem respondeu por si”.

Claro que fui dar um abraço sentido ao, muito recente, amigo alentejano, que demonstrou a todos o valor da amizade. Com um gesto mostrou que vale a pena sentir a felicidade de poder contar incondicionalmente com alguém. Soube estar presente, adivinhando a minha dificuldade e fazendo da amizade um ponto positivo na vida.

 

 

(continua no próximo número)

 

 

José da Silva Marques
Meadela

Viana do Castelo

Blog zeminhoto

 

 

RETALHOS VII

Corpos amputados

 

RETALHOS VIII

O frio da Realidade

 

RETALHOS IX

Os Pumas terminam agora a sua missão

 

RETALHOS X

“Que o diabo leve a guerra!”

 

RETALHOS XI

“Que o diabo leve a guerra!” (2)

 

RETALHOS XII

TUDO O RESTO FICAVA PARA TRÁS

 

RETALHOS XIII

Não sei para onde vou… mas vou...

 

RETALHOS XIV

Não sei para onde vou… mas vou...(2)

 

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O PRINCÍPIO DO FIM (1)

 

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O PRINCÍPIO DO FIM (2)

 

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