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Retalhos XVI

 

O PRINCÍPIO DO FIM

 

 

Chegou, junto de nós, um furriel, sem qualquer postura militar, como se de um civil se tratasse. Depois das apresentações da praxe foi dizendo-nos: - “Vocês, aqui, são quatro pára-quedistas e vão estar de serviço, um por dia, às rondas no exterior do quartel, portanto…” – e colocando um pé no beliche, continuou: – “… dizia eu que, como só precisamos de um Pára-quedista de cada vez, e desde que aquele que cá ficar assegure diariamente os serviços de ronda, os restantes podem ir para casa”. – olhámos uns para os outros atónitos, mas sem nos atrevermos a dizer qualquer palavra. Acrescentou de seguida: – “Atenção que esse “desenfianço” é por vossa conta e risco. Eu, não disse nada”.

Dando por terminadas as “instruções”, o Furriel, que tinha um certo ar de menino do papá, abandonou a caserna, como se tivesse feito um discurso importante.

“Ai que c…, isto é assim?” – interrogou logo o Fiúza meio atónito.

Foi então que se aproximaram os novos colegas da polícia e os militares da Força Aérea, e um deles ajudou à missa dizendo:

“Nosso Pára, aproveite. Já os outros que cá estavam faziam o mesmo. Esta tropa é para se fazer nas calmas… Enquanto cá estão aproveitem!”.

O Araújo, sujeito aparentemente bonacheirão, mas vivaço e sempre pronto a tirar proveito das situações, atirou logo de rajada: – “Tendes medo? Eu para a semana fico já em casa e que se f… a tropa!...” – disse tentando tirar vantagem do facto de ficarmos surpresos com esta benesse que não lembrava ao diabo.

 

Agora, compreendia realmente como estas tropas eram presa fácil e o termo “carne para canhão” se aplicava com toda a propriedade

 

Eu tinha o exemplo do meu mano mais velho, que num quartel do exército, em Sacavém, volta e meia se desenfiava com a maior impunidade. Só agora, compreendia realmente como estas tropas, em África, eram presa fácil e o termo “carne para canhão” se aplicava com toda a propriedade. Lembrei-me logo dos relatos feitos por aqueles que regressavam da guerra. Diziam eles, que mal uma Companhia do exército era colocada no seu aquartelamento, era certo e sabido que nos primeiros dias os “turras” caíam-lhes em cima, flagelando-os sem piedade.

“Ó Afife, tem calma. Esta merda, não é à medida do freguês.” – disse eu dirigindo-me ao Araújo. Era assim que eu tratava o Araújo por ser de Afife, terra do poeta Pedro Homem de Melo – “O Furriel disse o que disse, mas nós não vamos pelo diz que disse. Se a velhice é um posto… eu sou o mais velho. Portanto, tem calma, temos toda a semana para pensar e não nos vamos meter em alhadas”.

 

 

Aquela cara de menino bonacheirão, virou, como por encanto, cara de menino amuado a quem lhe foi sacado o “brinquedo”. Esquecendo-se que o brinquedo, num instante, se poderia transformar, se algo corresse mal, num mandato para a “casa da rata”, assim era denominada, entre os militares, a prisão.

É evidente que aquela proposta me ficou a martelar nos ouvidos e, pensando bem, não era de desperdiçar. Já bastava perder os meus melhores anos e arrancarem-me da minha cidade pacata, Viana do Castelo. Aqui, o mar combina na perfeição com a montanha. O estuário do rio Lima, outrora o rio do esquecimento, é de uma beleza única vagueando aos pés de Santa Luzia. As duas margens são ligadas por uma ponte metálica obra de Gustav Eiffel, o criador da torre Eiffel em Paris, que em Viana do Castelo também deixou a sua marca.

Naquela primeira semana, saí para a rua com mais quatro PA’s. Utilizávamos um "unimogue" que mais parecia uma pandeireta, dando sinais sempre que o condutor se deliciava a fazer perícias. Dar uma cambalhota e projectar-me, não para casa desenfiado, mas para a enfermaria com o chassis feito num oito, era sempre o mais provável.

Onde houvesse cheiro a militares da força aérea, lá estávamos nós para manter e impor a ordem, como se de um embarque, de militares para África, se tratasse.

Na segunda saída, calhou-me logo acompanhar um embarque no aeroporto. Tratava-se do pessoal da minha companhia que comigo andara, sofrera e vencera em Tancos.

 – “Nosso Pára, não dê confiança aos militares. Lembre-se que a você compete-lhe manter a ordem e a lei!” – atalhou o comandante da ronda, um furriel todo emproado.

 

Sabia que muitos dos que voltassem viriam com problemas de vária ordem. Na mente e nos ossos!

 

Mas qual quê?! Os camaradas de tantas privações passadas, mal me viram com o braçal da Polícia Aérea, arrancaram-me da minha pose policial. Vi-me envolvido no meio deles confraternizando e dando, a cada um, um abraço de despedida. Só lhes faltou, para desespero dos restantes PA’s, lançaram-me ao ar em tremenda gritaria. Ainda bem que imperou o bom senso. Ri, bebi, chorei, e até embarquei com eles, pois o meu coração e um pedaço de mim, também iam para a Guiné.

Quando os vi na placa de embarque, a decisão ficou tomada: iria para casa sim senhor, mal me pudesse escapar desenfiar-me-ia. Que me poderia acontecer de fosse apanhado? Algum castigo era superior ao destes meus amigos que agora partiam? Sabia que nem todos iriam regressar e muitos dos que voltassem viriam com problemas de vária ordem. Na mente e nos ossos!

Sabendo que militar é sinónimo de desenrascar, assim que chegasse ao alto de Monsanto iria acertar isto com os meus camaradas: três de nós iriam de férias.

 

(Continua no próximo número)

 

 

 

José da Silva Marques
Meadela

Viana do Castelo

Blog zeminhoto

 

 

RETALHOS VII

Corpos amputados

 

RETALHOS VIII

O frio da Realidade

 

RETALHOS IX

Os Pumas terminam agora a sua missão

 

RETALHOS X

“Que o diabo leve a guerra!”

 

RETALHOS XI

“Que o diabo leve a guerra!” (2)

 

RETALHOS XII

TUDO O RESTO FICAVA PARA TRÁS

 

RETALHOS XIII

Não sei para onde vou… mas vou...

 

RETALHOS XIV

Não sei para onde vou… mas vou...(2)

 

RETALHOS XV

O PRINCÍPIO DO FIM (1)

 

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