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Retalhos XV

 

 

O PRINCÍPIO DO FIM (1)

A contestação oblíqua ao sistema colonial, de forma camuflada e sobre a capa de reivindicações laborais é afogada em sangue pelas punições militares e paramilitares…

 

Três manifestações, por melhores salários, acabam em morticínios: a 3 de Agosto de 1959, em Pidjiguiti, na Guiné, cerca de cinquenta estivadores são mortos numa acção reivindicada pelo PAIGC – Partido Africano para a Independência de Guiné e Cabo Verde; em Janeiro de 1960, em Mueda, em Moçambique, as forças coloniais massacram centenas de camponeses; em Janeiro de 1961, na Baixa do Cassange, em Angola, milhares de apanhadores de algodão são chacinados. Tudo isto dá lugar à contestação frontal, a 4 de Fevereiro de 1961, em Luanda. Um grupo de nacionalistas angolanos ataca duas cadeias e o quartel da Polícia Móvel com o objectivo de libertar camaradas presos. Este acto violento de revolta, e ao mesmo tempo de reivindicação de angolanidade, simboliza o princípio do fim do “III Império”, do Império Africano de Portugal.

 

Três manifestações, por melhores salários, acabam em morticínios

 

Precisamente uma década depois, nos primeiros dias de 1971, apresento-me, com o Fuíza, o Araújo e o Fitas, em Lisboa, mais propriamente em Monsanto, no GDACI - Grupo de Detecção, Alerta e Conduta da Intercepção. E ali me é atribuído o nº 4/71 sendo alojado numa camarata com outros militares da Policia Aérea.

Ao sermos apresentados aos colegas da caserna, tomo o primeiro contacto com um ex-combatente deficiente. Este tinha uma prótese que lhe substituía não só a bota, perdida algures em Moçambique, mas toda a perna. Restava-lhe apenas um toco onde se aparelhava o apetrecho que o ajudava a mover-se e a deslocar-se todos os dias para a cidade. Tentava dar um novo rumo à sua vida, já que a morte não o conseguiu derrotar. Era um indivíduo extremamente inteligente. Tentava por outros meios refazer a vida, sozinho, preferindo ficar na capital do que regressar à sua terrinha. Com a anuência do comando do GDACI, ali “morava” connosco como se de um militar ainda se tratasse. Tinha “direito” a alojamento e alimentação, e procurava romper na vida como técnico de reparação de rádios e televisões.

 

 

Tinha uma prótese que lhe substituía não só a bota, perdida algures, mas toda a perna

 

Ao fim de oito meses de instrução e preparação, para uma guerra algures em África, apercebi-me, desde o primeiro dia, que este destacamento para a polícia podia ser como umas férias merecidas. Antes que a guerra tomasse conta de nós, esta era a última oportunidade de respirar a liberdade e apreciar a capital histórica de melancólicos encantos e grande beleza. Os seus bairros medievais de Alfama e Mouraria, o Bairro Alto e a Madragoa, com as suas ruas típicas, dão um toque tradicional e folclórico devido aos seus casarios.

Na primeira semana, fiquei espantado e atónito com as facilidades que dispunham outras armas, das mesmas forças armadas, e para as quais não estava minimamente preparado. Espantoso isto. O regime a que vinha habituado era extremamente rigoroso. Não havia lugar a cansaço nem a adormecimento na forma, quanto mais poder-me “desenfiar” do quartel e regressar três semanas depois, como se nada tivesse acontecido. Em tempo de guerra fui afeito e formado a nunca transgredir em qualquer situação, a cumprir sem regatear ou sequer questionar qualquer ordem ou dever.

 

Tive de dar uma marrada sem capacete, numa árvore, só porque o sargento entendeu punir-me

 

Um dia, tive de dar uma marrada sem capacete, numa árvore, caindo como um tordo, só porque o sargento entendeu punir-me, para exemplo de todos, a pretexto de algum abrandamento meu. De uma outra vez, já no fim do curso de combate, depois de uma marcha de 40 quilómetros, durante quatro horas, com botas calçadas e transportando o restante equipamento, chegámos completamente exaustos, esfomeados e sedentos. No refeitório, em vez de uma suculenta refeição para repor o que aquela estafa nos tinha levado, encontrámos, em cima das mesas, um papel em forma de cavalete dizendo: ”isto é a vossa refeição!”. 

 

(Continua no próximo número)

 

 

 

José da Silva Marques
Meadela

Viana do Castelo

Blog zeminhoto

 

 

RETALHOS VII

Corpos amputados

 

RETALHOS VIII

O frio da Realidade

 

RETALHOS IX

Os Pumas terminam agora a sua missão

 

RETALHOS X

“Que o diabo leve a guerra!”

 

RETALHOS XI

“Que o diabo leve a guerra!” (2)

 

RETALHOS XII

TUDO O RESTO FICAVA PARA TRÁS

 

RETALHOS XIII

Não sei para onde vou… mas vou...

 

RETALHOS XIV

Não sei para onde vou… mas vou... (2)

 

 

 

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