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Retalhos XIV
Não sei
para onde vou… mas vou
(2)
Todos os que se apresentaram formaram na parada do quartel,
bem alinhados e disciplinados. Sentiam-se numa antecâmara onde
nem todos conseguiam disfarçar uma crescente angústia, como os
bois quando se apercebem que vão para o matadouro.
Pela
memória passavam as imagens tristes que o povo já se habituara a
ver na televisão: o navio afastando-se do cais, o choro das
mães, as lágrimas enroladas nos lenços brancos da despedida e da
incerteza da volta.
O
tempo corria depressa neste restinho de liberdade sufocada, da
“Primavera Marcelista”. Os que não embarcaram para a Guiné foram
encaminhados, para outras tarefas.
A
semana entre o Natal e o Ano Novo, de 1970, era uma transição
para outras paragens. A Companhia estava mobilizada para
embarcar para a Guiné. A vintena que ficava iria render os do
Curso anterior, por forma a que estes se juntassem no embarque
já aprazado para as primeiras semanas do novo ano.

O 1º
sargento Capucho, que nos tinha acabado de ministrar o Curso de
Combate, era um homem aparentemente frágil. Tinha o corpo
pequeno e adelgaçado e a tez bem marcada pelas campanhas de
África e pelo sol algarvio. Mancava ligeiramente devido a um
ferimento em combate, mas isso não o impedia de se colocar a
nosso lado em todos os exercícios. O seu exemplo, no Curso de
Combate, fez de nós melhores homens, mais fortes, mais
determinados e melhor preparados para a vida e para a morte. Foi
ele que nos informou, em primeira-mão, o que nos esperava nos
próximos tempos até sair a próxima fornada para nos substituir.
Depois, todos ou quase todos iriam acompanhar a próxima fornada
de combatentes e partir para o Ultramar, lá para o verão.
-
“Como a velhice é um posto, vou chamar já os primeiros quatro
homens para irem prestar serviço para a PA, em Lisboa, como
sabem, a Polícia Aérea. Certo Patacão?” – concluiu o
sargento Capucho.
-
“Eu na’ sei nada, meu Sargento.” – respondia o alentejano
nunca sabendo de nada na sua matreirice de chaparro, olhando
imediatamente para mim, atitude que foi acompanhada por todos os
demais, como se eu não soubesse que tinha o número mais baixo e,
portanto, o mais antigo.
O 1º sargento Capucho
mancava ligeiramente devido a um ferimento em combate
-
“Parece que sou bruxo” – pensei logo, pois sabia que sendo o
mais antigo já me tinha safo, por uma unha negra, de ir bater
com os cornos na Guiné. Mas de ir para as polícias não escapava.

O
sargento Capucho, com aquele ar de puto reguila e com a boina
atirada um pouco para trás, sacou de uma folha e continuou:
-
“Como vos conheço de ginjeira, vou chamar-vos pelos nomes e dão
um passo em frente os soldados: Marques, Casimiro, Araújo e o
Fitas”.
Depois de uma breve pausa, para podermos digerir melhor a
informação, acrescentou:
-
“Vão ter que se apresentar no GDACI em Monsanto, a cinco de
Janeiro. Os restantes ficarão cá no regimento” - e foi
continuando – “O Martins, como tem cara de perdigueiro
algarvio, vai tirar o curso de tratador de Cães de Guerra. Estou
a brincar contigo pá, também sou algarvio, sei que gostas de
cães e tens uma certa feição para lidar com os eles”.
Foi ele que nos informou,
em primeira-mão, o que nos esperava nos próximos tempos
O
Martins não escondeu a sua alegria pois foi sempre esse o seu
sonho.
-
“Para o refeitório ficam: O Covilhã, o Cunha, o Risotas, o
Patacão de um cabrão” – disse com ar de gozo para o bom
gigante, continuando a listar mais uns quantos para o
refeitório.
E lá
foi nomeando, um a um, para os seus novos “empregos”. Quando deu
por terminada a atribuição de tarefas, mandou destroçar todos os
que iam exercer novas funções, até que chegasse o dia, mais lá
para o verão, de sermos todos mobilizados para África.
Acompanharíamos o 1º Curso de Combate de 1971, que agora se
iniciava e por lá encontraríamos outros meus patrícios.
-
“Do mal o menos, sempre vou para a guerra com mais gente da
minha terra” - lembrando-me logo do Ramos da Areosa, do
Martins de Valença e do Lima da Correlhã…
(Continua no próximo número)
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José da
Silva Marques
Meadela
Viana do Castelo |
Blog zeminhoto

RETALHOS VII
Corpos amputados
RETALHOS VIII
O frio da Realidade
RETALHOS IX
Os Pumas terminam
agora a sua missão
RETALHOS X
“Que o
diabo leve a guerra!”
RETALHOS XI
“Que o diabo leve a guerra!” (2)
RETALHOS XII
TUDO O RESTO FICAVA PARA TRÁS
RETALHOS XIII
Não sei
para onde vou… mas vou
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