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Retalhos XIII

 

Não sei para onde vou… mas vou

 

Como pedindo desculpas por não termos sido mobilizados para a guerra, quando na verdade, desde o primeiro dia, já sentíamos pendente nas nossas cabeças o machado do destino que nos esperava, o oficial pára-quedista, em tom pesaroso, disse que não podíamos ser todos mobilizados para a Guiné, porque o Regimento precisava de alguns de nós por algum tempo.

- “Este gajo, não deve bater bem da bola! Fala como se estivéssemos todos com pena de não embarcar de imediato para a guerra e logo para a Guiné” – pensei.

Não sei qual a “guerra” que nos está talhada, mas o Vietname (pelo que já se sabia por ex-combatentes regressados) … não obrigado.

 

Imaginar embarcar para aquele país e guerra era por si só um pesadelo

 

Ser mobilizado para o “Vietname português” era como aceitar uma punição. Era considerada uma condenação a dois anos de apodrecimento em condições piores que as de um cárcere. O risco de o regresso se fazer na posição horizontal, entre tábuas, ou deixar por lá as botas era muito grande.

Não existe na Guiné formações rochosas. A cota média a nível do mar situa-se abaixo dos 40 metros e só nas “Colinas do Boé” vai até aos 300 metros de altura. No litoral, o mar invade os rios alargando-os. A sua localização entre o Equador e o Trópico de Câncer, traz consigo um calor tórrido que, varrido por ventos alísios e saharianos quentes, secam os solos e a vegetação, formam poeiras altamente perniciosas para as vias respiratórias. Se juntarmos a isto ainda as monções e as suas trovoadas, os tornados rápidos acompanhados de chuvas torrenciais e uma guerra extraordinariamente difícil, o imaginar embarcar para aquele país e guerra era por si só um pesadelo.

Na guerra do ultramar, a Guiné era a que apresentava maior percentagem de mortos em combate representando essa percentagem o dobro da de Moçambique e o triplo da de Angola. Por todas estas razões, esta fama divulgou-se por toda a população em idade de cumprir o serviço militar, tornando-se um destino quase fatídico para qualquer potencial combatente.

Então, foi-nos explicado que, habitualmente, o último pelotão fornecia pára-quedistas para a segurança do quartel, para a gestão do refeitório, do bar e outros serviços de apoio e ainda alguns Paras, eram destacados para prestar serviço na Polícia Aérea.

Eu sabia, pelo jornal da caserna, que todo o militar, fosse de que arma fosse, tinha aversão à polícia militar. Como não tínhamos polícia própria, era um fartote de mimos sempre que havia reencontros entre polícias e policiados. À porta de qualquer bar ou estação de caminho-de-ferro, nos momentos de embarque das tropas para o Ultramar ou fosse qual fosse a situação, havia sempre um bom pretexto para chatear. “Só me faltava agora empacotarem-me nas guerras das polícias” – pensei eu.

Este grupo, de cerca de vinte Pára-quedistas, no qual me incluía, só teve direito a gozar um fim-de-semana após a conclusão do curso de combate que não era mais do que o último estádio de preparação para a guerra.

 

Envergando o camuflado

 

A mãe que, vendo o filho partir, via-se, a ela própria, a esvair-se em sangue

 

Como se dos Óscares de Hollywood se tratasse, com as luzes da ribalta, cerca de duas centenas de nomeados foram projectados para a guerra. Foram todos, de forma prematura, arrancados dos ventres das suas cidades vilas ou aldeias, das universidades e/ou do trabalho, e lançados para a guerra do ultramar.

Minha mãe andava contente por eu me ter safo da guerra, a namorada já pensava em casório e os amigos davam-me palmadas de júbilo nas costas ainda massacradas por longos meses de instrução. Eu, de uma forma estúpida, já quase embarcava nessa onda quando algo vindo do âmago me sussurrou:

- “Não vás por aí Zé… tu estás é condenado, como os demais, a regar com o teu suor, as tuas lágrimas e o teu sangue o capim das savanas”. Era o meu vizinho Magalhães, da Rua das Correias, que tinha sido dos primeiros Pára-quedistas Vianenses. Combateu na Índia, por altura da invasão das tropas de Nerú, bem me dizia: - “Zé, um Pára foi feito para combater, nunca te esqueças disto. Não sei se regressamos… mas vamos”.

Com aquelas palavras do “velho” Boina Verde, que a sociedade vianense considerava um pé rapado e renegava por ser uma pessoa humilde proveniente de famílias pobres, mas honradas, desta cidade, aprendi bastante. Descobri, muito novo, que a pátria não reconhecia os seus melhores filhos, aqueles que davam a sua juventude, o seu sangue e a sua própria vida para defender… nunca soube muito bem porquê!

 

Amigos para sempre

 

O povo anónimo nunca os condenou por fugirem à guerra

 

A miudagem de pé descalço admirava o senhor Magalhães, o velho pára-quedista. Ele era um símbolo para nós, pois tratava-se de um verdadeiro combatente. Palavras sábias as deste homem marcado pela vida e pelo ostracismo da pátria. Sempre que alguém me perguntava, se me tinha safo da guerra eu só respondia:

- “Não sei para onde vou… mas vou”.

A televisão mostrava um povo a preto-e-branco que ostentavam lenços brancos, de pureza imaculada, na Cova da Iria. O aceno de despedida à Virgem era idêntico ao da despedida do filho num cais, na hora do embarque. Deixavam para trás uma recém-casada e uma promessa de fidelidade extrema, para o que desse e viesse. O pranto e a alma destroçada da mãe que, vendo o filho partir, via-se, a ela própria, a esvair-se em sangue como aquele que tantas vezes encharcou a picada.

Adeus, até ao meu regresso”. E muitos regressaram vivos e inteiros. Outros regressaram vivos, mas não inteiros, e houve ainda os que não regressaram. E há ainda aqueles que, tendo regressado, deixaram lá ficar a alma.

Quando regressámos daqueles parcos dias, a que pomposamente chamaram férias, mas que também podiam ser um prelúdio da morte anunciada para as terras quentes de África, faltaram uns quantos. Estes tinham decidido dar o salto para a França em busca da vida e não da morte. Foi-lhes colado o rótulo de desertores, pelo RDM, pelo regime e seus aficionados, mas o povo anónimo, esse que labutava nos campos e nas fábricas, nunca os condenou por fugirem à guerra.

  

(Continua no próximo número)

 

 

 

José da Silva Marques
Meadela

Viana do Castelo

Blog zeminhoto

 

 

RETALHOS VII

Corpos amputados

 

RETALHOS VIII

O frio da Realidade

 

RETALHOS IX

Os Pumas terminam agora a sua missão

 

RETALHOS X

“Que o diabo leve a guerra!”

 

RETALHOS XI

“Que o diabo leve a guerra!” (2)

 

RETALHOS XII

TUDO O RESTO FICAVA PARA TRÁS

 

 

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