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Retalhos XII

 

TUDO O RESTO FICAVA PARA TRÁS

 

Foram quase nove meses de instrução militar exigindo-nos total disponibilidade física e psíquica, onde o sacrifício por vezes se tornava sobre-humano. Que podia fazer? Só tinha duas saídas possíveis: desistir ou esforçar-me para tentar ultrapassar as minhas dificuldades.

 

Desistir, significava virar as costas às dificuldades pessoais e humanas que se me deparavam e impediam de progredir e isso, não queria, não só por vergonha de aparecer na minha terrinha como um derrotado, mas também por solidariedade para com os meus companheiros, com quem aprendi o verdadeiro significado da palavra Solidariedade.

Esforçar-me requeria passar por cima de mim mesmo, das minhas dificuldades internas, custasse o que custasse. A partir do momento em que eu senti ser importante superar o desafio, exigi de mim próprio o cumprimento da "missão". Impunha-se activar todas as minhas forças, mesmo aquelas vindas de não sei onde. Foi assim que descobri possuir capacidades até então nunca reveladas.

Senti, muitas vezes, necessidade de ajuda. Faltavam-me recursos e sozinho não conseguia trilhar o meu próprio caminho. Mas também nesses momentos me consciencializei da necessidade de ultrapassar todos os obstáculos. Estava determinado a conquistar a recompensa de me poder sentir um real vencedor.

Ao longo destes nove meses de parto, em muitos momentos senti que precisava de me "ouvir" e escutar-me. Não é uma tarefa fácil quando estamos em plena guerra interna, desesperados com questões e exigências quase sobre-humanas.

 

Senti, muitas vezes, necessidade de ajuda

 

Enfim… como dizia o Cunha, quando se viu ao peito com o crachá de caçador pára-quedista: - “P… que pariu pá… somos uma máquina! Não há c… que nos f...!”.

- “Tirando o Sargento Vermelhinho, não é Braga?” - brincava o Risotas, com ar de gozo naquele seu jeito característico.

- “ Não me falem nesse cabrão. Ainda bem que foi bater com os cornos para a Guiné!”.

 Todos sabíamos que aquilo era dito só da boca para fora, pois o Cunha era um camarada íntegro e solidário. Era o seu sangue a ferver naquele corpo pequeno mas raçudo, com tez aciganada e com uma força física incrível que lhe valeu o segundo lugar nas provas físicas logo atrás do Covilhã, que era só por si uma força da natureza.

No rosto de todos vislumbrava-se a alegria. O brevete de Pára-quedista e o crachá de Caçador, preso no lado direito do peito inchado pelo orgulho de termos conseguido superar todas as adversidades, fora uma dura conquista. Havia uma vaidade incontida por nos sentirmos, finalmente, pára-quedistas de corpo inteiro.

Por fim, uns dias de férias. Sentimo-los como se fossem para uma despedida dos amigos, das namoradas, dos pais, e de toda uma vida que ficava para trás. Só não se deixavam os filhos para trás porque não aceitavam nas Tropas Pára-quedistas mancebos casados. Era como tirar um passaporte para a guerra, talvez para a morte, com pena suspensa, mas nunca para a vida. A vida, essa ficava nas vilas e aldeias onde cada um deixava um pouco de si.

Éramos combatentes preparados física e psicologicamente para enfrentar a guerra, de olhos nos olhos, sabendo que pouco nos restaria no infinito e de nada valia temer o inferno. Isso diferenciava-nos dos demais militares. Os casados não eram aceites, exceptuando os militares de carreira, já bastava deixarmos os pais num sofrimento ao partir para a guerra.

 

A vida, essa ficava nas vilas e aldeias onde cada um deixava um pouco de si

 

A Nação mandava os seus melhores filhos para África, como antes os tinha mandado para a Índia, com resultados nefastos quer para o país, quer para quem por lá ficou ou amargurou pelo oriente. Salazar, o ditador, comunicou à nação que só esperava, como resultado do combate, na Índia, "militares vitoriosos ou mortos".

Em 1961, quando rebentou a guerra de libertação de Angola, ficou célebre a frase proferida, do alto do seu cadeirão que o haveria de levar à morte, ordenando de forma peremptória, com o dedo espetado e de cabeça perdida: - “Para Angola rapidamente e em força”. Era assim o tratamento dado aos melhores filhos que partiam para a guerra, como se fossem soldadinhos de chumbo e alinhadinhos como convinha ao velho regime. Regressavam mortos ou vivos, estropiados ou traumatizados, mutilados ou tolhidos. O resto ficou nas picadas. A Pátria não os reconhecia como filhos que deram o melhor da sua juventude, que foram arrancados dos seus empregos e das universidades comprometendo-lhes o futuro.

Nos Pára-quedistas a mobilização para a guerra começa muito antes do embarque, precisamente logo após o fim da instrução da especialidade militar, o curso de combate.

A partir dos últimos dias de Dezembro de 1970, já me considerava um mobilizado e vivi essa angústia. Estávamos na época natalícia e o pai natal reservava-nos uma prenda especial. Nos primeiros dias de Janeiro, de 1971, fomos informados solenemente, e em parada, que toda a companhia estava mobilizada para a Guiné. Essa notícia criou algum desconforto entre todos, não por irmos para a guerra, pois sabíamos isso desde o primeiro dia, mas por irmos bater com os costados na Guiné. A má nova foi-nos dada pelo Coronel Robalo, comandante do Regimento de Caçadores Pára-quedistas, ladeado pelo capitão Valente dos Santos, que nos tinha ministrado o curso de pára-quedismo. Este último era um militar extraordinariamente exigente, mas com um pouco de loucura à mistura. Era de estatura pequena mas entroncado. Falava-se que tinha menos um pulmão, perdido algures em África, mas não se notava nada, muito pelo contrário, pois a sua vontade, energia e raça era a de um autêntico combatente pára-quedista fazendo dele um herói vivo e respeitado por todos. Do outro lado, ladeava o comandante o Capitão Gomes, que nos tinha acabado de aplicar o Curso de Combate.

 

Nos Pára-quedistas a mobilização para a guerra começa muito antes do embarque

 

Com a Companhia perfilada, começaram a ser distribuídos os “passaportes” de dez dias – era esse o termo que designava as autorizações de saída de fim-de-semana ou férias. Dez dias para ir a casa fazer a despedida aos familiares, aos amigos, às coisas que os acompanharam em toda a sua juventude e agora, abruptamente, eram interrompidas. Poder fazer umas asneiras por conta, arranjar umas madrinhas de guerra para se corresponderem. Ter acesso ao último prazer carnal, tal era a fome de se agarrar à vida, tentando não engravidar as namoradas. Ao quartel voltar-se-ia depois para daí iniciar a verdadeira viagem.

Ali mesmo detrás de mim sussurrava o Patacão: - “Compadre! Chegando à minha terrinha, com a fome que levo desta vida de cabrão, vou arrebentar as beiças à minha Ceição”.

- “Não sejas chaparro” – proferiu o Risotas - “Quem sabe se ela não virá a ser a tua esposa ainda”.

- “E depois? Quem me garante que regresso da Guiné?” – defendeu-se o bom gigante.

Penso eu com os meus botões: - “Este gajo é mesmo parvo, mas não deixa de ter a sua razão”.

Distribuídos os passaportes, reparo que não chegam para todos. Como o meu pelotão era o sétimo e último, eu não recebi o tal papelucho.

- “F…, queres ver que acabaram os passaportes?” - diz o Cunha com cara de poucos amigos.

Depois de uns minutos, os sargentos, que distribuíram os passaportes, voltaram a colocar-se na cabeça dos respectivos pelotões. Ouve-se novamente uma voz:

- “Todos os soldados pára-quedistas que acabaram de receber os seus passaportes aproveitem esses dias para descansarem bastante, e despedirem-se das famílias e amigos. Para todos esses e só esses: DESTRO….. ÇAR”.

                - “ Aos restantes…” – chamou o coronel Durão – “…deixo-vos com o nosso capitão Gomes, que vos dará uma explicação em detalhe”.

 

(Continua no próximo número)

 

 

 

José da Silva Marques
Meadela

Viana do Castelo

Blog zeminhoto

 

 

RETALHOS VII

Corpos amputados

 

RETALHOS VIII

O frio da Realidade

 

RETALHOS IX

Os Pumas terminam agora a sua missão

 

RETALHOS X

“Que o diabo leve a guerra!”

 

RETALHOS XI

“Que o diabo leve a guerra!” (2)

 

 

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