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Retalhos XI

 

“Que o diabo leve a guerra!” (2)

 

Fomos progredindo, sempre a corta-mato, evitando os trilhos e caminhos, sempre de olhar atento a cada passo calcorreado e evitando os barulhos que podiam alertar a nossa presença, em terreno hostil. Ainda as palavras da anciã nos martelavam no ouvido, quando passou mesmo ali, pertinho, um coelho bravo, em autêntica correria alucinada, como sentindo que estavam a invadir o seu território, ou algum predador o ameaçava.

“Um coelho!” – exclamou em surdina o Covilhã, habituado a conviver com a serra e com as suas ovelhas, lá para o lado da Serra da Estrela.

 

Fomos progredindo, sempre a corta-mato, evitando os trilhos e caminhos

 

Se não sentisse o olhar frio, recriminatório e penetrante, do Cabo Veríssimo, por quem tínhamos todos imenso respeito pela forma como nos tratava e acompanhava desde o primeiro dia de instrução militar, o nosso pastor soldado tinha-se atirado ao pobre coelho que fugia espavorido.

De vez em quando, éramos invadidos pela perfumada carqueja e um cheiro oculto e penetrante a rosmaninho. Neste local, esquecido pelo tempo, existem, embrenhados na serra, numerosos vestígios da vida comunitária rural. Antigas pontes, velhas azenhas e levadas, açudes e fontes de mergulho, tudo fazendo parte deste património riquíssimo que coabita com os coelhos bravos, raposas, javalis e saca-rabos. E ainda perdizes, tordos, gaios, milhafres e muitas outras aves completam o quadro de vida animal desta zona montanhosa de Vila de Rei, onde estávamos em treino militar. Esta paisagem fresca, quase nos distraía da missão e dei comigo a pensar: – “Vê-se logo que é tudo a fingir, na Guiné não há disto. A vida lá deve ser terrível, segundo o que dizem os que de lá vêm”.

 

É sempre aterrador o rebentamento de uma mina, muito mais tratando-se de uma anti-pessoal

 

Depois de vários obstáculos naturais serem transpostos, quase sempre com a ajuda de cordas, lá fomos batendo toda aquela zona. De repente um rebentamento e… tudo desapareceu pelo chão dentro, num instante.

“Foi o rebentamento de uma mina anti-pessoal” – disse alguém, como se não soubéssemos que as minas não eram para nós, mas para o treino ser o mais próximo da realidade.

É sempre aterrador o rebentamento de uma mina, muito mais tratando-se de uma anti-pessoal armas terríveis destinadas a mutilar ou ferir, por vezes matar, as suas vítimas. Para os militares, a finalidade da mina é ferir, mais do que matar. Matando, apenas retira uma pessoa do campo de batalha, ao passo que, se ferir, vários militares estarão envolvidos na evacuação e tratamento das vítimas. Serve também para desmoralizar os soldados que vêem os seus camaradas a sofrer e a serem amputados. Muitos deles nunca mais serão os mesmos homens. Após alguns momentos de silêncio, lá seguimos em frente, com cuidados redobrados. Apesar de percebermos que o rebentamento não fora ali perto, caminhávamos atentos ao que pudesse surgir.

Os dias foram passando. Fizeram-se alguns aprisionamentos de militares “inimigos”. Estes quando se sentiam acossados escondiam-se em grutas ou casas abandonadas. A tropa pára-quedista batia toda a zona e possíveis locais de esconderijo e rapidamente os desalojava e prendia.

 

“Sabe o que é isto? É uma carraça, que já estava mais dentro do que fora das suas costas”

 

Ao fim de seis dias, já exaustos e sem mantimentos, chegámos ao topo mais alto da montanha. Aqui, era o ponto de reunião de toda a tropa terminando o treino no terreno. Descomprimimos toda a carga stressante. O frio era intenso, mas ao calor das fogueiras, que nos permitiram acender, relatámos as peripécias que surgiram ao longo desta jornada.

Virei-me para o Risotas, enquanto despia o camuflado e virava as costas para a fogueira, e disse: – “Martins, vê o que tenho aqui nas costas! Deve ser algum corte já a cicatrizar. Sinto comichão, mas também me dói um pouco”.

“Fiúza, chama aí o enfermeiro, para vir tirar este bichinho” – pediu o Risotas.

“Risotas, não brinques com coisas sérias, vê lá o que tenho na merda das costas que me está a picar!” – dizia eu já com pouca vontade de brincar.

Chegou o enfermeiro que depois de observar o ferimento, virou-se para o Fiúza dizendo: – “Ó nosso pára, vá buscar a minha mala que está ali junto à minha mochila”.

“Mau, mau…” – pensei logo com os meus botões – “…o que é que estes tipos estão a arranjar?”. Ao fim de alguns segundos o enfermeiro mostrou-me, na ponta da pinça, algo ensanguentado.

“Sabe o que é isto? É uma carraça, que já estava mais dentro do que fora das suas costas. Vamos agora desinfectar isso e fazer um penso”.

“F…, por isso me doía!” – exclamei eu com cara de totó. Sempre que lá ia com as unhas, parecia-me uma casquinha de uma ferida e, afinal, era essa puta parasita”.

 

 

Durante a recruta

 

 

 

José da Silva Marques
Meadela

Viana do Castelo

Blog zeminhoto

 

 

RETALHOS VII

Corpos amputados

 

RETALHOS VIII

O frio da Realidade

 

RETALHOS IX

Os Pumas terminam agora a sua missão

 

RETALHOS X

“Que o diabo leve a guerra!”

 

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