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Retalhos X
“Que o
diabo leve a guerra!” (2)
Fomos
progredindo, sempre a corta-mato, evitando os trilhos e
caminhos, sempre de olhar atento a cada passo calcorreado e
evitando os barulhos que podiam alertar a nossa presença, em
terreno hostil. Ainda as palavras da anciã nos martelavam no
ouvido, quando passou mesmo ali, pertinho, um coelho bravo, em
autêntica correria alucinada, como sentindo que estavam a
invadir o seu território, ou algum predador o ameaçava.
– “Um
coelho!” – exclamou em surdina o Covilhã, habituado a
conviver com a serra e com as suas ovelhas, lá para o lado da
Serra da Estrela.
Se não sentisse
o olhar frio, recriminatório e penetrante, do Cabo Veríssimo,
por quem tínhamos todos imenso respeito pela forma como nos
tratava e acompanhava desde o primeiro dia de instrução militar,
o nosso pastor soldado tinha-se atirado ao pobre coelho que
fugia espavorido.
Fomos progredindo, sempre a corta-mato, evitando os trilhos e
caminhos
De vez em
quando, éramos invadidos pela perfumada carqueja e um cheiro
oculto e penetrante a rosmaninho. Neste local, esquecido pelo
tempo, existem, embrenhados na serra, numerosos vestígios da
vida comunitária rural. Antigas pontes, velhas azenhas e
levadas, açudes e fontes de mergulho, tudo fazendo parte deste
património riquíssimo que coabita com os coelhos bravos,
raposas, javalis e saca-rabos. E ainda perdizes, tordos, gaios,
milhafres e muitas outras aves completam o quadro de vida animal
desta zona montanhosa de Vila de Rei, onde estávamos em treino
militar. Esta paisagem fresca, quase nos distraía da missão e
dei comigo a pensar: – “Vê-se logo que é tudo a fingir, na
Guiné não há disto. A vida lá deve ser terrível, segundo o que
dizem os que de lá vêm”.
Depois de vários
obstáculos naturais serem transpostos, quase sempre com a ajuda
de cordas, lá fomos batendo toda aquela zona. De repente um
rebentamento e… tudo desapareceu pelo chão dentro, num instante.
– “Foi o
rebentamento de uma mina anti-pessoal” – disse alguém, como
se não soubéssemos que as minas não eram para nós, mas para o
treino ser o mais próximo da realidade.

É sempre aterrador o rebentamento de uma mina, muito mais
tratando-se de uma anti-pessoal
É sempre
aterrador o rebentamento de uma mina, muito mais tratando-se de
uma anti-pessoal armas terríveis destinadas a mutilar ou ferir,
por vezes matar, as suas vítimas. Para os militares, a
finalidade da mina é ferir, mais do que matar. Matando, apenas
retira uma pessoa do campo de batalha, ao passo que, se ferir,
vários militares estarão envolvidos na evacuação e tratamento
das vítimas. Serve também para desmoralizar os soldados que vêem
os seus camaradas a sofrer e a serem amputados. Muitos deles
nunca mais serão os mesmos homens. Após alguns momentos de
silêncio, lá seguimos em frente, com cuidados redobrados. Apesar
de percebermos que o rebentamento não fora ali perto,
caminhávamos atentos ao que pudesse surgir.
Os dias foram
passando. Fizeram-se alguns aprisionamentos de militares
“inimigos”. Estes quando se sentiam acossados escondiam-se em
grutas ou casas abandonadas. A tropa pára-quedista batia toda a
zona e possíveis locais de esconderijo e rapidamente os
desalojava e prendia.
Ao fim de seis
dias, já exaustos e sem mantimentos, chegámos ao topo mais alto
da montanha. Aqui, era o ponto de reunião de toda a tropa
terminando o treino no terreno. Descomprimimos toda a carga
stressante. O frio era intenso, mas ao calor das fogueiras,
que nos permitiram acender, relatámos as peripécias que surgiram
ao longo desta jornada.

“Sabe o que é isto? É uma carraça, que já estava mais dentro do
que fora das suas costas”
Virei-me para o
Risotas, enquanto despia o camuflado e virava as costas para a
fogueira, e disse: – “Martins, vê o que tenho aqui nas
costas! Deve ser algum corte já a cicatrizar. Sinto comichão,
mas também me dói um pouco”.
– “Fiúza,
chama aí o enfermeiro, para vir tirar este bichinho” – pediu
o Risotas.
– “Risotas,
não brinques com coisas sérias, vê lá o que tenho na merda das
costas que me está a picar!” – dizia eu já com pouca vontade
de brincar.
Chegou o
enfermeiro que depois de observar o ferimento, virou-se para o
Fiúza dizendo: – “Ó nosso pára, vá buscar a minha mala que
está ali junto à minha mochila”.
– “Mau, mau…”
– pensei logo com os meus botões – “…o que é que estes tipos
estão a arranjar?”. Ao fim de alguns segundos o enfermeiro
mostrou-me, na ponta da pinça, algo ensanguentado.
– “Sabe o que
é isto? É uma carraça, que já estava mais dentro do que fora das
suas costas. Vamos agora desinfectar isso e fazer um penso”.
– “F…, por isso me doía!” – exclamei eu com cara de
totó. Sempre que lá ia com as unhas, parecia-me uma casquinha de
uma ferida e, afinal, era essa puta parasita”.
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José da
Silva Marques
Meadela
Viana do Castelo |
Blog zeminhoto

RETALHOS VII
Corpos amputados
RETALHOS VIII
O frio da Realidade
RETALHOS IX
Os Pumas terminam
agora a sua missão
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