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Retalhos VIII
O frio da Realidade
A
fase final da preparação de um Combatente Pára-quedista, é
dedicada a simular, em condições adversas e semelhantes às da
guerra no ultramar, operações militares que ocorrem nas três
frentes de batalha em África. Visa o último teste de
aperfeiçoamento, de forma a pôr em prática todos os
conhecimentos adquiridos ao longo destes sete meses.
O
dia começou frio, como a noite não dormida, tão habitual na
viagem de fim-de-semana. Lá estavam as Berliet’s, – as viaturas,
de origem francesa e montadas no Tramagal, mais usadas no
transporte de tropas – alinhadas ao longo do arruamento que
aponta para a porta de armas, à nossa espera para nos embrulhar
no seu aço frio.
Sentia enlatado dentro daquele camuflado, modelo
PQ qualquer coisa, com uma dúzia de bolsos de coisa nenhuma
A
ração de combate para quatro dias estava bem aconchegada na
mochila. Tudo era enlatado: feijão, sardinhas, bolachas da
manutenção militar, ladrilhos de marmelada, chocolate em
bisnagas como se fosse pastas de dentes, água enlatada no
cantil. Até eu me sentia também enlatado dentro daquele
camuflado, modelo PQ qualquer coisa, com uma dúzia de bolsos de
coisa nenhuma. Tudo ia na minha casa ambulante – a mochila – e
ainda a manta e a capa para dormir, bem enrolada em forma de “U”
invertido. A isso juntava a G3 carregada com munições de
madeira.
Surgiu o Capitão Gomes, já completamente ataviado com ar de
guerrilheiro. Abandonou o ar de bonacheirão, adoptando agora
aquela expressão dura, com o olhar penetrante e atento, capaz de
penetrar no íntimo de cada soldado, mercê da sua larguíssima
experiência adquirida na guerra. E, um a um, lá gritavam os
comandantes de pelotão até chegar ao meu grupo: “ - Dá
licença meu capitão? Sétimo pelotão pronto!” - gritou com
voz firme o Sargento. De forma ordenada, fomos subindo para
aquelas máquinas de aço frio e pouco cómodas, onde se acomodaram
trinta futuros combatentes.
Ainda o dia não tinha despontado e já se notavam, no horizonte,
nuvens escuras de chuva que, aliadas à penumbra, tornavam o
ambiente ainda mais gélido. Saímos à porta de armas do
Regimento, com a sentinela bem perfilada. O comboio militar
virou à direita ficando, à esquerda, a Base Aérea nº 3, onde
descansavam os nossos amigos Noratlas, e o ainda velhinho Ju-52,
velhos conhecidos, dos saltos no Arripiado.
A coluna militar dava-me uma visão fantasmagórica
que eu me habituei a ver
Havia sete Berliet’s para outros tantos pelotões. O comandante
do curso era transportado num Unimog, viatura que se revelava um
veículo militar muito instável e de alta perigosidade, pela
facilidade com que se despistava e capotava. Originava, nas
guerras de África, um número elevadíssimo de acidentes,
provocando mortos e feridos graves. A coluna militar, vista de
trás, dava-me uma visão fantasmagórica que eu me habituei a ver
no transporte de tropas, em filmes de guerra. Rapidamente a
minha mente voava para tudo o que me tinha trazido até este
momento. Eu só queria ser pára-quedista e saltar de avião. Nunca
me passou pela cabeça as aventuras em que me vim meter. Por
força das circunstâncias e pelos laços de amizade que se foram
alicerçando, com todos os camaradas e com alguns instrutores,
que apesar de tudo nos tratavam como pessoas e nos ajudavam a
formar homens, para além de guerrilheiros, dei comigo a gostar
desta família.
Sentíamo-nos como uns cadastrados ligados às
grilhetas uns dos outros
Passei a ponte de Constança sobre o rio Zêzere. Este depois de
serpentear ao longo de mais de 200 km conflui uns metros abaixo
com o rio Tejo. Já na outra margem e com o dia a alvorecer, a
minha cabeça meio abandonada, entre as orelhas, começou a
fervilhar e os meus olhos a deixarem de ver para o lado de fora
das coisas. Fui reparando nos semblantes dos meus companheiros
de armas e tentando adivinhar o que lhes ia na alma.
Sentíamo-nos como uns cadastrados ligados às grilhetas uns dos
outros. Ninguém falava e não era só o frio daquele Dezembro
gélido de 1970, mas também o frio da realidade que nos tolhia.
De
entre todos os que procuravam livrar-se do frio cortante, que
entrava por nós dentro, sobressaía o bom gigante do “Patacão”,
um alentejano no seu estado puro, lento e calmo em tudo o que
fazia. E até no pensar era vagaroso. Nem as pernas enormes
assentes nos quarenta e seis das suas botas, o faziam andar mais
depressa. Tinha a tez queimada pelo sol das planícies
alentejanas. De perto, só se lhe vislumbrava um nico de cara e a
luz dos olhos.
José da
Silva Marques
Meadela
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José da
Silva Marques
Meadela
Viana do Castelo |
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RETALHOS VII
Corpos amputados
RETALHOS VIII
O frio da Realidade
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