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Operação resgate (2)

 

 

Por questões de segurança é sempre por norma no local e em poucos minutos que somos informados dos objectivos com mais pormenor…

 

Mas desta vez não havia muito a dizer, ou não nos quiserem dizer.

Só sabia que íamos ser largados no topo de algum morro, na zona onde presumivelmente os camaradas do exército estavam ou estiveram a operar. A partir daí tudo poderia acontecer, inclusive, fogo amigo de qualquer das partes. Não era nada para que não estivéssemos treinados, mas em situação real, tudo se transforma e mais que nunca tínhamos que apelar à plena concentração e sempre em alerta máxima.

 

Partir daí tudo poderia acontecer, inclusive, fogo amigo de qualquer das partes

 

Via-se ao longe o heli-canhão já a sobrevoar, um morro não muito elevado, o que aumentava os níveis de perigo de sermos surpreendidos ou mesmo fustigados. Mas… pilotos experientes apesar de muitos jovens, era essa juventude irreverente que os fazia ir à luta uma e outra vez, sempre que necessário, nunca se furtando e exporem-se ao perigo sempre iminente. Sabiam o que faziam e as largadas eram sempre feitas em perfeita segurança.

Enquanto o heli-canhão sobrevoava as redondezas zelando pela nossa segurança, o Puma baixou. Fomos largados, e em poucos segundos, já estávamos a tomar contacto com o capim não muito alto, nem espesso. Sem nada combinado, era o instinto de defesa e o intenso treino que nos levou um a um corrermos de imediato e formando um circulo suficientemente afastados uns do outros mas também sem nunca perdermos o contacto visual entre nós.

Passados poucos minutos, já não se ouvia o ruído característico dos helis, já estavam de regresso à base. Durante uns minutos ali estivemos de sentidos bem alertas, tentando vislumbrar algo de anormal enquanto no centro se reuniam o Tenente Gonçalves e Sargento Maia Nunes, com um mapa espalhado no capim. Falavam em voz muito baixa apontando e fazendo alguns gestos com as mãos como a quererem falar o menos possível, mas era sabido que íamos percorrer o mesmo trajecto que estava destinado aos “desaparecidos”.

 

Íamos percorrer o mesmo trajecto que estava destinado aos “desaparecidos”

 

E eu ali, apesar de quase com ano e meio de vida militar e bem treinado, era um maçarico no seu primeiro contacto com a guerra de guerrilha que polvilhava com sangue, suor e minas estas terras de África onde a presença dos portugueses estava a ser combatida a ferro e fogo.

Passado uns momentos é chamado ao centro o 1º Cabo Pára-Quedista Caria, onde lhe és explicado o rumo e o objectivo, pois seria ele a encabeçar a coluna que por morro abaixo se ia embrenhar na mata não muito densa, mas mesmo assim sempre perigosa e traiçoeira.

Com o Caria na testa da coluna, aqui ninguém usa galões ou divisas, e somos todos iguais, sendo impossível alguém do exterior distinguir quem comanda quem; aqui mais que nunca, somos todos iguais, somos os Irmãos de Marte, irmãos de guerra. Mas apesar disso a cadeia de comando funcionava na perfeição. Uma ordem do Tenente, ou do camarada mais velho ainda que soldado, tinha o mesmo valor e era aceita de imediato sem pestanejar.

 

Uma ordem do Tenente, ou do camarada mais velho ainda que soldado, tinha o mesmo valor e era aceita de imediato sem pestanejar

 

Logo de seguida seguia o forcado Vasques (1), o homem da metralhadora. Com barba até aos olhos, era o único a quem era permitido usar patilhas tão compridas. Tinha uma queixada bem marcada que exprimia toda a sua voracidade animal e cobiça. Com uns olhos bem negros que se transformavam, em situações limite, frios e sem sentimentos, sempre semi-cerrados, à espreita e com uma relação zangada com a parte inferior do rosto a indicar astúcia, avidez e egoísmo.

Era o inverso do primeiro Cabo Caria, com a cabeça enterrada nos ombros e igualmente barbudo e de tês bem morena, mas com uns olhos vivos e amigos com uma relação íntima com o poder do pensamento e da bondade, e aliando-se sempre com um sorriso involuntário nos lábios.

 

(Continua na próxima edição)

*Viana do Castelo

 

José da Silva Marques
Meadela

Viana do Castelo

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TUDO O RESTO FICAVA PARA TRÁS

 

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