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João Padrão*
A
poesia seria para muitos autores um discurso paroxístico,
excessivo, que procura isolar e magnificar certos traços da
língua; é uma espécie de apoteose em vários planos da língua: o
fónico-fonológico, o semântico e o gramatical; eu incluiria o
léxico e o texto em cada contexto próprio à mensagem, para ela
ser produzida e produtiva, através do explodir da língua em
metáforas e metamorfoses várias; é como a tipografia de
caracteres moventes; uma colectânea de palavras, que se disparam
a golpe de inspiração; afinal, já o tenho dito, é uma
aproximação ao Ser, um tencionar conhecer a realidade do Ser e
do ôntico. A poesia não é, pois, a língua em especial
funcionamento, é mais outra coisa: o intento de, através do
pensar, do sentir, da consciência, da inspiração, que junta isso
e muito mais, explicar alguma coisa, de maior ou menor
transcendência; é também algo projectual ou projectivo, do
ocupar-se o Ser para entender o ôntico e o próprio Ser.
“As palavras, esse vício ocidental, estão gastas, envelhecidas,
envilecidas. Fatigam. Exasperam”
O
discurso poético está absoluto, está no cerne, no âmago do Ser,
na sua unicidade e temporalidade; na sua diescência ou abertura
ontológica. Dito de chofre, pensando em Pessoa, a poesia está
nas malhas que o império da inspiração tece. Ou citando a
“contrariu sensu” Eugénio de Andrade: “As palavras, esse
vício ocidental, estão gastas, envelhecidas, envilecidas.
Fatigam. Exasperam”.
Pode
ser numa visão fechada do ocidental, mas não no sentido aberto
do Ocidental, como diescência ou abertura ontológica do Ser e
não só. E mais quando Portugal descobre dois terços da
humanidade, e reconhece o Outro, a Alteridade, para conviver não
como um Robin Crusoé qualquer.
Algum autor (Pimenta, “O Silêncio dos Poetas”, 1978) afirma que
a poesia é resultante de um uso particular da língua,
despragmatizado, dado em que está em oposição ao pragmatismo de
outras funções naturais da língua (sic); eu discrepo do que pode
ser ou não ser a função natural da língua, no que se refere à
arte poética e/ou literária, em que tudo está permitido. Sigo aí
a Mallarmé, e a defesa dos jornais até para fazer poesia, ou de
ready-mades, instalações, etc. Talvez porque o vivi no meu
exílio lusófono. E é que felizmente a poesia abrange tudo, até
arte(s) outras(s), como se vem evidenciando nos museus, e quando
o artista necessita recorrer à poesia, e não apenas para dar
título a um quadro, escultura, etc., senão integrar a poesia nas
produções artísticas, como se não tivessem valor per si,
e procissassem da poesia avidamente.
A obra poética como obra de arte seria a antecipação do
conhecimento do Ser e do ôntico
A
leitura dos antigos é semântica e histórica, e representa o
nível álgido de “Ansiedade da influência”, de que fala Harold
Bloom. A arte, e portanto, a Poesia, procuram ser aproximações à
inteligência do Ser, chaves para perceber o Ser, atingir a
essência do Ser. A poesia é mais global, abrange tudo do Ser,
enquanto outras artes ficam a caminho, por razões de técnicas e
procedimentos, estética, ética (individual e social), moral,
etc. A Poesia leva ao conhecimento do Ser, porque cria
aproximação do conhecimento, em explodir do pensar, sentir, ter
consciência de Ser.
A
obra poética, como obra de arte, seria a antecipação do
conhecimento do Ser e do ôntico. Entra na abertura ontológica,
na deiscência do Ser, que mesmo uma simples metáfora pode
apanhar no seu significado essencial; eis a vantagem da Poesia
sobre as Artes Outras. É a minha experiência com a pintura,
escultura, ready-made, instalações, etc.
Jakobson fala da função estética da língua, mas não é
suficiente, porque há uma função poética mais alargada, que
ultrapassa o simplesmente estético, para entrar no domínio do
ontológico. Destarte, a Poesia seria uma antecipação da
interpretação ontológica do Ser. Do Ser como Existência, como
algo dialéctico a ser.
A Poesia seria uma antecipação da interpretação ontológica do Ser
A
obra literária poetológica subordina-se, além do mais, a um
princípio estético e a um princípio poético, quebrando todos os
códigos. O que vale é a mensagem. E a mensagem é revelação
existencial, através das palavras poéticas, diferentes das
normais. Trata-se de projectar integralmente a mensagem, com
carácter projectual ou projectivo, como aproximação ao
conhecimento do Ser. Do Ser projectual ou projectivo.
Dizia Adorno: “Depois de Auschwitz não há poesia possível”;
mas apesar do holocausto, houve e há Poesia, porque é algo
inerente ao Ser Humano. Sem Poesia não se pode ser. Eu reclamei
a Poesia até para a minha nação Ser!
Porque a pedra não mata
porque a árvore não mata
por
isso eu sou pacifista,
porque um pacifista não mata;
por
isso sou humano,
porque um humano
um
verdadeiro humano
não
mata!
Como
a pedra, a árvore,
o
pacifista, que não mata
é
verdadeiro humano!
Pseudónimo de José Luís Fontenla, Valença
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