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Fernando Melin*

 

 

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Para "maiores” e "menores"

 

Na programação das salas públicas mantêm-se os escalões para faixas etárias. Só entra quem tem idade compatível. Às famílias, no lar, porém, entrega-se a exibição ao livre arbítrio de quem está.

Cinema e televisão (e cinema pela televisão) tornaram-se os professores polivalentes da escola da vida. É aí que a "moda" tem os seus privilegiados expositores. A "moda" que ensina a comer, a vestir, a pensar, a conviver. E que ensina todos por igual: crianças, jovens e adultos.

 

Uma recente “doutrina” sociológica (?!), no entanto, “prega” que, afinal, a televisão não tem tanta influência sobre as mentes jovens como se supunha. Achava-se, nas derradeiras décadas do séc. XX (ontem, portanto), que as mentes juvenis estavam predispostas a ser preenchidas pela aprendizagem, através de milhares de horas televisivas, e que, por exemplo, a violência (a todos os níveis), gerava uma reserva de impulsos que, mais tarde ou mais cedo, por reflexo condicionado ou por genética pessoal, se fariam presentes.

Mas essa "moda filosófica" passou. "Acha-se" agora, que a coisa não é tanto assim. Que as diversas mentes filtram as cenas de maneira diferente e que, do mesmo episódio, retiram díspares interpretações.

 

Se esta tese não é uma nova descoberta da pólvora, não sabemos o que seja. Na verdade, ninguém é igual a ninguém. Na verdade, a cada cabeça, uma certa e determinada maneira de pensar (e agir). Não é o que acontece na escola, desde a meninice? Os mesmos professores, os mesmos livros, mas um aproveitamento diferenciado? Um será doutor, o outro mecânico, o outro lavrador, o outro...

E, no entanto, poderemos negar que as "doutrinas" atiradas ao solo mental não alteraram esse solo?

Podemos?

 

Neil Postman, professor de Ciências da Comunicação Social da Universidade de Nova Iorque, considera que "a televisão molda a inteligência e o carácter dos jovens muito mais que a educação escolar". Pudera, se a escola se limita a ensinar a ler e a escrever, a fazer contas, enfim, a ensinar as áridas matérias que permitam ao aprendiz arranjar um emprego e a sobreviver no "mercado de trabalho", enquanto a televisão ensina como se pode ser feliz na vida, ainda que (e preferencialmente) ensinando a indiferença ante os valores imutáveis e a alegre aceitação daqueloutros que as mutáveis "modas" recomendam...

Por exemplo, no campo da sexualidade, se a escola ainda mantém o seu puritano escrúpulo em ensinar sexologia, no que esse plano humano alberga de emocional, de generosidade, de afecto..., e o televisivo ensino oferece, a granel (e ao vivo), os pormenores da sensualidade mais desbragada, qual a audiência expectável para cada "escola"?

Afirma Neil Postman, num profundo e sistemático estudo, que há um brutal desvio em termos de função educativa. O estudo das letras, das matemáticas, é gradativo. O discurso do pansexualismo é generalizado.

 

Não é, pois, de estranhar que este especialista de renome conclua que "a televisão está a destruir as diferenças naturais entre crianças e adultos... porque uma infância autêntica é um requisito indispensável para se alcançar a maturidade. De facto, querer dar uma educação precoce, quando nem a inteligência, nem a vontade, nem os sentimentos estão preparados para isso, é destruir aspectos importantes da personalidade".

 

Julgamos, legitimamente, que não há "modismo" nesta leitura. A realidade mostra-nos que não há. Todo o resto: o assobiar para o ar e a néscia ou interesseira argumentação em favor do conceito de uma "liberdade" corrompida e, por isso, tornada libertinagem, não passam de presunçosas capas de quem procura estar de bem com a "moda" actual, liderada pelas estratégias ligadas às audiências, cada vez mais embrutecidas, e que já não sabem se gostam de outra coisa, nem sabem se há outra coisa diferente e mais digna para além daquela a que se habituaram a gostar.

Neil Postman vai mais longe, afirmando que "todas as aberrações (adultérios, corrupção em todas as formas, perversões sexuais...) tornam-se, assim, familiares às crianças como aos adultos".

 

Claro que este especialista não está na "moda", muito embora escalpelize friamente a situação dos nossos dias, que não é nem pontual nem geográfica, mas se tornou, progressivamente, um caldo de cultura que permeia todos os escalões sociais e todo o mundo.

 

Não há, pois, filosofia, por mais elaborada e "livre" que seja, que possa contestar esta impetuosa ânsia de "niilismo" e este convite ao "carpe diem" que leva a juventude à caça do "sexo" gratuito, irresponsável e egoísta, onde vai embrutecendo a sensibilidade sequiosa de afectividade e de companheirismo verdadeiros, enfim, da busca sagrada do Amor que é o único elixir capaz de curar todas as chagas da animalidade e erguer a criatura à sua autêntica humanidade.

 

 

Escritor, Viana do Castelo

 

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