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Para "maiores” e "menores"
Na programação das salas públicas mantêm-se os
escalões para faixas etárias. Só entra quem tem idade
compatível. Às famílias, no lar, porém, entrega-se a exibição ao
livre arbítrio de quem está.
Cinema e televisão (e cinema pela televisão)
tornaram-se os professores polivalentes da escola da vida. É aí
que a "moda" tem os seus privilegiados expositores. A "moda" que
ensina a comer, a vestir, a pensar, a conviver. E que ensina
todos por igual: crianças, jovens e adultos.
Uma recente “doutrina” sociológica (?!), no
entanto, “prega” que, afinal, a televisão não tem tanta
influência sobre as mentes jovens como se supunha. Achava-se,
nas derradeiras décadas do séc. XX (ontem, portanto), que as
mentes juvenis estavam predispostas a ser preenchidas pela
aprendizagem, através de milhares de horas televisivas, e que,
por exemplo, a violência (a todos os níveis), gerava uma reserva
de impulsos que, mais tarde ou mais cedo, por reflexo
condicionado ou por genética pessoal, se fariam presentes.
Mas essa "moda filosófica" passou. "Acha-se"
agora, que a coisa não é tanto assim. Que as diversas mentes
filtram as cenas de maneira diferente e que, do mesmo episódio,
retiram díspares interpretações.
Se esta tese não é uma nova descoberta da
pólvora, não sabemos o que seja. Na verdade, ninguém é igual a
ninguém. Na verdade, a cada cabeça, uma certa e determinada
maneira de pensar (e agir). Não é o que acontece na escola,
desde a meninice? Os mesmos professores, os mesmos livros, mas
um aproveitamento diferenciado? Um será doutor, o outro
mecânico, o outro lavrador, o outro...
E, no entanto, poderemos negar que as "doutrinas"
atiradas ao solo mental não alteraram esse solo?
Podemos?
Neil Postman, professor de Ciências da
Comunicação Social da Universidade de Nova Iorque, considera que
"a televisão molda a inteligência e o carácter dos jovens
muito mais que a educação escolar". Pudera, se a escola
se limita a ensinar a ler e a escrever, a fazer contas, enfim, a
ensinar as áridas matérias que permitam ao aprendiz arranjar um
emprego e a sobreviver no "mercado de trabalho", enquanto a
televisão ensina como se pode ser feliz na vida, ainda que (e
preferencialmente) ensinando a indiferença ante os valores
imutáveis e a alegre aceitação daqueloutros que as mutáveis
"modas" recomendam...
Por exemplo, no campo da sexualidade, se a escola
ainda mantém o seu puritano escrúpulo em ensinar sexologia, no
que esse plano humano alberga de emocional, de generosidade, de
afecto..., e o televisivo ensino oferece, a granel (e ao vivo),
os pormenores da sensualidade mais desbragada, qual a audiência
expectável para cada "escola"?
Afirma Neil Postman, num profundo e sistemático
estudo, que há um brutal desvio em termos de função educativa. O
estudo das letras, das matemáticas, é gradativo. O discurso do
pansexualismo é generalizado.
Não é, pois, de estranhar que este especialista
de renome conclua que "a televisão está a destruir as
diferenças naturais entre crianças e adultos... porque uma
infância autêntica é um requisito indispensável para se alcançar
a maturidade. De facto, querer dar uma educação precoce, quando
nem a inteligência, nem a vontade, nem os sentimentos estão
preparados para isso, é destruir aspectos importantes da
personalidade".
Julgamos, legitimamente, que não há "modismo"
nesta leitura. A realidade mostra-nos que não há. Todo o resto:
o assobiar para o ar e a néscia ou interesseira argumentação em
favor do conceito de uma "liberdade" corrompida e, por isso,
tornada libertinagem, não passam de presunçosas capas de quem
procura estar de bem com a "moda" actual, liderada pelas
estratégias ligadas às audiências, cada vez mais embrutecidas, e
que já não sabem se gostam de outra coisa, nem sabem se há outra
coisa diferente e mais digna para além daquela a que se
habituaram a gostar.
Neil Postman vai mais longe, afirmando que
"todas as aberrações (adultérios, corrupção em todas as formas,
perversões sexuais...) tornam-se, assim, familiares às crianças
como aos adultos".
Claro que este especialista não está na "moda",
muito embora escalpelize friamente a situação dos nossos dias,
que não é nem pontual nem geográfica, mas se tornou,
progressivamente, um caldo de cultura que permeia todos os
escalões sociais e todo o mundo.
Não há, pois, filosofia, por mais elaborada e
"livre" que seja, que possa contestar esta impetuosa ânsia de
"niilismo" e este convite ao "carpe diem" que leva a juventude à
caça do "sexo" gratuito, irresponsável e egoísta, onde vai
embrutecendo a sensibilidade sequiosa de afectividade e de
companheirismo verdadeiros, enfim, da busca sagrada do Amor que
é o único elixir capaz de curar todas as chagas da animalidade e
erguer a criatura à sua autêntica humanidade.
Escritor,
Viana do Castelo
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