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SONHEI COM A DEMOLIÇÃO

DO PRÉDIO DO COUTINHO

 

Esta tarde consegui adormecer após dois dias de insónia e sonhei com a demolição do Coutinho (?!!).

 

No princípio do sonho, algo me impeliu a sair da sala do apartamento para a “marquise” da cozinha, que não explico o quê, mas que era algo como que se de uma consciência colectiva se tratasse; uma sensação má como que se algo de muito grande estivesse iminente de acontecer.

Aí se encontrava a minha mãe (estranhamente, pois vive em sua casa com o meu pai), no canto direito junto às janelas de correr, encostada à lateral com um braço apoiado para fora, e havia uma terceira pessoa que era a minha mulher (da minha marquise não se vê o Coutinho nem o ângulo desta coincide com o do sonho, mas aí era assim…).

Não mais de um quilómetro distava entre nós e o prédio (o que em termos visuais é quase nada) e notei que havia movimento no ar, tipo batalha, uma guerra, com aviões e helicópteros a rodopiarem sobre o prédio e de repente… Um grande estrondo que percorreu toda a cidade abalando almas e consciências. E o prédio, soçobrante, a inclinar-se sobre si próprio para logo em seguida mergulhar em direcção ao chão, como se lhe tivessem partido as pernas, desfazendo-se a partir de baixo, e elevando uma larga coluna de pó que rapidamente se alastrou para os lados tudo levando consigo (sei que vai ser cortado piso-a-piso).

Tudo se passou em poucos segundos, o som só o ouvi quando o prédio já caía, imediatamente à onda de choque que fez estremecer o prédio onde vivo e cujas vibrações senti passarem-me debaixo dos pés ainda antes do som que parecia saído dos infernos. A minha mãe, que até aí se apresentava muito serena, observante, soltou um ligeiro mas terrível “Ahh!!...”, que lhe saiu muito de dentro, a mão ao peito, mas imediatamente voltou à atitude inicial (é uma pessoa assim mesmo). A minha mulher ficou a olhar donde estava, numa fascinação vítrea.

Fiquei doente comigo próprio. Então a demolição já não estava aprazada? Como fora possível esquecer-me daquilo? Nem uma foto tirei?... Mas isso não era, a final, o mais importante para mim…

Aquele prédio a dobrar-se inicialmente, como que mortalmente atingido, e a sua rápida desintegração, foi uma dor tão repentina como surpreendente, uma dor que me atingia fundo no coração, numa profunda parte que não sabia que possuía (sempre fui pela demolição do dito), talvez aquele sítio onde todos nos encontramos como comunidade e encontramos o descanso dos mais frágeis que nós, daqueles a quem não pensávamos pertencer.

A minha mãe, que voltara à sua expressão, continuava na mesma posição, com um ar estranhamente ausente perante a magnitude do sucedido. Exteriormente, fora o seu “Ahh!...” que tudo demonstrou do que nela foi sendo no momento, retomara quase no imediato uma imperturbabilidade pouco comum, fruto de uma vida de muita lavra.

Foi aí que um dos aviões (que nesse momento do sonho se tratava de uma carrinha da polícia com asas, não nos esqueçamos que estou a relatar um sonho) que passava muito perto da coluna de poeira plena de estilhaços, talvez por apanhar com alguns nos motores a hélice, perdeu o controlo à nossa vista e à vista de toda a multidão. Deu uma espécie de cambalhotas no ar, como “mortais”, e vimos os polícias, lá dentro, como que se estivessem numa máquina de lavar a roupa a serem atirados de um lado para outro, gritando e falando aos gritos uns com os outros.

A cena era terrível e eu, que em situações de dificuldade estendo logo a mão mesmo contra o fogo, sentia a ansiedade a crescer dentro de mim face à impotência em ajudar aqueles homens, pertencentes à tal comunidade que referi. Nisto, por uma das portas laterais da carrinha com asas, aberta, um dos homens cai de cabeça, lá de cima, do ar, falo de uns bons mil pés de altitude. Na ânsia de me defender do terror que me avassalava da imagem que via, voltei a lamentar para mim próprio não ter a máquina comigo.

Entretanto o guarda mergulhava com o chapéu a seu lado, que parecia uma borboleta a acompanhar o seu voo para a morte, gritava, terrível, perante os músculos da minha cara que se contraiam – “Ajudem-me! Ajudem-me!” – pensava eu nesse momento, com muita raiva à mistura, na mania dos profissionais portugueses desprezarem as regras de segurança no trabalho (aquela porta lateral devia estar corrida e bem fechada).

Face à impassividade da minha mãe abanei-a um pouco, perguntando se não ouvia o desgraçado a gritar mas, impassível continuando, disse-me que não, que não era ele, mas um dos colegas que o tentaram salvar; esse, sim, que gritava – Descansa! Descansa!...” – e eu preferi acreditar.

Nessa altura preocupei-me seriamente com ela pois nada transparecia, não havia sentimento de qualquer espécie expresso, e de uma forma perfeitamente estranha, que me começou a colocar fora de mim. Foi então que…

Surge nova imagem no sonho: as obras do parque de estacionamento junto ao acesso à ponte Eiffel, ainda a meio donde, repentinamente dá-se enorme explosão. Outro acidente, com certeza. Mais um sinal, talvez mais um “castigo” perante a destruição do prédio.

Tento puxar a minha mãe para dentro da marquise pois sabia que os materiais arremessados estariam a chegar num ou dois segundos. Ela nega-se num gesto leve do braço. Eu, já irritado, puxo-a com violência, precisamente no momento em que uma estilha de madeira bate no friso da janela, onde meio segundo antes tinha a cabeça. Eu tinha razão. Como sempre não quis dar a razão, mas estava aliviada e já havia, novamente, sentimento nela. Fiquei mais descansado.

Foi aqui que decidi acordar. Por mais que possa precisar, dormir de dia resulta-me sempre num mau sono. Mas raramente tão violento. Um bom caso para um psicólogo se debruçar.

Eu, já o fiz, já tenho as respostas que precisava mas que tornariam este texto longo, para além de não haver necessidade de expor o meu íntimo aos curiosos da imprensa local. De resto, já afastei grande parte dos fantasmas com a reflexão entretanto feita, e também escrevendo este texto que dou a conhecer.

 

P.S.: Sou a favor da demolição “do Coutinho”, como acredito que é a maioria dos vianenses. Mas também é verdade que, por muitos motivos, parte da minha vida de vianense - criança, adolescente, jovem chefe de família e homem maduro - lá está e em torno dele, e lá continuará sob as ruínas ou em torno do novo mercado. Mas se eu senti o que foi descrito, pergunto-me com mais profundidade: - O que sentirá quem lá viveu os últimos trinta anos? E por isso lhes desculpo, agora mais do que nunca, muitas das formas e atitudes que muitos deles têm tido na sua luta (inglória?) contra a demolição.

 

Em Reguengos Nossos em dia incerto de Agosto

 

 

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