|

|

|
Os
dogmas sucedem-se. Sobre o céu e o inferno.
Aquele que garante que a paz só se alcança através da
guerra.
Aquele que afirma que a felicidade se compra comprando
coisas.
|
|
Sucedem-se os dogmas não
sendo, os ditos, monopólio do campo religioso. Também
serviram de pedestal a impérios e imperadores, Já
regulamentaram deuses. Já endeusaram homens.
Mas o que são os dogmas
senão alicerces para escorar o inconcreto, o desejável?
Porém, entre os dogmas teológicos, filosóficos, sociais,
político, rácicos, científicos, nenhum escapa à patina
do tempo, nem ao seu poder de desgaste.
Isso sabe-se. Afinal,
desde há muito tempo que, com foros de científico dogma,
se esclarece o mais distraído cidadão que a verdade, a
realidade real, é aquela concreteza que olha de frente,
olhos nos olhos, o critério científico e, assim olhando,
não se desfaz como nuvem ante súbita rajada de vento.
Ainda assim ele (re)aparece
com foros de certeza incontestável. Ouça-se a específica
palestra do economista e se perceberá isso. Dê-se um
pouco de atenção à publicidade de mãos dadas com
percentagens matemáticas e nomenclaturas científicas e
temos de nos render. Só o próximo dogma os substituirá
na cátedra que ocupam.
|
|
Sucedem-se os dogmas não sendo, os ditos, monopólio do
campo religioso. Também serviram de pedestal a impérios
e imperadores, Já regulamentaram deuses. Já endeusaram
homens.
Mas o
que são os dogmas senão alicerces para escorar o
inconcreto, o desejável? Porém, entre os dogmas
teológicos, filosóficos, sociais, político, rácicos,
científicos, nenhum escapa à patina do tempo, nem ao seu
poder de desgaste.
Isso
sabe-se. Afinal, desde há muito tempo que, com foros de
científico dogma, se esclarece o mais distraído cidadão
que a verdade, a realidade real, é aquela concreteza que
olha de frente, olhos nos olhos, o critério científico
e, assim olhando, não se desfaz como nuvem ante súbita
rajada de vento.
Ainda
assim ele (re)aparece com foros de certeza
incontestável. Ouça-se a específica palestra do
economista e se perceberá isso. Dê-se um pouco de
atenção à publicidade de mãos dadas com percentagens
matemáticas e nomenclaturas científicas e temos de nos
render. Só o próximo dogma os substituirá na cátedra que
ocupam.
|
|
Há, porém, um dogma que
alimentou os sonhos de incontáveis almas. Não, não é
aquele ligado à beatitude dos escolhidos que, desligados
da luta terrena, são levados para as delícias eternas,
num mundo-outro sem treva nem sofrimento. Não é esse.
É outro! Está ligado à
tecnologia. À ciência. Às máquinas. É um dogma que
sobreviveu decénios prometendo, perdão, garantindo um
porvir maravilhoso onde já não seria preciso esperar a
partida deste vale de lágrimas, mas que transformaria o
dito em paraíso, aqui e agora, para todo o sempre.
Quem não se lembra das
proclamações dogmaticamente repetidas sobre um homem
liberto das tarefas enfadonhas, pesadas e intermináveis,
que se tornaria dono e senhor do seu tempo, do seu
destino, da sua felicidade?
Como? Bastara que a
ciência tecnológica engendrasse as ditas máquinas e as
oferecesse a granel, aos homens. Aí, sem demora, haveria
mais tempo para ler, para conviver, para viver, enfim,
numa beatitude antecipada.
E, maravilha das
maravilhas, haveria populações inteiras gozando as
delícias da vida enquanto as maquinetas trabalhassem sem
descanso para que os seus senhores, os homens (e
mulheres, claro), se tornassem criaturas mais sábias,
porque mais introspectivas, porque donos de tempo e
disposição para assistir a concertos, apreciar jardins,
ir ao teatro, conversar sobre os concertos, as flores, o
teatro, sabe-se lá que mais…
Esse dogma: o do paraíso
terrestre.
|
|
Mas eis
senão quando, surgindo de uma vereda qualquer, uma
realidade se ergue: as máquinas, grandes e pequenas,
sofisticadas ou rudimentares, uma rugindo potências
cavalares, outras zunindo energias ocultas, algumas
piscando olhinhos coloridos, a maior parte sussurrando,
tomam os lugares dos homens e, quando não lhes roubam o
pão de cada dia, exigem que eles as assistam, como
criados, a tempo inteiro. Se assim não for, não
trabalham.
Esse
dogma que morreu: o do paraíso aqui e agora, ainda que
não se saiba onde e quando definhou. O novo dogma,
insofismável, garante que quem não trabalha não tem
direito a comer. E acrescenta que é legítimo o homem ser
despedido pelo computador
|
|
Mas eis senão quando,
surgindo de uma vereda qualquer, uma realidade se ergue:
as máquinas, grandes e pequenas, sofisticadas ou
rudimentares, uma rugindo potências cavalares, outras
zunindo energias ocultas, algumas piscando olhinhos
coloridos, a maior parte sussurrando, tomam os lugares
dos homens e, quando não lhes roubam o pão de cada dia,
exigem que eles as assistam, como criados, a tempo
inteiro. Se assim não for, não trabalham.
Esse dogma que morreu: o
do paraíso aqui e agora, ainda que não se saiba onde e
quando definhou. O novo dogma, insofismável, garante que
quem não trabalha não tem direito a comer. E acrescenta
que é legítimo o homem ser despedido pelo computador
|
|
Afinal,
talvez nos tenhamos enganado na apreciação sobre o dogma
que garantia o paraíso por oferta de tempo. É que,
tempo, não falta para um número cada vez mais acrescido
de criaturas. Aproveitem, pois. Vão aos concertos. Aos
jardins. Ao teatro. Pobres são os outros: os que
alimentam as máquinas, os donos das máquinas, o dogma.
Tornam-se apêndices. Trabalharão até morrer.
Ou
quase.
|
*Escritor,
Viana do Castelo
Sucedem-se os dogmas não sendo, os
ditos, monopólio do campo religioso
É outro! Está ligado à tecnologia. À
ciência. Às máquinas
Acrescenta que é legítimo o homem
ser despedido pelo computador
|


|