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José
Carlos Martins Pacheco Barbosa

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Nome:
José Carlos Martins Pacheco Barbosa
Idade:
51
Naturalidade:
Meadela
Profissão:
Bancário
Estado
Civil:
Casado, com duas filhas
Formação
Académica:
Curso de Sociologia pela UM
Residência:
Meadela
Na
mesa-de-cabeceira: Está com nove, com relevo para o
“Manual de Teatro”, de Antonino Sommer
No DVD:
Mais na rádio e na internet. Está a
“re-ouvir” Fausto
À mesa:
Comida portuguesa
No cinema:
Não é cinéfilo, mas ontem esteve nos
“Encontros de Cinema e Vídeo”
As férias:
Em Portugal e na Galiza
Na
companhia de:
Família e
amigos
Ocupação de
tempos livres:
Teatro, música
e ler, ler muito…
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José Carlos Barbosa
(JCB) é uma daquelas figuras que nos habituamos a ver (e a
ouvir) nos palcos das comemorações oficiais do 25 de Abril, em
Viana do Castelo. Mas também noutros lados, contribuindo com a
sua música para eventos, exposições ou outras acções levadas a
cabo pelas gentes da Cultura das terras da foz do Lima.
A ideia desta
conversa já tinha tomado forma há uns anos e por isso, desta
vez, contactámos o cantor e começámos por perguntar sobre a sua
última actuação ao vivo, nas últimas comemorações do 25 de
Abril, que transitaram da praça da República para a praça da
Liberdade, defronte o rio…
VS&C: Acerca do
agrupamento de instrumentistas que o acompanharam na noite de 24
para 25 de Abril: foi um acaso, uma feliz coincidência?
JCB:
Este grupo foi
criado em 2007 quando construí o espectáculo “Zeca canta Zeca”,
que, em Viana, marcou os vinte anos da morte de José Afonso.
Houve espectáculos por todo o país e, a nós, coube-nos Viana.
Contactei este grupo de amigos da região e o grupo formou-se
desde então. Mas isto vem de muito atrás. Mas digamos que,
formalmente, desde Maio de 2007 que estamos com isto e vai haver
novas marcações para novos espectáculos.
VS&C: A composição
do agrupamento que o acompanha é fixa?
JCB:
Neste momento
temos o Domingos Barros no trompete, o João Traila no saxofone,
o Miguel Pinto na bateria, o Eliseu Matos na guitarra, o Ricardo
Fernandes na outra guitarra, o Alexandre Pereira no baixo - que
é um brasileiro que cá vive há dez anos -, Ana Lopes na voz e
acordeão e a Liliana Barbosa na voz. Houve dois elementos que
entretanto saíram mas que foram substituídos. Mantemos sete
instrumentos…
VS&C: Como
decorreram os ensaios?
JCB:
Juntamo-nos na
casa de um dos músicos que tem um pequeno estúdio, e aí
ensaiamos com regularidade havendo sempre um ensaio pelo menos
um vez por mês. No que toca àqueles para o último espectáculo,
precisamente nas comemorações do 25 de Abril, correram bem, pois
vimos a ensaiar há mais de um ano, mormente a substituição de
dois músicos.
VS&C: Estiveram
todos de acordo quanto aos arranjos para este concerto?
JCB:
Sim. Os arranjos
foram feitos pelo Ricardo Pinto, a quem chamamos “Queco”. Não
está na banda, mas na estreia tocou o piano. Não é homem de
palco, mas de estúdio, de instrumentação, etc. Um reportório
destes demora sempre uns dois meses a levantar, pelo menos. Mas
o que se viu nas comemorações foi uma versão mais curta, uma vez
que este é um espectáculo para cerca de uma hora e meia.
VS&C: Qual foi o
sentimento dominante a seguir ao concerto da vossa parte, como
grupo? Os arranjos funcionaram, mormente um ou outro desacerto?
E o público, como é que o sentiram: quente, frio, morno?...
JCB:
Nós costumamos
cantar no 25 de Abril. No ano passado fizemo-lo à tarde. Já
estamos habituados uns aos outros. O público aceita sempre muito
bem a música portuguesa quando bem executada.
Esta música cantada em Abril está directamente
ligada à libertação do país

VS&C: Já terá
congregado um grupo de admiradores, portanto…
JCB:
Na verdade, nem
temos nome para a banda, este espectáculo é que teve um nome,
“Recados de Abril”. Há, de facto pessoas que nos costumam ouvir,
nestas coisas, há sempre umas caras que são sempre assíduas
nestas coisas.
VS&C: O José Carlos
ainda mantém a actividade associativa?
JCB:
Sim. Fui um dos fundadores da ACEP – Associação Cultural e de
Educação Popular, da Meadela, há cerca de trinta anos, mas tenho
actividade anterior a isso. De momento tenho actividade na
associação cultural “Teatro à Sexta”, e na Associação de
Sociólogos do Alto Minho, onde faço parte dos órgãos sociais.
Para além disso sou elemento do núcleo fundador do grupo de
cidadãos “Alto Minho contra novas portagens”.
VS&C: Como é que
começou a cantar e porque continua a cantar?
JCB:
Comecei a cantar no coro da igreja, teria uns doze anos.
Compuseram uma música para eu cantar, especificamente, e
cantei-a numa missa do galo. Por volta dos 14 anos descobri, por
mero acaso, a música do Zeca Afonso através de uma cassete
áudio, vinda não sei donde. Entretanto, apareceu a revista
“Mundo da Canção” - isto ainda antes do 25 de Abril, no final
dos anos 70 -, onde fui beber as letras e assim tive contacto
com os poetas da altura e os músicos,
Nomes como Francisco
Fanhais, José Mário Branco, Sérgio Godinho, Luís Cília, Manuel
Freire, e José Afonso, claro, entre outros ainda. A partir daí
fui cultivando essa música que fui sempre acompanhando. Mais
tarde, vem o 25 de Abril que dá origem a uma explosão desse tipo
de músicos que andavam pelo país de guitarra às costas, e eu
seguia-os como podia, através de cassetes, rádio, por vezes a
televisão, aí especialmente no pós-25 de Abril. Acompanhei
também a "complexização" desses músicos, com um incremento da
qualidade que veio com o tempo, e isso vemo-lo agora, com o
Fausto, por exemplo.
VS&C: Entende que a
música de intervenção ocupou, finalmente, o lugar que merecia,
nestas comemorações?
JCB:
O que eu penso é que esta música cantada em Abril está
directamente ligada à libertação do país e, nesse sentido,
interessa que nesta data tenhamos esse simbolismo. Para mim, é o
que interessa, uma forma de comemorar a liberdade através de um
trabalho, a música, que conduziu até ela. Não pretendo dar um
cariz muito político a isto, apenas que consigo que traga esse
simbolismo, pois com a entrada dos grupos de baile nas
comemorações, retirou-se esse sentido, desvirtuando e
vulgarizando tudo isso.
Faz parte de algum
partido político?
JCB:
Não fiz, nem farei, mas não tenho nada contra. A minha postura
relativamente à vida é outra e se me inscrevesse era para sair
logo a seguir. É uma independência de que não abro mão. Mas
compreendo a admiro quem milita e algumas lutas dos partidos. E
há muita gente com um trabalho interessantíssimo. É apenas uma
questão pessoal. Na prática, os partidos desvirtuam os seus
princípios orientadores e isso desagrada-me pessoalmente. Por
isso estou há 25 anos na animação cultural. Houve um desvirtuar
total ao longo de todos estes anos, fenómeno que terá durado, em
Viana do Castelo, até ao ano passado. Creio que, desde aí, esta
música cantada em Abril está directamente ligada à libertação do
país, designadamente ao nível da música de intervenção, se bem
que toda a música seja de intervenção, até a música pimba é de
intervenção. Má intervenção é claro.
VS&C: Como é que o
José Carlos Barbosa “nasce” para a música de intervenção, que é
o género por onde mais se tem destacado?
JCB:
Esta música tem um
sentido, basta compararmos a forma como o Sérgio Godinho canta o
“Amor” ou outro qualquer da dita música popular portuguesa. É
uma linha estética que me interessa a agrada; considero-a uma
música de grande qualidade que está a ser redescoberta. Mas não
só a de intervenção como também aquela do Rui Velosos e do Luís
Represas antes, mais recentemente os “Clã” e outros desses, tal
como o quarteto Tati…
Descobri, por mero acaso, a música do Zeca Afonso
através de uma cassete áudio
VS&C: Como é que as
suas actuações acontecem? Oferece-se, é-lhe pedido, o que é que
domina?
JCB:
Normalmente recebo
convites das organizações das Festas populares e comissões
promotoras; mas também faço chegar CDs e DVDs para serem
colocados nos locais, na altura própria. Mas é muito difícil,
pois somos artistas independentes e, por isso, tudo custa muito
mais, Os empresários do mundo da música investem naquilo que
entendem que dá dinheiro. Por isso esta minha actividade acaba
por seu muito residual.
VS&C: Sabemos que
tem um CD editado…
JCB:
Em 2003 fiz a
edição de um DVD ligado aos “Sentidos Afectos”, sendo esse o seu
título, pois aí se faz um percurso pela poesia portuguesa ligada
aos afectos, com 13 temas. É um álbum de originais donde relevo
as músicas “O homem voltou” de José Afonso, com arranjos, e
“Porque me olhas assim?” do Fausto. Todos os outros temas são
músicas originais com poesias de Eugénio de Andrade, António
Gedeão, Agostinho da Silva, Alfredo Reguengo e de mim próprio. O
tema número cinco, “Frutos”, foi o João Afonso, sobrinho de José
Afonso, que compôs para mim especialmente,
VS&C: Os
espectáculos são por si realizados a título gracioso ou há uma
carreira paralela que tem vindo a cumprir?
JCB:
Tenho feito
trabalhos para fins cívicos e esses espectáculos dão receita
para fins sociais. Com o tempo e com a panóplia de músicos que
se vai englobando, temos de olhar para o facto de alguns deles
serem profissionais da música, há que ter em atenção esse
aspecto. Quem nos convida não tem muito dinheiro e, pelas
dificuldades que enfrentam muitas vezes, fazemo-lo a título
gracioso. Há que ver quem dantes vinha cá para estes eventos
como as comemorações do 25 de Abril, eram cantores de renome que
deixaram de vir, porque os “cachets” não são aliciantes e em
Viana, as associações que promovem estas festividades debatem-se
com muitas dificuldades. Já cá tivemos o próprio Zeca, o Fausto,
o José Mário Branco, o Sérgio Godinho várias vezes, mas isso já
acabou. Ficámos nós…
VS&C: Vê-se
obrigado a ir a outras paragens para além de Viana, ou é mais na
região que tem mantido viva essa sua paixão?
JCB:
Depende. Isto
acaba por não ser uma actividade muito intensa pois não tenho
estrutura nem tempo para a manter a outros níveis, é uma coisa
que vai acontecendo. A minha actividade profissional é muito
intensa e absorvente. E depois, o Teatro acaba por ser a
actividade paralela que me leva mais tempo.
VS&C: É fácil
coadunar a actividade de cantor com a vida familiar e
profissional?
Nunca é fácil! Alguma
coisa sai sempre prejudicada. Mas é um percurso com componentes
de que já não me vejo a existir sem eles. Claro que é necessário
alguns sacrifícios, deixar de fazer coisas importantes como ver
espectáculos, ler um pouco menos, mas a família apoiou sempre
isto, especialmente as minhas filhas que estão muito embrenhadas
na actividade cultural cá em Viana. Uma estuda dança em Lisboa,
e a outra é designer. Ambas têm inúmeros projectos na área
artística.
Os “cachets” não são aliciantes e as associações
que promovem estas festividades debatem-se com muitas
dificuldades

VS&C: Que recorda
dos “anos da revolução”?
JCB:
Antes do 25 de
Abril não tinha consciência política mas já discutia com os meus
amigos a guerra colonial. Eu era filho de militar e estava
razoavelmente informado do que por lá se passava, por isso, para
mim, o 25 de Abril foi, sem dúvida, um acontecimento libertador
com o fim da guerra e a liberdade de expressão, de reunião e
associação, que foram fundamentais, de modo que, a nível do que
se passou comigo, a revolução foi dos momentos de vida um dos
mais marcantes.
VS&C: Muitos anos
decorreram desde lá para cá. Como é e tem vindo a “assistir às
reacções do público, nestas quase quatro décadas?
JCB:
Eu acho que,
particularmente na música de José Afonso, toda a gente lhe
“pegou” e espero que o motivo disso seja apenas o valor da sua
obra musical. Quando o descobri, sem consciência muito clara,
algo que me fez mudar qualquer coisa em termos de pensamento.
Depois, mais tarde, fui-me apercebendo da qualidade musical da
sua obra e, mais tarde ainda, fui-me apercebendo da pessoa que
era José Afonso. Mais recentemente, houve um fenómeno de retomar
a sua obra por parte dos músicos e o público tem aderido. Esse
público ouvia essa música como algo referente à sua luta, mas
hoje está mais ao nível do gosto popular, sendo sempre ouvida.
Mas, contas feitas, o espírito libertador desta obra musical diz
algo a toda a gente e, por isso, o público adere. Mais agora do
que há dez anos atrás. Houve uma época em que tudo foi muito
esquecido.
VS&C: No que toca
àquilo que este tipo de música defende: os portugueses foram
defraudados?
JCB:
É difícil dizê-lo. O desenvolvimento do país nestes 40 anos foi
tremendo, quem viveu o “antes” sabe isso. Independentemente dos
rumos que pudéssemos querer para o nosso país, a evolução foi
enorme. Só não vê quem não quer. Outras coisas poderiam ter sido
feitas, os meios aproveitados de outra forma, mas o facto de
estarmos na União Europeia e sermos um país desenvolvido, diz
tudo o que se pode dizer. O 25 de Abril trouxe-nos um sonho
maior do que isto que estamos a viver e, nessa medida, todos se
sentem um pouco defraudados, sobretudo porque a classe política
não correspondeu às expectativas que as pessoas esperavam.
Defraudaram e continuam a defraudar. Isso vê-se no afastamento
das pessoas relativamente à política e à sua participação. Mas
os poderes também não encorajam.
O 25 de Abril trouxe-nos um sonho maior do que
isto que estamos a viver
VS&C: Como vê esta
música daquele tempo, neste tempo?
JCB:
É uma música de
qualidade e bem elaborada. Antes, era apenas a voz e uma
guitarra. Mas em termos da mensagem tudo continua muito actual,
não tenho dúvidas, especialmente com as dificuldades que
enfrentamos. Aqui, agora, pode encontrar novamente o seu lugar.
VS&C: Como se
coaduna cantar “eles comem tudo e não deixam nada” e a
actividade bancária?
JCB:
São coisas diferentes. Sou um profissional da banca, devo e
tenho de cumprir a minha função com profissionalismo; a música
de Zeca serve ao nível do simbolismo e isso pode acompanhar
perfeitamente a vida profissional.
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