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EDITORIAL

Para acabar

Com o presente texto encerramos, um pouco mais tarde, a série de editoriais, iniciada com o número de Abril da VS&C, dedicados a amolar as cabeças da malta. Aconselhamos a leitura dos anteriores. Temos vindo a falar de liberdade, solidariedade, consciência crítica, cívica e profissional, da nova emigração, do estado da Educação e da Justiça, sobretudo.

 

A propósito disso, ou não, um dos nossos leitores enviou-nos um artigo de Eduardo Prado Coelho (EPC) que perdemos numas das edições do “Público”, donde –  não sendo possível a íntegra transcrição –, retirámos algumas das afirmações feitas: “O problema está em nós. Nós como povo. Nós como matéria-prima de um país (…); porque pertenço a um país onde a esperteza é a moeda sempre valorizada, tanto ou mais do que o euro. Um país onde ficar rico da noite para o dia é uma virtude mais apreciada do que formar uma família baseada em valores e respeito aos demais; (…) pertenço a um país onde as pessoas se sentem espertas porque conseguiram comprar um descodificador falso da TV Cabo, onde se frauda a declaração de IRS para não pagar ou pagar menos impostos; (…) onde há pouco interesse pela ecologia, onde as pessoas atiram lixo nas ruas e depois reclamam do governo por não limpar os esgotos; (…) pertenço a um país onde as cartas de condução e as declarações médicas podem ser "compradas", sem se fazer qualquer exame; (…) um país onde uma pessoa de idade avançada, ou uma mulher com uma criança nos braços, ou um inválido, fica em pé no autocarro, enquanto a pessoa que está sentada finge que dorme para não lhe dar o lugar”; E que por isso, “(…) nem serviu Santana, nem serviu Guterres, não serviu Cavaco, e nem serve Sócrates, nem servirá o que vier”.

 

As tiradas do Prado Coelho são muitas mais e o artigo é todo assim. Talvez tenha toda a razão e por isso Salazar tenha sido considerado “o mais popular entre os portugueses”, porque somos uns preguiçosos sem cura que precisamos  de um ditador que nos mande, tais meninos, de facto sem capacidade de organizar e decidir, fazer por si próprios, sem ter um patrão estrangeiro num país europeu a dar-lhes ordens.

 

Se nos torna atractivo e fácil subscrever todos os desabafos do pensador, também não esquecemos que: este é o país onde alguns ganham seu lauto sustento opinando mal de tudo e de todos; em que muitos se permitem passar a vida a dizer “só neste país…”, e têm tempo para isso; que este é o país cujos intelectuais se auto-crucificam e a todos crucificam no altar da preguiça e da incompetência; este é o país não do cultivo da baixa-estima ou da falta dela, mas de estima nenhuma; este é o país que ouve, lê e paga de maneira a fazer forma de vida a quem vive perpetuamente a dizer, escrever e ensinar coisas daquelas.

 

O Eça bem se apercebeu do mal que fez a este país e à sua auto-estima, com os seus romances (excelentíssimos), que ficou quase perdida a nível das suas elites intelectuais que por sua vez foram perpetuando esta ideia – o que na altura foi necessário pelo corte epistemológico exercido sobre uma praxis quotidiana portuguesa a todos os níveis –, com todas as repercussões sociais, económicas, políticas, e até religiosas, que ainda perduram. No ilustre e obrigatório “Público”, por exemplo.

 

Uma última achega para fechar, por agora, a tal série de artigos: um professor destacado há mais de vinte anos na DREN, Porto, António Charrua, foi suspenso com processo disciplinar pela respectiva directora regional por ter dito umas “bocas” acerca da licenciatura do primeiro-ministro Sócrates. O nome dela é Margarida Moreira, que diz que “um funcionário público tem de estar acima disso”. O processo irá para os arquivos e a senhora ainda levará um puxão de orelhas pelo respectivo ministério pela forma como levou as coisas (esperamos…). Mas é isto, a par do resto que já referimos nos editoriais anteriores, que explica o artigo de EPC e que justifica também o regresso do medo que nos têm vindo falar e que domina cada vez mais muitas repartições públicas e escolas. E quanto ao caso da DREN, nas salas de professores quase nada se ouve acerca disso, o que deveria ser inconcebível. Bem perguntámos no último editorial por onde é que andam os professores, por exemplo…

É uma chatice ter sempre razão.

 

 

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