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EDITORIAL

 

Portugal Mundial

 

Porque de futebol também somos feitos e era muito difícil passar pelo Mundial de Futebol sem nele falar. Ate porque parece ser a única coisa que, de facto, une um Portugal que nasceu desavindo (com o filho a bater na mãe) e assim continua. Outros assuntos…

Na síntese possível, a caracterização dos jogadores e dos jogos que ditaram o quarto lugar de Portugal no Campeonato do Mundo de Futebol.

Os jogadores:

Ricardo – O último reduto. Foi-o várias vezes. Nervoso às saídas, a baliza é dele quando sem a necessidade do papá. Magnífico uma vez mais nos penaltis.

Nuno Valente – Discreto, eficaz, até dar trancada. Sai bem em apoio ao ataque, sem comprometer a defesa, O paradigma do jogador posicional.

Ricardo Carvalho – Deu um centro à defesa. Não permite aos adversários colocarem o pé em ramo verde. Já é um clássico.

Fernando Meira – Dominou-se, jogou em altura, utilizou o físico e não largou de vista Ricardo Carvalho. Estabilizou e evoluiu.

Miguel – Arisco e afoito no ataque, duro e implacável na defesa. A força dissimulada. Um poço de energia.

Ricardo Costa – O jovem cumpriu quando foi chamado. Calma e maturidade.

Petit – Morde o ar enquanto joga, trincaria o adversário se pudesse. O pit-bull nunca larga os avançados contrários conseguindo ainda desequilíbrios lá à frente.

Costinha – Fala como um velho treinador, no campo actua forte e incisivo, antecipando-se a todos. Mas contrasta de repente sendo o que dele faz um jogador mais vulgar do que pode parecer.

Maniche – A força da raiva e a raiva da força, como alguém diria. Ataca, defende, sempre incansável. Só ele “chega para o campo todo”, na opinião dos colegas.

Tiago – O vianense foi a segunda e terceira opções para a linha média de ataque. Ainda lhe falta aquele je ne sais quoi que havia em Rui Costa ou Paulo Sousa, mas empenhou-se e foi dando alguma frescura à equipa quando chamado.

Deco – Artes mágicas nos pés e na mente, coloca o jogo do outro lado ou impede um contra-ataque adversário com uma falta subtil mesmo às portas da grande área contrária. Cumpre ambas as situações com a mesma facilidade. Um dos maiores do mundo.

Luís Figo – Sempre que engrenava a equipa melhorava. Correu, fintou, berrou, comandou, fez tudo o que dele seria de esperar, e ainda um pouco mais. O regresso de um grande senhor.

Cristiano Ronaldo – Agitado, ansioso, impaciente, por vezes bailarino do inútil, não deixou de ser brilhante e fundamental. Aguentou muito bem a pressão dos últimos jogos. Deve crescer e consolidar.

Simão – Um corredor de velocidade, um fura-bolos no drible e um perigo próximo da área. Rápido e por vezes surpreendente, até alguém o deitar abaixo.

Pauleta – Ficou onde devia, lá à frente, até o chamarem para o balneário. O melhor domínio de bola, o mais rápido remate.

Hélder Postiga – A formar-se, foi mais aposta do que resultados, constituindo procura de renovação na frente de ataque. Quando jogou correu e fez-se ver.

Nuno Gomes – Entrou, viu e marcou, como sempre acontece. Pena não ter entrado contra a França…

Dos outros a história não muito reza, mas resta a perseverança. Por fim…

Mário Scolari – A candura experiente na insustentável leveza do ser. Mas “se fosse brilhante teria ganho à Grécia” na final do Euro 2004.

Os jogos:

Fase de grupos – Construídas vitórias suficientes feitas com margens mínimas. Ganhámos tudo.

Portugal-Holanda – A descrição de Fernão Mendes Pinto quando uma vintena de marinheiros portugueses nos mares das Índias rompe ao tiro e à saibrada atravessando vários navios inimigos espalhando morte, em rasgo de desespero encontrado no terror de dali não saírem vivos dentre centenas de inimigos. Uma corrida pela vida.

Portugal-Inglaterra – A terceira demolição consecutiva dos anglo-saxónicos. Uma felicidade a vingar o Tratado de Methuen, entre outras partidas históricas, mas só isso dava assunto para um editorial. A vingança serve-se sempre fria. E aos penaltis, de preferência, para doer mais um bocadinho…

Portugal-França – Um falso penalti foi o princípio do fim com o pesadelo a repetir-se mais uma vez. Nem à terceira foi de vez; não houve foi duas sem três… Até aí Portugal nunca tinha estado a perder. Uma França crescente desde a primeira volta assume a sua veterania e controla um jogo onde os portugueses ainda não haviam ultrapassado complexos antigos vindos dos Europeus de 1984 e 2004.

Portugal-Alemanha – A perfeita definição de Futebol Moderno, no dizer de um brasileiro nos anos 70: “Vinte e dois caras atrás de uma bola e no fim ganha a Alemanha”.

Nestas coisas, no fim, as contas estão sempre certas.

Todos estamos de parabéns. Somos os quartos melhores do mundo e ainda há muita vida pela frente.

 

O Director

 

 

 

 Alexandre Marta

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