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Na senda da escola
Houve um tempo, ali pelo séc. XIX, em que se
descobriram as virtudes do Conhecimento como meio para a
riqueza, para a prosperidade e a para a paz, enfim, as vantagens
de um ensino massificado (para todos) ao qual todos teriam
direito e, através dele, se elevaria o Homem criando uma
sociedade do saber, da solidariedade, em última análise, da
igualdade, sociedade na qual todos teriam o direito às
maravilhas tecnológicas que surgiam de todo o lado. Inicialmente
com o aproveitamento da energia do vapor, das novas descobertas
e invenções advindas da indústria do caminho-de-ferro e do
armamento, depois com o advento do petróleo, da telegrafia sem
fios, até aos dias de hoje. A ideia já vinha dos tempos da
Revolução Francesa, mas só mais tarde é que atingiu o pleno ao
nível da filosofia e da teorização, começando a ser colocada no
terreno com a edificação de escolas em todas as vilas e
lugarejos da Europa e América do Norte.
Só que pouco menos de um século depois daquela
descoberta, descobriu-se que toda essa riqueza não era possível
de ser repartida igualmente por todos, uma vez que uns (os
ricos) concluíram que os recursos do planeta estavam a ser
exauridos e não seria possível fazer a repartição da abundância
(pelos pobres) porque ela não era, simplesmente, possível.
Mas seria muito difícil conseguirem os primeiros
fazerem a repartição do que há, a seu favor, à revelia dos
segundos, entretanto elevados através do poder do Conhecimento.
A forma de o fazer foi atacando o sistema de ensino – um dos
sete pilares de uma nação – baixando gradualmente a sua
qualidade até um ponto sobre o qual já fosse possível,
institucionalmente, voltar a ordenar a grande massa de seres
humanos moldando-a através de um conjunto de regras, leis, que a
mantém com a forma ajustada aos interesses dos privilegiados,
mantendo-a afastada da riqueza, reunindo a assim opulência em
torno de si.
Há estudos sobre isto, mas que não têm conseguido
constituir verdadeira escola, por motivos óbvios.
Saber fazer não aprender é uma arte política, uma
competência necessária aos políticos das sociedades ocidentais e
aos interesses que servem, de modo a que os mesmo e os seus
descendentes mantenham a domínio social, quer seja na política,
na economia ou na cultura.
Já se terá reparado que uma grande parte dos
nossos políticos possuem apelidos que vamos encontrar nos livros
da nossa história, quer na direita, quer na esquerda do espectro
político? Quer na tradição monárquica como na republicana? Com
os mesmos apelidos a ocuparem sistematicamente posições-chave em
partidos simultaneamente nos dois lados? Não, nem sequer estamos
a pensar apenas nos irmãos Portas…
É por isto que no Reino Unido (um dos G7) se
presume, hoje em dia, que quase 20% da população seja iliterata.
Que nos E.U.A. os eleitores sejam pouco menos de 40% do total
dos residentes com idade para votar e que gerações de imigrantes
nunca tenham falado a língua oficial. Que em Portugal o abandono
escolar chegue aos 50% a nível do ensino básico. Um esquema
maquiavélico que permite uma propagação crescente de ignorância
que nos retira a principal arma do nosso tempo: o Conhecimento
que, fechado por uns poucos, faz descer o vasto manto da
escuridão sobre um todo cada vez mais desinformado, iletrado,
deslustrado e, logo, menos elevado; pouco respeitoso, bruto, com
muito pouca educação e escola, com muito concurso televisivo,
novelas a todas as horas; um todo que desrespeita a sabedoria e
o seu trabalho, que maltrata cada vez mais os mais velhos (os
que mais sabem), desde logo colocados de lado pelo poder e pelas
instituições; um todo que volta os mais novos contra pais e
professores, numa violência crescente protegida com os hiatos na
lei estrategicamente postos no caminho daquela redenção que,
outrora, se quisera alcançar através do Conhecimento.
Tudo isto obedece a um plano e todos nós somos
nele actores, iluminados pelos néons das facilidades bancárias,
dos prémios dos concursos, dos euromilhões e das raspadinhas,
com “prémios fabulosos”, numa cultura de pouco esforço onde os
que se esforçaram são vilipendiados em sala de aula por
“meia-gente” sem educação.
Sobre o caso da professora Adozinda, de 60 anos,
empurrada e insultada por uma aluna de 15 anos por causa de um
telemóvel, uma questão: o que estavam a fazer os seus colegas
professores das salas contíguas, durante aqueles quase dois
minutos de gritaria e safanões?
Força, senhor Procurador, não largue as escolas,
que quem por lá anda já nem sequer sabe proteger os seus.
O Director
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