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EDITORIAL

 

33 anos depois…

 

… em pleno aniversário da Revolução dos Cravos de 25 de Abril de 1974, num tempo de liberdades e igualdades de oportunidades ainda mal garantidas, num tempo em que Oliveira Salazar ganha um concurso televisivo de popularidade – não só por mobilização de certos grupos como também pelo imobilismo da maioria dos cidadãos (a parecer o referendo à Despenalização Voluntária da Gravidez em 1998) –, decidimos fazer Editorial desta edição número 51 da VS&C, um excerto do magnífico artigo de João Medina “Salazar, o Ditador Anti-Português”, publicado no número 20 da revista cultural “Mealibra” do CCAM (Inverno 2006/2007), e excelentemente ilustrado por H. Mourato. Com a devida vénia ao autor e à Mealibra, em Abril de 2007, nos 33 anos da revolução, quando os cães atiçados, perigosos, ladram mais alto que nunca …

 

Salazar em 1958 respondia a um jornalista francês do “Fígaro”: “’Não creio na igualdade, mas na hierarquia. Os homens, na minha opinião, devem ser iguais perante a lei, mas considero perigoso atribuir a todos os mesmos direitos políticos’ (…). Mais de um quarto de século antes, já anunciara com convicção, não menos dogmática: - ‘Nós aprendemos pelo raciocínio e vimos pela experiência que não é possível erguer sobre este conceito – a liberdade – um sistema político que efectivamente garanta as legítimas liberdades individuais e colectivas’ (…).

 

O resultado desta invariável bússola antidemocrática foi um Portugal mesquinho, atrasado, substituindo a industrialização e o desenvolvimento material, o alargamento da escolarização e a democratização necessárias do séc. XX, por um sonho doméstico de imobilismo social e económico, uma ucronia societária de ressaibos utópicos medievos, ao mesmo tempo que o Império funcionava como um imperativo categórico nacional, e uma vocação transcendental de todos os portugueses – ele que jamais tinha ido mais longe do que a Madeira nas suas viagens em direcção ao sul, ele o homem imóvel, paralisado no seu estreito ideário corporativo, anti-democrático e imobilizador na sua acção concreta, ele que, durante uma reunião de governadores coloniais, afirmara tranquilamente que devíamos ‘organizar cada vez mais eficazmente a protecção das raças inferiores’, nunca se dando ao trabalho de ir visitar uma única colónia ou ‘província ultramarina’ sob administração portuguesa, apegando-se com férreo autismo ao mito imperial, depois luso tropical, duma nação que não seria pequena porque os seus territórios ultramarinos, uma vez somados e sobrepostos sobre o mapa da Europa, quase cobriam a extensão do continente europeu, do Atlântico aos Urais. E com este mito delirante recusou qualquer hipótese de abertura democrática intra muros ou descolonizadora, inovadora em economia ou em educação e cultura, regendo o país como um colégio católico tradicional.

 

Fradalhão solitário, incapaz de criar família que tanto apregoava aos outros, recusando ser pai e ter filhos, foi também incapaz de engendrar elites que o continuassem, ainda que as fascizantes Mocidade Portuguesa e Legião Portuguesa, mais a fictícia e inerte União Nacional e, sobretudo, a realíssima e eficaz polícia secreta, a PVDE (depois PIDE), mantivessem o país em aparência unânime, ginasticado na obediência e na adesão às normas governamentais muito severas, conformado e conformista, acatador das regras impostas pelo poder autoritário, imobilizado na sua paz podre de nação à margem da Europa e do tempo, mais empenhada em reconstruir velhos castelos medievos do que edificar maternidades, mas sempre empenhadíssimo em dar tudo por tudo para manter a ficção duma sacrossanta e inalienável Baratária ultramarina que levaria a encetar uma guerra criminosa e calamitosa, porque condenada a ser perdida, que duraria 13 anos, dando, por fim, com a sua pesada e grotesca ficção ucrónica no duro chão da dura realidade, apesar dos remendos cosméticos insuficientes postos em prática, desde 1968, pelo seu natural sucessor Marcelo Caetano, um ex-integralista incapaz de tomar medidas corajosas, Hamletezinho pacóvio, político pusilânime e tacanho que os militares de Abril, acabariam por depor e mandar. Caritativamente, para o Brasil, depois de uma pausa cogitativa na Madeira” (…).

Para que não esqueçamos.

 

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