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O Conde Operático
(sobre o acto II e último do ciclo da AO NORTE sobre Luchino
Visconti)

Quem tenha aproveitado a primeira parte deste ciclo, terá visto
um Luchino Visconti como percursor do neo-realismo italiano
(logo em Obsessão, 1943), como autor de um dos seus exponentes
máximos (A Terra Treme, 1948) e como exímio utilizador dessa
linguagem cinematográfica política, social e melodramática
entretanto estabelecida (Belíssima, 1951, e Rocco e os Seus
Irmãos, 1960).
Quem tenha perdido tempo na leitura do primeiro acto destes
textos sobre o dito ciclo, saberá também que o trabalho de
Visconti se estendeu para teatro e ópera durante o período
abordado e que, entre os últimos dois filmes exibidos, ele
realizou Sentimento, em 1954. Diz o mais avalizado Martin
Scorcese, no recente documentário A Minha Viagem a Itália, que
este é o filme que “marca o momento em que Visconti passa a
trabalhar em total o artifício como caminho para a verdade”. É
onde a segunda parte deste ciclo se desenrola.
Se o membro filiado do partido comunista italiano já encenava
óperas fílmicas no despojado A Terra Treme, a partir daí, o
perfeccionismo de sumptuosidade cénica e musical irão tornar-se
progressivamente sinónimos do nome e obra do Conde Luchino
Visconti di Modrone. Ou seja; algo viscontiano.
Não é que o cunho de conde comunista tenha, inteiramente,
desaparecido dos filmes presentes (Os Malditos mostra a
prepotência da ascensão nacional-socialista; Morte em Veneza
revela a existência de cólera na cidade, primeiro entre os
pobres; Luís da Baviera diz sobre a aristocracia que levaria o
mundo à I Guerra Mundial: “Somos todos incestuosos e
fratricidas; só resta saber porquê?”) mas o seu pano de fundo
adorna-se e muda-se para o palco histórico, ou para o que hoje
se chamaria de filme de época. Os citados Malditos na subida ao
poder de Hitler; Morte em Veneza na belle époque da ascensão
burguesa; Luís da Baviera no séc. XIX do declínio aristocrata e
das lutas nacionalistas (como, aliás, O Leopardo, já de 1963); o
Intruso, e para os seus protagonistas, no ponto indistinto entre
essas duas épocas.
Faz sentido: o viscontiano acontece quando Visconti se volta
para si. Nobre de uma das mais velhas famílias aristocratas da
Europa, comunista de convicção e luta, cultivado em música,
teatro e literatura. Disse uma vez que “se Stendhal queria que
lhe gravassem na campa: ‘Adorava Cimarosa, Mozart e
Shakespeare’; Eu queria que gravassem na minha: ‘Adorava
Shakespeare, Tchekov e Verdi”. Como disse que este último e o
melodrama italiano “foram o meu primeiro amor”. Ou afirmou
pertencer ao tempo de Thomas Mann, Proust e Mahler; à época do
seu nascimento, em 1906.
Portanto, o pós-cénio histórico e o pano de cena technicolor são
apenas os artifícios no tal caminho para a verdade a que
Scorcese se refere. Uma verdade ainda social e política e ainda
retrato de época (contemporânea ou histórica), mas agora
manifestamente centrada no indivíduo que lhes dá corpo, na sua
angustia existencial, na sua sexualidade, na sua luta com o
tempo. Seja ele anónimo ou um nome central dos acontecimentos
que o erguem ou anulam.
Ultrapassado esse espaço e levantada essa cortina, o que,
paradoxalmente, Visconti nos encena são os limites do humano e
as interrogações fundamentais na sua maior crueza.
Os Malditos narra a queda da família von Essenbeck emersa na
subversão de princípios morais que presidiu ao nazismo. Morte em
Veneza observa com uma câmara impressionista o declínio físico e
artístico de um compositor que se apaixona por um adolescente,
sob a luz do confronto criativo racionalidade versus
emotividade. Luís da Baviera, segue a vida coroada de Luís, o
Louco; a sua luta quixotesca com os tempos, a ânsia de ascese
estética e intelectual que o renderiam ao exagero, androginia e
insanidade. O Intruso, último filme de Visconti, retrata
infanticídio e suicídio num quadro de desenquadramento temporal.
São filmes fortes, obrigatoriamente fortes. Está-se aqui num
patamar além do Visconti do primeiro acto deste ciclo. A ópera
“música própria para operários”, citada d’O Pátio das Cantigas,
torna-se aqui imprópria para pessoas impressionáveis.
No entanto, os filmes de Visconti continuaram a vender
bilheteiras. Pelo artifício de que se fez mestre (houve quem
chegasse a aconselhá-lo a ser costureiro e não realizador…),
pelo melodrama patente (menos pelo drama latente), pela temática
de época tão ao gosto europeu, pelas estrelas (Silvana Mangano,
Romy Schneider, Dirk Bogarde, Laura Antonelli…); não interessa.
O facto é que o conde operático continuou a agradar ao
operariado. Ainda hoje, a minha mãe irá chorar baba e ranho com
a história do incompreendido Ludwig e a visão deslumbrante da
Sissi.
E da ópera (que, convém nunca esquecer, era uma música popular
na época a que Visconti disse pertencer), há nestes filmes a
plenitude musical viscontiana. E muito para além da mera
mise-en-scène: Em Luís da Baviera, Wagner é um personagem
principal (e, no mínimo, desmascarado em termos pessoais) e a
música é dele, de Schuman e Offenbach. Morte em Veneza, para
além do romance homónimo de Thomas Mann, gira praticamente em
torno de Mahler e das suas sinfonias nº3 e nº5, Os Malditos
arranca com um ribombar filarmónico de Maurice Jarre e O Intruso
conta com Mozart, Chopin, Liszt e Gluck na sua banda sonora.
No fim, fica a história do aristocrata artista para o povo e
para si, mais as histórias que ele contou com a sua própria.
Fica ainda a torrente de referências que ele enunciou e mais as
que nós lhe fomos colando, e a vontade de que quem não o
conhecesse antes deste ciclo, possa vir a dizer viscontiano um
dia destes.
Não como artifício, mas como uma indicação igual a outra
qualquer que aponte o caminho para a tal verdade, operária ou
operática, que tanto Scorcese sabe como Visconti soube que não
existe.
Eduardo Sardinha
AO NORTE
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